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"Governo de divisão social, oposto dos anteriores", diz autor de livro sobre Bolsonaro

Por Elcio Ramalho

Ao lançar o livro "Le Brésil de Jair Bolsonaro – Chroniques avril-mai 2019" (O Brasil de Jair Bolsonaro – Crônicas abril-maio 2019, em tradução livre), o jornalista suíço Jean-Jacques Fontaine pretende oferecer ao público francês e europeu uma análise mais aprofundada das mudanças ocorridas no país desde a chegada da extrema direita ao poder.

Para o jornalista, o público estrangeiro tem informações limitadas sobre a realidade brasileira e suas mudanças desde 1° de janeiro deste ano. Ele contesta, por exemplo, as afirmações de que Jair Bolsonaro representa a volta do fascismo e é comparável a líderes conservadores como Viktor Orbán, na Hungria, ou o americano Donald Trump. “Ele não se encaixa, tem uma especificidade”, afirma.

Fontaine trabalhou como correspondente do Brasil entre 1980 e 1989, e voltou a residir no país por 10 anos, entre 2007 e 2016. Desde e então, divide seu tempo entre seu país natal e o Rio de Janeiro, onde voltou por um mês este ano,  para conferir de perto as mudanças ocorridas desde a eleição de Bolsonaro. E foram muitas e profundas, segundo descreve na mais recente obra, a terceira dedicada ao país.

“O que mais mudou foi a ausência de uma tentativa de política social”, avalia. Ele lembra que a partir do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e a estabilização do Real, havia uma política clara e afirmativa de inclusão social, que durou até 2016.  O governo de Bolsonaro é o oposto disso, de acordo com Fontaine. “É um regime conservador, que quer reintroduzir os valores de divisão social, sem ambição de fazer uma política para todos”, afirma. 

Divisões e paralisação

No livro e também na entrevista à RFI, o jornalista suíço observa uma divisão dentro do governo, com a disputa entre grupos e clãs “que não se entendem” e criam obstáculos para ações concretas.

A ala dos ideólogos, formada pelos filhos de Bolsonaro e Olavo de Carvalho, só se interessa, segundo ele, na “despetização” e a afirmação dos valores conservadores. "Mas sem vontade clara de fazer um governo para todos”, aponta. 

Outro grupo, dos tecnocratas, liderados pelo ministro da Economia Paulo Guedes, quer impor uma agenda liberal para tentar recolocar “a economia nos trilhos”. Mas é freado pelos ideólogos, afirma o autor. 

Já os militares, ainda de acordo com Fontaine, compõem o pilar que garante uma certa estabilidade. “É um paradoxo, mas talvez (os militares) sejam os mais democráticos. Eles já participaram de operações da ONU, como no Haiti, e têm uma visão mais internacional da importância das Nações Unidas para a paz mundial. Não têm uma visão golpista e fechada como em 1964. Atualmente, são os maiores fiadores da Constituição”, afirma.

"Pantanal político"

Em sua análise sobre o atual momento político brasileiro, Fontaine dá amplo destaque para a relação do presidente com o Congresso, chamado por ele de “particularidade brasileira”, com parlamentares atuando por interesses próprios, regionais, sem uma visão política abrangente para o país. “Não há mudanças em relação aos governos anteriores. A grande diferença em relação ao passado é o peso da bancada conhecida como “BBB”, Boi, Bala e Bíblia”, avalia.

A falta de uma base de apoio consistente na Câmara e no Senado é um grande obstáculo com o Legislativo, mas não o único. “Bolsonaro não consegue juntar maioria no Congresso para aprovar nada. E, quando aprova, tem o Supremo Tribunal Federal que julga os projetos inconstitucionais, como no caso das armas”, exemplifica. “O Congresso acentua a confusão que existe no executivo”, resume.

O livro sobre os primeiros meses do governo Bolsonaro também é resultado de muitas entrevistas feitas pelo jornalista com representantes da sociedade civil, cientistas políticos e Ongs. As respostas fizeram Fontaine concluir que uma parte da população brasileira está “resignada” com a atual situação do país: “Ela não se manifesta, não constrói uma alternativa e, no caso dos mais pobres, estão sob a influência dos evangélicos. É uma espécie de pantanal político”.

Ele se surpreende com o que considera uma “resistência passiva da democracia brasileira e dos brasileiros” que, sem confrontos nem uma oposição clara, bloqueia os discursos de Bolsonaro.

Diante das dificuldades do presidente para impor sua agenda de reformas e cumprir suas promessas de campanha, Jean-Jacques Fontaine estima que o mandato dele pode estar sob ameaça. “Há dúvidas, e não apenas eu que digo, sobre a capacidade de Bolsonaro ir até o final de seu mandato. Pode ser que sim, mas também pode haver um embate tão grande a ponto de encurtar seu mandato”, observa.

Clique no vídeo abaixo para assistir a entrevista na íntegra

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