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“O combate à corrupção no Brasil é uma mentira”, diz sociólogo Jessé Souza

Por Elcio Ramalho

Autor de mais de 20 livros, entre eles best sellers como “A Classe Média no Espelho” e a “Elite do Atraso”, o sociólogo e professor da Universidade do ABC Jessé  Souza está se instalando na França onde, a partir do próximo semestre, dará aulas na Sciences Po, o Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Ele confirmou a mudança durante uma palestra na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais sobre o tema “O Brasil de Bolsonaro: Dividir Para Reinar”.

No encontro com estudantes e intelectuais, Jessé falou do momento político brasileiro e do contexto que permitiu a chegada ao poder do atual presidente de um país onde a elite e a classe média foram “imbecilizadas”, segundo suas palavras.

O sociólogo pontua que a grande mudança recente no Brasil começou na verdade a partir de partir de 2014, momento em que ganhou força “o processo para retirar por meios não eleitorais o PT do poder”. “Por isso a Lava Jato foi construída. Foram dois tipos de interesse que se uniram. Primeiro, o interesse da elite brasileira em se livrar do PT e dos Estados Unidos, da CIA, de criminalizar as ações da Petrobras e da Odebrecht, visando enfraquecer o Brasil e sua inserção autônoma”, explica.

“Toda vez que o Brasil tenta montar um projeto econômico, os Estados Unidos reduzem e dificultam a industrialização e o avanço tecnológico brasileiro. Eles se colocam como um guardião mundial do trabalho, onde os países do sul, entre eles o Brasil, devem produzir apenas matéria-prima”, analisa. 

Jessé Souza afirma que no país, há pelo menos 100 anos, vigora uma estratégia de “corrupção seletiva de políticos com apelo popular”, citando os casos dos governos de Getúlio Vargas, João Goulart e, mais recentemente de Luiz Inácio Lula da Silva.

De acordo com o sociólogo, os maiores beneficiados com os anos do PT no poder foram os negros e os pobres e essa ascensão mexeu com as classes mais abastadas da sociedade. “O combate à corrupção apareceu como uma ‘capa de moralidade’ para as classes média e alta, racista e branca, impedir o acesso social”, descreve.

As circunstâncias políticas fizeram com que o único candidato possível para as elites do país fosse Jair Bolsonaro, descreve.

“Bolsonaro vai representar o que chamo de ‘lixo branco’ mais ressentido porque não conseguiu ascender. A política dele é armar as milícias par matar negros e pobres. Como ele era o único político do espectro liberal que tinha votos nessa população, a elite foi longe para escolher o neofascismo, alguém que é miliciano e está ligado às milícias. Esse ressentimento é a base da política bolsonariana”, defende.

Segundo Jessé Souza, a operação Lava Jato foi além do que se podia imaginar e serviu para sustentar o discurso de que a corrupção política é o único do país. “O combate à corrupção é uma mentira e usado para criminalizar a soberania popular”, ressalta.

“Todo o roubo que acontece na política é provocado pela elite, pelos ‘donos do mercado’ que mandam malas de dinheiro para os políticos, que são apenas lacaios”, diz.

Jessé afirma que a corrupção política é “o bode expiatório de todos os problemas para enganar e imbecilizar a sociedade como um todo dizendo que o único problema do país é esse”.

O sociólogo recorre a números para sustentar sua teoria. Segundo ele, a Lava Jato recuperou R$ 1 bilhão da corrupção em cinco anos, um valor extremamente menor que a sonegação de impostos dos ricos que chega a R$ 520 bilhões de acordo um estudo britânico sobre o assunto. “A taxa de juros no Brasil é 11 vezes maior do que na França, sem motivo nenhum. Isso é um roubo legalizado”, afirma.

“A minha tese é de que a sociedade brasileira é feita de imbecis há 100 anos. A classe média, moralista, no fundo é uma classe média canalha que odeia pobres e negros. Para isso, precisa de uma 'capa de moralidade', mas se escandaliza apenas com a corrupção dos partidos de esquerda.”

Oportunidade para a sociedade se autocriticar

O sociólogo comemora as revelações do site The Intercept Brasil, que juntamente com outros veículos de comunicação, tornou pública troca de mensagens atribuídas aos procuradores responsáveis pela operação Lava Jato em Curitiba com o então juiz Sérgio Moro, atualmente ministro da Justiça e Segurança Pública.

“No fundo, o Intercept veio provar que era uma grande conspiração entre bandidos, que são Moro e (Deltan) Dallagnol. O Ministério Público foi tomado por uma quadrilha que usa o cargo público, do qual deveria ser neutro e imparcial, para vantagens pessoais. Esse pessoal obteve vantagens pessoais e políticas também. No caso do Moro, para ser ministro da Justiça”, exemplificou.

Para Jessé, essa estratégia de tirar da classe média a capacidade de reflexão vem desde os anos 1930 nas universidades, com intelectuais e assimilada erroneamente pela própria esquerda, afirma. As revelações podem ser positivas para o país, mas talvez não a curto prazo.

“Isso pode ser revolucionário. Não significa que o Bolsonaro vá cair nos próximos dias, A dimensão moral tem um tempo distinto das outras dimensões mas é extremamente forte e ninguém pode conter. É uma oportunidade histórica de a classe média se auto examinar, sobretudo essa classe que usa tudo isso para preservar suas vantagens econômicas de um modo muito burro”, afirma.

O passado escravocrata do Brasil gerou distorções que impedem a sociedade avançar com base na solidariedade, como visto em nações desenvolvidas. “Nenhum país inteligente no mundo exclui milhões de pessoas - no caso do Brasil 70 milhões de pessoas - sem dar a elas nenhuma oportunidade. O que os governos do PT fizeram foram o mínimo de uma oportunidade civilizacional”, afirma.

“É a oportunidade não só da classe média mas de toda a sociedade brasileira aceitar esse fardo e se autocriticar porque essa farsa está sendo desmontada”, conclui. 

Clique abaixo para ver a entrevista na íntegra:

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