rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
RFI CONVIDA
rss itunes

Psicanalista brasileira coordena seminários em Paris sobre angústia e distúrbios na aprendizagem

Por Paloma Varón

“O que a gente tem de fazer é investir na educação e escutar as crianças e os jovens”, diz a psicanalista Marília Arreguy, que coordena em Paris os seminários "Psicanálise e Educação - Angústia e Distúrbios de Aprendizagem", iniciativa da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Escola Doutoral de Pesquisa em Psicanálise da Universidade Paris-Diderot (Paris 7). A próxima sessão acontece no dia 18 de junho, das 18h às 20h.

Além de tratar de temas de educação, a psicanalista e professora da UFF escreve sobre racismo no seu novo livro "Racismo, Capitalismo e Subjetividade - Leituras psicanalíticas e filosóficas", coorganizado com Marcelo Bafica, e sobre paixão em um capítulo do também recém-lançado livro "Passionnément, à la folie ?” (algo como “Louca Paixão”, em tradução livre), sobre a erotomania, uma psicopatologia que consiste na exageração, às vezes mórbida, dos sentimentos amorosos.

Confira o vídeo com a entrevista completa no final do texto.

RFI - Marília, gostaria que você explicasse esta série de seminários que você coordena aqui em Paris.

Marília Arreguy – Eu vim para Paris em 2017 para um pós-doutorado na Universidade Paris 8 e, paralelamente, nós iniciamos estes seminários sobre Psicanálise e Educação na Paris-Diderot (Paris 7). Fizemos um ano sobre a noção de autoridade e seus limites e agora estamos discutindo a questão da angústia e problemas da aprendizagem. São seminários mensais em que vários convidados vêm discutir os temas propostos, cada um dentro de uma linha da psicanálise e é um seminário aberto para professores, educadores, psicanalistas, estudantes, pesquisadores, doutorandos, mestrandos.

RFI - Vocês falam da angústia entre crianças e adolescentes? As realidades francesa e brasileira são abordadas? Há muitas diferenças?

MA - Nós fazemos alguns paralelos entre os dois países [França e Brasil] e, como é um seminário internacional, algumas vezes vêm pessoas de outros países que também trazem suas experiências. Justamente por ser um seminário, a gente sempre tem um espaço para as pessoas falarem e discutirem a realidade de cada país ou de cada contexto onde elas vivem.

No Brasil, nós vivemos problemas muito graves relacionados à educação por conta de cortes de verbas, principalmente atualmente. Em todos os níveis da educação, inclusive na educação superior. Nós vemos bastante as questões de infância e adolescência, mas também tratamos a questão da angústia na educação como um todo. O que é esta demanda por educação, esta exigência de adaptação, este modelo a seguir de sucesso.

Nós vemos por exemplo, o contexto japonês, que é tão distante da gente, mas que acaba se refletindo hoje em dia em adolescentes que se suicidam por falta de sucesso escolar. Esta questão do fracasso escolar é discutida a partir da ideia de que existe um contexto, uma estrutura e, para a criança e o adolescente serem bem-sucedidos, este contexto também precisa ser repensado e revisto.

Na França, existem hoje em dia muitos problemas por conta também de novas leis, reformas que são feitas muitas vezes sem considerar a realidade dos professores, dos educadores.

RFI - Quais as características do ambiente escolar que podem ser modificadas para que se diminuam os sintomas de angústia?

MA - Além desta exigência enorme de sucesso dentro de um mundo narcísico, espetacular, onde as pessoas têm que ter uma performance muito grande, a gente vê também o problema dos professores mal pagos, a falta de estrutura nas escolas no Brasil.

Aqui na França, tem muito esta comparação mesmo entre os alunos, os problemas de maus-tratos entre as crianças. A principal questão é que existe uma estrutura na escola. Muitas vezes não existem psicólogos, assistentes sociais, principalmente nas escolas públicas brasileiras.

