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“O problema do Brasil não é econômico, é político”, afirma vice-presidente da CNI em Paris

Por Maria Emilia Alencar

Aconteceu em Paris nesta quarta-feira (5), em meio a protestos de brasileiros e franceses, o VI Fórum Econômico Brasil-França, que contou com a presença do ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, o General Carlos Alberto dos Santos Cruz, e do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade. Para entender como se desenrolaram as discussões, a RFI conversou com Eduardo Gouvêa Vieira, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) e vice-presidente da CNI, que também participou do evento.

RFI: O senhor acabou de participar do Fórum Econômico França-Brasil, organizado pelo Medef, organização do empresariado francês. Qual o saldo desse encontro?

Eduardo Gouvêa Vieira: A importância desse fórum foi trazer o ministro de Estado, General Santos Cruz, para falar sobre o “novo Brasil”, sobre as privatizações, mostrando que o país tem uma perspectiva de receber recursos de longo prazo. O Rio de Janeiro é o estado que mais tem estoques de investimentos franceses historicamente. Existe uma vontade das empresas internacionais investirem, acreditando no futuro do Brasil. O que nós viemos provocar nos franceses é: os asiáticos estão chegando no país, portanto é hora da França também mostrar sua capacidade histórica de fazer alianças com o Brasil, um país amigo.

RFI: A expectativa dos investidores franceses é a reforma da previdência?

Para eles e para nós. Estamos acompanhando a discussão aqui na França da reforma da “retraite” [“aposentadoria”, em francês], que vai ser mandada para a Assembleia no segundo semestre e votada em 2020. O Brasil não tem esse tempo para esperar. O governo Bolsonaro mandou o projeto de reforma já no mês de março. Tudo indica que a Câmara dos Deputados vai votar até o final de julho e o Senado vai aprovar isso em agosto ou setembro. Isso vai permitir investimentos de perto de US$ 400 bilhões nos próximos dez anos, entre públicos e privados. No domínio da saúde, educação, infraestrutura, enfim, é uma avenida de investimentos que precisa dessa certeza de poupança pública.

RFI: As análises, dentro e fora, afirmam que o governo Bolsonaro está perdendo o foco das reformas dando prioridade a temas irrelevantes como, por exemplo, porte do fuzil ou flexibilidade das leis de trânsito. Como os investidores veem a reação do governo à insatisfação interna e também à dificuldade na relação com o Congresso?

Quanto à questão da prioridade, o governo mandou três medidas da maior importância para a sociedade brasileira. A primeira, da aposentadoria, depois a reforma para perseguir a corrupção, da moralização pública, e a terceira foi a liberdade de empreendimento. Essa última, que acredita nas empresas e no cidadão antes de licenças, por exemplo, é uma mudança de paradigma para todos nós, países latinos. Os anglo-saxões estão habituados a legar à sociedade, em primeiro [lugar], a confiança. As outras agendas não são vitais para o Brasil. Aquilo em que nós estamos debruçados, o próprio governo e a área econômica, são apostas que fazem sentido, de uma forma estruturada, para o Brasil. O resto é resto. 

RFI: Mas como os investidores veem, por exemplo, os cortes na área da educação, num país que precisa tanto disso?

Os investidores estão conscientes que temos um déficit brutal nas contas públicas e o corte não foi feito só na educação, foi em tudo, porque não existe dinheiro. É lamentável que a educação tenha sido atingida, mas infelizmente não tem recurso. Uma vez que a reforma da previdência passar, daqui a quatro anos, o Brasil vai sair de dez anos de déficit fiscal.

RFI: Qual o principal interesse dos investidores franceses?

Por exemplo, um empresário que constrói centros de atendimento a velhices, que é uma novidade. Tem todos os espectros econômicos. Os investidores sabem o que o Brasil oferece em termos de tamanho, população, opinião pública livre, democracia madura e instituições funcionando muitas vezes com opiniões diferentes das nossas, isso é muito raro.

RFI: Quais são os maiores obstáculos a serem superados?

A política. Infelizmente, o Congresso Nacional, que foi renovado de forma dramática nas últimas eleições, ainda conta com políticos que pensam como antigamente, querendo favores, cargos no governo, e sem dar prioridade ao interesse nacional. O problema não é econômico, é político, que faz parte da vida democrática.

RFI: O custo da violência no Brasil chega a 6% do PIB. O senhor vem do Rio de Janeiro, onde a situação é bastante difícil nessa área. Isso cria uma instabilidade nos investidores que se interessam pelo país?

Evidentemente, isso não é um fator favorável. O Brasil tem violência, mas por outro lado, por enquanto não existe terrorismo. Infelizmente, a humanidade está em transição, o comportamento humano está sendo questionado, as pessoas estão incomodadas com a sociedade, existem problemas dramáticos em todo o mundo que também atingem o Brasil e sua juventude, em função do tráfico de drogas.

RFI: Qual foi o protocolo de intenções preconizado nesse encontro com empresários e investidores franceses?

Não foi assinado protocolo nenhum. O que foi dito é que o Brasil está de braços abertos para qualquer tipo de investimentos. Que é um país que busca tratar os investidores de maneira igual, sem privilégios. Que a sociedade brasileira, já nas urnas, mostrou que não quer mais corrupção. Que os agentes públicos têm que entender que a sociedade está mais madura. E os empresários também, esses que procuram se beneficiar dos recursos públicos, não são mais admitidos na vida econômica e social brasileira.

RFI: Como o senhor vê os protestos de franceses e brasileiros contra ações do governo Bolsonaro, aqui em Paris?

Sinceramente, não vi a manifestação. Agora, manifestação faz parte da democracia. As pessoas, na França e no Brasil, têm o direito de se expressar como elas bem entenderem. O fato é que o governo Bolsonaro está cumprindo uma agenda que ele prometeu na campanha eleitoral, que suscitou a vitória dele. As coisas estão caminhando numa bonita democracia.

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