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Libération traz perfil de Linn da Quebrada, a funkeira transgênero que desafia o Brasil conservador

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Aproveitando o lançamento na França do filme "Bixa Travesty", o jornal Libération traz uma entrevista com Linn da Quebrada, a cantora e performer brasileira que tem sua vida contada no documentário. Fotomontagem Rfi

Aproveitando o lançamento na França do filme “Bixa Travesty”, o jornal Libération desta segunda-feira (24) traz uma entrevista com Linn da Quebrada, a cantora e performer brasileira que tem sua vida contada no documentário. O longa, dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman, estreia na próxima quarta-feira (26) nos cinemas franceses.


Libération faz um perfil da funkeira transgênero que "desafia com textos corrosivos qualquer discurso normativo e afirma não ter medo de Jair Bolsonaro".

A matéria do jornal começa como um conto de fadas: “Era uma vez em um país muito distante, dirigido por um soberano sombrio de extrema direita, uma princesa que se chamava Linda Quebrada…”

Depois desse primeiro parágrafo, o jornal progressista corrige o ângulo e diz que na verdade essa história não tem nada de um conto de fadas, mas sim de uma saga contemporânea, de uma revolução que é escrita cotidianamente pela ação, coragem e a voz sensual da cantora de "longas unhas prateadas com reflexos de cobre para melhor arranhar nossos rostos".

O texto diz que ela nasceu em um bairro pobre de São Paulo, tem 28 anos e é uma artista famosa na cena funk brasileira. A cantora atua em "uma rede profundamente dissidente, pronta para enfrentar o patriarcado que já está abalado". Ela é uma guerreira ou uma “terrorista de gênero", como gosta de se autodefinir Linn da Quebrada. Desde 2016, "ela brilha no meio das nuvens conservadoras que ocultam o sol brasileiro".

Vitória dos dissidentes?

O jornalista Jérémy Piette encontrou a performer brasileira em Paris, onde ela veio para participar da campanha de promoção do documentário Bixa Travesty. Questionada sobre o que pensa do atual presidente brasileiro de extrema direita, Linn da Quebrada diz que a história mostra que há sempre um momento em que os dissidentes, os desobedientes, ganham. "O conservadorismo se blinda ao mesmo tempo em que tenta forçar os movimentos progressistas a recuar. Esta crise é talvez perigosa, mas ela traz novas possibilidades de resistência", acredita a cantora.

Libération revela que a funkeira é uma verdadeira “missionária” em cena e que seu público adora escutar seus textos “corrosivos, pronunciados com uma voz suave, embalados por ritmos ácidos e gestos explícitos”. “Tudo explode”, garante a matéria.

“Religião romantiza a pobreza”

O texto resume a vida da cantora, narrada no documentário Bixa Travesty: abandonada pelo pai, educada até os 12 anos por uma tia, quando ela volta a morar com a mãe no interior de São Paulo. A jovem ganha uma bolsa para fazer balé e se distancia da religião evangélica da família.

"Temos que agradecer a nós mesmos. A religião é apenas um meio de ouvir que a pobreza é normal. A religião romantiza a pobreza", diz Linn da Quebrada, que se recusa a falar sobre as dificuldades que enfrentou na infância: “melhor nos concentrarmos nas vitórias”.

Mas como no documentário, a performer aborda sua doença, o câncer nos testículos, superado em 2017, no mesmo ano de seu primeiro CD Pajubá, “uma consagração”, seguido de Coytada. Os dois albuns denunciam o machismo e a transfobia que não estão presentes apenas no Brasil, ressalta a performer.

A cantora critica que a relação amorosa contemporânea seja construída unicamente com base na heteronormatividade e confessa que está “hiperapaixonada”. “Infelizmente, a gente não se livra tão facilmente do romantismo”, conclui Libération.