Aqui na França a realidade é bem diferente e por isso a gente vem trocando essas experiências com os profissionais daqui. A gente tem ainda muito o que aprender com a França, principalmente na questão dos limites, da autoridade. Mas a angústia, ela faz parte da vida. A gente precisa essencialmente poder ouvir as crianças, ouvir os adolescentes, porque muitas vezes eles não têm voz no contexto escolar.

RFI - Além disso, você acaba de lançar no Brasil o livro "Racismo, Capitalismo e Subjetividade - Leituras psicanalíticas e filosóficas". Você poderia falar um pouco deste livro e da importância de se discutir o racismo no Brasil de hoje?

MA - Esta é uma das questões mais delicadas que a gente tem a discutir porque no Brasil se diz que não existe racismo, que existe muita cordialidade; isso não é verdade. Uma das questões que gera muita angústia são estas comparações: as diferenças que não são tratadas de um modo natural, elas são negadas. Elas precisam ser ditas e reconhecidas. Então a inclusão é fundamental, mas mais do que a inclusão, é a transformação da mentalidade. A mentalidade brasileira ainda é muito escravocrata, porém dissimulada. Muito já foi feito com o sistema de cotas, mas muita coisa precisa ainda ser feita. Uma das questões que é discutida neste livro por um professor da Universidade Paris 8 é a questão da “reformitis aguda”, como se a gente tivesse de fazer milhões de reformas na educação. Na verdade o que a gente tem de fazer é investir na educação e escutar as crianças e os jovens.

RFI - E o seu capítulo em um livro de psicanálise recém-lançado aqui na França, sobre a paixão, do que se trata?

MA - Este capítulo é sobre a erotomania. Eu procuro entender esta psicopatologia de um modo mais sutil e generalizado.

Existe um traço, que é um traço erotómano, em todas as relações, principalmente num mundo de performance, em que todos têm de ser belos e amados, num mundo narcísico, numa cultura narcísica, em que a gente espera do outro ser amado antes da capacidade de perceber a existência do outro e a diferença que esse outro representa na nossa vida. Então eu procuro tratar neste capítulo, a partir de um caso clínico, desta posição do sujeito em que ele tem que ser amado a qualquer preço.

 

Hong Kong: Impacto internacional limita riscos de novo massacre pela China, diz professor

Brasileiro propõe Notre-Dame com cobertura leve em vitrais: “Risco estrutural é real”

“Somos seres humanos como Bolsonaro”, diz índio brasileiro no Festival de Locarno

“Países que praticaram políticas de privatização do ensino nunca chegaram a esse nível”, diz professora da Unirio, que participa do protesto pela educação no Brasil

Após turnê europeia, cantor Dienis retorna ao Brasil com “Lua Cheia”

Filme de brasileira concorre a prêmio no Festival de Locarno tocando em feridas abertas da colonização amazônica

Paulo Artaxo: limitar aquecimento global a 2°C é “praticamente impossível”

Não há risco de epidemia de malária vinda da Venezuela, mas de sarampo sim

Brasil vive "tentativa de imbecilização coletiva”, diz filósofo português

Arles: festival de fotografia mostra trabalho de Pedro Kuperman e indígenas Ashaninka, do Acre

“Aliança militar com EUA é coerente com projeto de submissão do Brasil”, diz pesquisador da UNESP

Ao dar "bolo" em chanceler francês, Bolsonaro mostra que não tem postura de presidente, analisa cientista político

“O sistema judiciário se tornou espaço de disputas políticas”, diz juiz Rubens Casara

Discurso de governo para explorar terras indígenas legitima invasões, alerta organização indigenista

“A sociedade diz todos os dias como uma mulher negra tem que se comportar”, afirma cantora Tássia Reis, em turnê na Europa

Demônios da Garoa se apresenta pela primeira vez na Europa em festival que homenageia São Paulo

“Workaholic”, Balzac tinha a pulsão de retratar a França do século 19, diz pesquisadora

“Foi o jornalismo que me preparou para a música”, diz a cantora Letícia Maura