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“Macron quis governar a França como uma startup”, diz especialista sobre dois anos do presidente no poder

Por Elcio Ramalho

Em meio a uma grave crise social simbolizada pelos "coletes amarelos", o presidente francês Emmanuel Macron celebra neste 7 de maio dois anos da vitória na eleição presidencial.

O mais jovem presidente da história da França assumiu o poder aos 39 anos e suscitou muitas esperanças ao propor uma revolução no sistema político, com o fim da polarização dos partidos de direita e esquerda que vigorou por décadas no país.

Mas seus dois primeiros anos no Palácio do Eliseu despertaram muitas frustrações em uma camada da população que desde novembro sai às ruas todos os sábados para denunciar o descontentamento com sua política econômica e social.

“Ele pensou que poderia governar o país como uma empresa, uma startup, sem passar pelos ‘corpos intermediários’, como os sindicatos e partidos políticos. Macron fez reformas a um ritmo rápido e a principal oposição de fato foi a sociedade civil. Ele queria o contato direto com o povo francês e foi complicado”, avalia Stéphane Witkowski, presidente do Conselho de Gestão e de Orientação Estratégica do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade Sorbonne.

No início de seu mandato, Macron aproveitou o capital político conquistado nas urnas e deu início a seu vasto programa de reformas  liberais para dinamizar a economia francesa. Entre as principais medidas, promoveu uma simplificação das leis trabalhistas, que considerava rígidas demais, e mudou o status da SNCF, a estatal ferroviária francesa.

No entanto, sua reforma tributária provocou ruídos nas classes populares ao suprimir o Imposto de solidariedade sobre a fortuna (ISF) e modificá-lo para um imposto sobre o patrimônio imobiliário. Mal recebida, a mudança reforçou sua imagem de “presidente dos ricos”.

“Ele é jovem, marcou uma ruptura, mas não levou em conta a evolução da sociedade francesa. Macron herdou uma frustração devido a uma fratura territorial no país, com as camadas mais populares insatisfeitas com a queda do poder aquisitivo. Uma parte da França não se sente considerada pelas elites do país e ele representa essa elite”, explica Witkowski.

Macron se tornou um presidente contestado, com uma taxa de popularidade em queda. Segundo pesquisa do Instituto Viavoice para o jornal Libération publicada nesta segunda-feira (6), apenas 26% dos franceses têm uma imagem positiva do chefe de Estado, ou seja, uma queda de dois pontos em relação à pesquisa anterior. A mesma sondagem apontou que 65% dos entrevistados têm uma opinião desfavorável do presidente, um aumento de quatro pontos.

Comparado com o mesmo período de governo de seus antecessores, Macron exibe uma taxa de popularidade melhor que a do socialista François Hollande, de quem herdou o governo, mas pior que a do conservador Nicolas Sarkozy.

A degringolada na opinião pública nos primeiros anos de mandato não é um fenômeno recente na política francesa, mas Emmanuel Macron demonstra dificuldades em inverter uma ruptura cristalizada pelo movimento dos "coletes amarelos".

Entre dezembro e abril, o chefe de estado fez uma série de anúncios de valorização salarial e de redução de impostos para as camadas mais modestas da população. No total, as medidas devem ter um impacto de cerca de €15 bilhões nos cofres públicos.

Difícil controle do movimento dos "coletes amarelos"

A iniciativa lançada por Macron conhecida como Grande Debate, na qual percorreu durante três meses várias regiões da França para discutir diretamente com prefeitos e cidadãos os problemas locais e regionais, também parece não ter sido suficiente para responder às demandas de maior justiça fiscal e conter a revolta dos "coletes amarelos".

“As reivindicações deles são diferentes. Por trás desses movimentos, sem coordenação clara, existe uma reivindicação de cortar a cabeça do rei. É uma tradição na França de querer cortar a cabeça do rei”, ressalta Kiwtowski, ao se referir ao período monárquico do país. Para o especialista, o presidente Macron tem um estilo de poder vertical e “jupiteriano”, em alusão ao  personagem da mitologia romana que representa o poderoso rei do Olimpo. 

“Ele teve 20% no primeiro turno (da eleição presidencial) e o resto dos franceses se sentem representados por movimentos tradicionais, por isso uma certa frustração que é incarnada por esse movimento ("coletes amarelos") inédito no país. Esse tipo de movimento é impossível de controlar normalmente e deve durar ainda vários meses”, prevê. 

Nos três anos de mandato que faltam ao presidente francês, há possibilidade de Macron se reconciliar com os franceses descontentes, segundo o presidente do IHEAL. “Ele é inteligente e tem possibilidade de reagir e de se adaptar às situações”. 

Apesar de seu partido ter uma maioria na Assembleia, que o apoia nas reformas e na condução de suas políticas, o problema, segundo o especialista, está na falta de personalidades políticas de peso no seu atual gabinete.

As saídas de dois grandes nomes de seu governo, o popular Nicolas Hulot, que deixou o ministério da Ecologia, e Gérard Colomb, que trocou o ministério do Interior pela prefeitura de Lyon, prejudicaram a imagem do governo.

“Falta uma personalidade que possa passar uma mensagem de maneira ampla. Uma liderança do governo que comunique bem com o público”, afirma.

Eleições Europeias

Segundo Witkowiski, Macron tem uma visão europeia muito forte e  “provavelmente de todos os presidentes da 5ª República francesa, seja o mais europeu”. No entanto, o chefe de Estado tem dificuldades de concretizar sua ambição de líder de uma Europa integrada em meio às dificuldades de afinar sua agenda com a Alemanha da chanceler Angela Merkel, e obstáculos como o Brexit e o governo populista italiano, anti-europeu.

Para o especialista, as eleições europeias de maio vão representar o maior desafio de Macron nas urnas desde o início de seu mandato.

Segundo sondagem realizada pela Epoka e Harris Interactive, a lista de candidatos de seu partido, o República em Marcha (LREM), está empatado com a legenda Reunião Nacional, da líder da extrema direita Marine Le Pen, com 21, 5% das intenções de voto.

“Tradicionalmente nas eleições europeias os franceses votam por motivos políticos internos, mais do que razões de política europeia.  O risco é de uma polarização. É difícil para Macron fazer campanha. O resultado não pode ser em favor de seu partido e vai ser importante para a sequência de seu mandato”, avalia.  

 

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