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“Em tempos de segregação no Brasil, jovens são os mais atacados”, diz professor em Paris

Por Maria Paula Carvalho

No Brasil, muitos jovens são vítimas de situações de sofrimento devido a questões sociais, econômicas, raciais e de gênero. A RFI conversou sobre esse assunto com Pedro Castilho, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, a frente do projeto Desembola na Ideia, uma instituição que atende adolescentes que moram na periferia de Belo Horizonte. Ele está em Paris para contar sua experiência na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris.

Para assisitir à entrevista na íntegra, clique no vídeo abaixo.

As atividades da associação começaram em outubro de 2016, a partir de uma experiência piloto em 2008. O próprio nome “Desembola na Ideia” é uma gíria juvenil que traduz exatamente o que deve ser prioritário: resolver os problemas.  

“Desembola na Ideia quer dizer que se o sujeito está passando por uma situação difícil ou um certo constrangimento a ideia é: fale sobre isso, fale o que você está sentindo”, explica. “Vem da metodologia da psicanálise de orientação lacaniana, que sai do espaço privado do consultório para ser aplicada onde esses jovens estão vivendo”, acrescenta.

“O objetivo é propiciar para esses adolescentes uma oportunidade para eles se expressarem a seu modo, utilizando a sua cultura e realidade social, a situação na qual eles estão inseridos para tentar tirá-los da vulnerabilidade, do uso de drogas, do desemprego e do ostracismo no qual se encontram”, explica.  

“Eu faço uma intervenção semanal com meninas que estão sob regime de internação em centros socioeducativos e utilizamos a metodologia da conversação. Ou seja, abrir para elas uma oportunidade para contarem a sua realidade, o convívio com o tráfico, as relações familiares ou com parceiros, e encontramos situações de deterioração psíquica, em que elas não conseguem traçar um futuro profissional, pois estão sempre pensando em coisas imediatas”, conta.

“A ideia é entrar no mundo dessas jovens para ver como elas lidam com questões ligadas à afetividade, à família, a relação com elas mesmas, a relação com o poder ou a própria sexualidade e tentar incentivar uma reflexão sobre a maneira como elas enxergam a vida”, completa.

A origem dos problemas pode estar no seio familiar

“Você encontra famílias bem desarticuladas, com uma ausência paterna acentuada. Em quase 90% das famílias, os pais não convivem com esses jovens. Existe, também, o problema racial. Quase 90% deles são negros, na faixa etária de 12 a 18 anos, que vivem nas periferias”, descreve.

O Desembola na Ideia é um projeto realizado pela Associação Imagem Comunitária. A iniciativa busca criar oportunidades de inserção desses adolescentes em situação de risco social na família, nos espaços públicos, na educação e na cultura. E pela intervenção artística, criar um outro olhar da sociedade em relação aos adolescentes de baixa renda em conflito com a lei.

“Há uma lacuna muito grande na sociedade para ouvir esses jovens, ainda mais se levarmos em consideração os tempos atuais, quando estamos vivendo um momento de segregação muito grande no Brasil e eles são os mais atacados”, ressalta Pedro Castilho. “Estamos vivendo agora uma discussão sobre a redução da maioridade penal e esses jovens que vivem nas periferias, negros, e que enfrentam uma situação de desigualdade social, tornam-se mais vulneráveis”, alerta.

Ao criar um espaço de discussão sobre os direitos dos adolescentes e as possibilidades de construção de uma cidadania ativa, o projeto vem colecionando casos de sucesso.  

“Nós temos uma porcentagem de vitórias, mas também de fracassos, e tem os casos daqueles que nem melhoram e nem pioram. É uma ação possível que tem uma visão sociológica do problema e que propõe uma intervenção a partir da psicanálise, tratando da realidade dessa população, mas eu não poderia dizer que todos que participam dessa conversa conseguem se reinserir na sociedade”, conclui.

 

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