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Sidival Fila: frei brasileiro baseado em Roma expõe arte abstrata em Paris e na Bienal de Veneza

Por Patricia Moribe

Nas paredes de uma galeria no bairro do Marais, em Paris, um brasileiro expõe seus trabalhos. São telas enormes, tem tons de cinza. Há tramas e texturas. O artista é o paranaense Sidival Fila, 57 anos, há mais de 30 anos baseado em Roma. Além de artista consagrado, convidado inclusive a participar da Bienal de Veneza deste ano, Fila é frade franciscano.

O português falado de Sidival se mescla com outras entonações e palavras emprestadas do italiano. Quando veio para a Europa, aos 23 anos, o sonho era viver na França, no berço de movimentos como o impressionismo e o cubismo.

Mas antes ele foi para a Itália, onde poderia conseguir documentos europeus por ser descendente. Mas a paixão por Roma foi imediata e ele resolveu ficar na capital. “Vivi uns quatro ou cinco anos como leigo, trabalhava em bares e restaurantes, tinha namorada”, conta. “Eu era muito feliz, pois vivia em um museu a céu aberto”, acrescenta.

Conversão espiritual

“Um dia, voltando de trem da Espanha, passei por uma experiência muito forte de conversão, mas sem um motivo externo. Foi uma sensação de perceber que, apesar de ser uma pessoa feliz e ter a arte como prioridade, o sentido da vida era outro. Eu estava morto espiritualmente, tudo era baseado no material. E resolvi viver do Evangelho”, conta.

Hoje Sidival Fila dirige o convento San Bonaventura al Palatino, em Roma. Seu cotidiano tem orações, trabalhos no convento, atendimento a pessoas carentes e visitantes. Paralelamente ele faz seus trabalhos com tecidos e matérias. “Eu me deixo inspirar pelas matérias que encontro. Pode ser um tecido antigo, uma foto. A matéria é o sujeito principal da minha pesquisa artística, além de fonte e origem de inspiração”. 

Em Paris, Sidival é representado pela galeria de Jérôme Poggi, que descobriu o trabalho do brasileiro em uma coletiva em Fresnoys, ao norte de Paris, exposto ao lado de outros artistas abstratos como Dan Flavin e Sol Lewitt.

“Foi paixão à primeira vista. O que me marcou foi uma dimensão, digamos, espiritual, mas que não tem nada de religioso. Um cruzamento de uma estética ocidental muito minimalista. Mas há algo em seu trabalho que vem de uma outra cultura, que não é a nossa. Talvez algo latino-americano. Nessa obsessão pelo fio, há um ritual, talvez xamânico, nem um pouco católico. É um toque perturbador, bastante contemporâneo, nesse mergulho na forma, bastante controlada, de algo espiritual, ou da presença e da essência”, diz Poggi.

Voto de pobreza e crianças

As obras de Sidival expostas em Paris custam de €3 mil a €50 mil. Mas tendo feito voto de pobreza, o frei conta que todo o lucro, descontando taxas e despesas, é revertido para obras de caridade para no mundo todo, incluindo Brasil.

O artista e religioso acompanha a crise brasileira de longe. Ele diz que não aprecia a personalidade do atual presidente, mas que gostaria que houvesse mudanças, pois como na Itália, a vida política estava “quase mecânica”. Ele lamenta a situação dos dois países. Para Sidival, teria de ser uma “solução mais sincera, de trabalho real, sem ideologia, com respeito às pessoas”.

O trabalho de Sidival Fila pode ser visto em Paris na galeria Jérôme Poggi até o dia 2 de agosto de 2019.

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