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“Torre das Donzelas é um convite à resistência”, diz cineasta que reviveu presídio feminino durante a ditadura

Por Elcio Ramalho

Acolhido calorosamente pelo público durante uma projeção no 21ª edição do Festival de Cinema de Paris, o documentário “Torre das Donzelas”, dirigido por Susanna Lira, resgata a experiência dolorosa de ativistas políticas presas durante a ditadura militar em um presídio de São Paulo.

“A diferença dessa prisão é que as mulheres burlaram o conceito de 'prisão', se uniram, se transformaram politicamente e fizeram uma revolução pessoal. Elas estavam presas, não podiam fazer a revolução fora dali, mas fizeram uma revolução interna e muito inspiradora. O filme fala sobre isso”, explica Susanna.

“Esse documentário é um convite para a gente resistir e nunca desistir de nossos valores e principalmente lutar pela liberdade”, acrescenta. "Torre das Donzelas" retrata a experiência de muitas detentas na ala feminina do presídio Tiradentes, em São Paulo, criada durante a ditadura militar e que durou três anos (1969 -1971).

O processo para realização do documentário foi longo, e durou sete anos. Para o filme, a cineasta recriou um espaço a partir de desenhos e lembranças das personagens da ala da prisão.  

“Decidi reconstruir o espaço porque, quando entrevistava cada uma delas isoladamente, senti que a memória era algo que ainda precisava de um coletivo. Queria recuperar o que elas tinham vivido na Torre”, justifica Susanna.

A cineasta argumenta que a escolha de recriar o espaço também foi um ato político. “Existe um apagamento de espaços de memória no Brasil. Nesse sentido, esse também é a função da arte, que é provocar. Essa é uma instalação acima de tudo provocadora, para puxar a teia da memória. Ali, elas conseguiram contar juntas a história dentro do coletivo”, destaca.  

Reunidas quase cinco décadas depois do episódio, elas relembram o cotidiano da prisão, as angústias, as descobertas da sexualidade, das militância política e os momentos de tortura e repressão.

Convencê-las a participar do documentário foi a parte mais complexa do projeto, lembrou Susanna na entrevista à RFI. “Elas me achavam muito jovem para contar uma história que hoje tem 50 anos. O fato de eu ter tido minha família dilacerada pela ditadura militar fez com que elas tivessem esse elo comigo”, conta a cineasta que perdeu o pai durante o período militar.

Dilma Rousseff relata experiência na Torre

Entre os depoimentos está o da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, militante do grupo de luta armada VAR – Palmares, que ficou presa no local. Ela foi a última a aceitar a prestar seu depoimento, embora isolado, sem ter ido ao local reconstruído.

“Ela teve seu passado muito distorcido, pessoas o usaram politicamente de uma maneira muito cruel, colocando em sua biografia coisas que não foram reais. Ela tinha receio de rever esse passado sem o risco de ser deturpado”, acredita.    

Os depoimentos das ex-companheiras de prisão foram determinantes para convencê-la, assim como o episódio da votação de seu pedido de impeachment na Câmara dos Deputados, quando o então deputado federal Jair Bolsonaro fez uma homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, reconhecido pela justiça como torturador.

“Acho que naquele momento elas sentiram a importância de falar sobre o assunto, principalmente a presidenta Dilma. A gente tem que falar do passado e não fingir que não aconteceu. Esse passado é uma das coisas mais lindas da biografia dela, de ter lutado contra a ditadura militar durante sua juventude”, afirmou.

Susanna também viu na obra a ocasião para destacar o papel de muitas mulheres con combate contra o regime militar. “A gente ouve falar sobre luta contra a ditadura muito de um ponto de vista masculino, dos grandes ícones. As mulheres sofreram um duplo preconceito; primeiro porque luta política não era lugar de mulher (inclusive no filme elas relatam que ouviam: ‘você aguenta, você é macho’). E segundo, que naquela época vivia-se uma revolução de costumes. Esse grupo de mulheres é muito especial porque estavam quebrando padrões e lutando pelo direito político de ser mulher plenamente”.  

Lançamento previsto no Brasil

No momento em que representantes do governo brasileiro buscam criar uma outra narrativa para o período da ditadura militar, relativizando o regime de exceção instaurado entre 1964-1985, Susanna diz que seu filme contribui para manter vivo um passado que muitos pretendem apagar.

“Coloco esse filme na estante dos documentos históricos brasileiros, por ter filmado fatos, narrativas e relatos inéditos muito importantes do que aconteceu no Brasil. Espero que a memória não se apague e a gente continue tendo espaço para falar. Você pode ter alternância de poder, de visão política, mas não pode apagar a história”, diz.

Depois de vencer prêmios em Festivais de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, “Torre das Donzelas” começou uma carreira por festivais internacionais, mas com a previsão de ser lançado em maio no circuito comercial brasileiro. “Espero que o público possa assistir. Quero que ele seja visto. Nesse momento em querem de novo apagar a memória, a gente quer trazer um pouco mais de verdade através do cinema e que o público possa refletir um pouco mais sobre nossa história”, conclui.

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