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Desdém da classe média pelos mais pobres foi essencial para vitória de Bolsonaro, diz historiadora de NY

Por Stephan Rozenbaum

A RFI entrevistou a professora de História da Universidade de New York, Barbara Weinstein, que recentemente lançou um livro sobre a questão racial e a identidade regional na cidade de São Paulo. Em Paris, ela foi convidada pela Escola de Altos Estudos Sociais para uma série de palestras sobre o Brasil.

RFI: Em suas palestras você tratou da situação racial, das diferenças entre as classes sociais no Brasil e da questão das desigualdades regionais. Você enxerga a chegada de Jair Bolsonaro ao poder como algo que está intrinsicamente ligado ao crescimento dessas desigualdades?

Barbara Weinstein: Eu acho que está ligado, não só ao crescimento destas desigualdades, mas a toda uma história dessas desigualdades. Eu acabei de publicar um livro sobre a questão da identidade regional, e eu coloquei como uma ideia, nas últimas páginas do livro, que o Brasil, cada vez que tem uma certa tensão e um certo conflito em termos de política, acontece uma regionalização da política. A gente, já desde 2006, estava vendo essa regionalização. Que o PT estava ganhando votos principalmente no Nordeste do país e o PSDB, naquela época, principalmente no Sul. Então, esse padrão está crescendo após cada eleição. Acho que agora, o mapa eleitoral do Brasil é totalmente regionalizado. Eu acho que existe um certo ressentimento por parte dos Estados mais prósperos relativo aos Estados mais pobres. Com isso surge todo um discurso de que eles são vagabundos no Nordeste, que eles não trabalham, “somente nós trabalhamos e somos nós que temos que sustentar todo esse povo”. Então, em vez de ter um discurso que privilegia a maior igualdade, um bem-estar geral, existe esta divisão regional e um certo desdém com o Nordeste, por parte de muitas pessoas do Sul, Sudeste, e agora do Oeste, que estão virando os baluartes do conservadorismo.

RFI: Existe o sentimento de superioridade em alguns estados?

BW: Eu acho que em São Paulo é inegável de que existe uma longa tradição, desde o fim do século dezenove e o primeiro ciclo do café no oeste paulista. Desde aquela época já havia todo um discurso da superioridade de São Paulo, como “a nação brasileira que deu certo”. É exatamente disso que falo em meu último livro. Hoje em dia, além disso, existe também um discurso do Oeste do país. Matogrosso, Matogrosso do Sul, que dizem ser uma nova geração de agricultores “modernos”, que se fizeram sozinhos. Enquanto que, obviamente, tudo isso é fruto de várias tentativas acadêmicas, universitárias, do governo, para criar a possibilidade de explorar o Oeste, em termos de agricultura. Acho que há este discurso, no momento, muito forte, essa ideia, de que “eu fiz tudo sozinho, o Estado não fez nada por mim”, que o Estado só faz coisas para os pobres e não para os bem-sucedidos.

RFI: Esse discurso vem de quando. A eleição de Lula em 2002 foi uma exceção a esse discurso?

BW: Se olharmos o mapa eleitoral entre 1994 e 2002, o mapa é quase de uma só cor. No caso de Fernando Henrique, é tudo azul. No caso da primeira eleição do Lula, é tudo vermelho. Acho que Alagoas era o único Estado em que a maioria não votou no Lula. Isso já muda em 2006. Nessa hora precisamos questionar e analisar o que aconteceu. Algumas pessoas dizem que é por causa do escândalo do mensalão, mas eu acho que nem isso explica. Os primeiros anos da gestão do Lula, ficou claro que uma das maiores preocupações do governo era a situação dos mais pobres, e a maioria deles está no Norte e Nordeste do país. Além disso, havia a questão das cotas, de ação afirmativa, várias coisas que as pessoas recentemente mudando para a pequena classe média, a classe média baixa, vamos dizer assim. Eles começam a pensar: “Eu estou trabalhando, estou me sacrificando para subir na vida, por que o governo está ajudando aqueles lá, mas não está me ajudando? ”. Então eu acho que isso, logo no início da gestão do Lula, você começa a enxergar.

RFI: Você, como americana, consegue enxergar similaridades entre a situação hoje no Brasil e a dos Estados Unidos, com a chegada de Donald Trump?

BW: Claro que há muitos elementos em comum entre os dois presidentes. Eu não vou falar de certas coisas, para mim obvias, mas nem preciso entrar nesse assunto. Mas, no entanto, acho que existe uma diferença muito importante no Brasil, comparado com os Estados Unidos. Nos EUA, nos centros urbanos, a votação para Trump foi baixa. Em cidades como Washington, New York, quase 90% dos votos foram para Hillary Clinton. Aliás, o Trump não ganhou pelo voto popular. O que acontece nos Estados Unidos é muito interessante. Os Estados mais rurais e mais pobres, são os que mais apoiam Trump. No Brasil, parece que é o inverso. Mesmo no Nordeste, nos Estados onde a maioria da população votou em Haddad, algumas cidades com uma presença maior de classe média, foram registrados muitos votos para Bolsonaro. De certa forma o padrão de votação da população é diferente. Isso é muito interessante porque os discursos dos dois é muito parecido. Isso quer dizer que ele não representa necessariamente um tipo fixo de mobilização social, acho que é variável. Eles são figuras que conseguem captar os ressentimentos presentes no local onde eles estão. Então o Trump entendeu que o ressentimento era do branco, pobre, da região rural, das pequenas cidades, e o Bolsonaro, eu acho que ele entendeu de certa forma, que o grupo mais ressentido era o da classe média, e mesmo nos centros urbanos.

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