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Ricupero: Bolsonaro nomear filho embaixador nos EUA “é chocante e sem precedentes”

Por Lúcia Müzell

A eventual designação do deputado federal Eduardo Bolsonaro como embaixador do Brasil nos Estados Unidos seria “uma notícia extremamente chocante”, uma medida inédita em países ocidentais. A avaliação é de Rubens Ricupero, ex-ocupante do cargo durante dois anos, entre 1991 e 1993. O posto é um dos mais prestigiosos da diplomacia brasileira.

Em entrevista à RFI, Ricupero considera que a nomeação do filho do presidente, sem carreira diplomática ou estudos de Relações Internacionais, seria um ato “sem nenhum precedente nem na nossa história, nem na de nenhum país civilizado, democrático”. Jair Bolsonaro anunciou a intenção de empossar o filho “zero três” nesta quinta-feira (11). Eduardo confirmou que, para assumir a embaixada de Washington, estaria disposto a renunciar ao seu mandato na Câmara. Ele acaba de completar 35 anos, o mínimo necessário para comandar a função.

“Só um monarca absoluto, como os reis árabes do Golfo, pode fazer uma coisa desse tipo. Em países modernos, eu não conheço nenhum exemplo”, ressaltou o autor de A diplomacia na construção do Brasil (1750-2016), um elogiado trabalho na qual resgata a história a política internacional brasileira. Ricupero é considerado um dos maiores especialistas no tema.

Na história, só um embaixador filho de ex-presidente – que já tinha morrido

O diplomata aposentado lembra que o caso que mais poderia se assemelhar é o de José de Paula Rodrigues Alves, diplomata de carreira que morreu embaixador em Buenos Aires, em 1944 – 26 anos depois da morte do pai, o ex-presidente da República Francisco de Paula Rodrigues Alves. “Mas, mesmo assim, a carreira não teve nada a ver com o pai. Ele era apenas o filho de um ex-presidente”, sublinha Ricupero.

O especialista avalia que, além do aspecto incomum, a nomeação pode gerar impactos “muito negativos” para o Brasil, por colar um caráter ideológico a uma função que, tradicionalmente, se distancia de posições partidárias marcantes.

“A política externa representa o Estado na diplomacia, e não uma facção, um partido. Um embaixador deve representar todos os brasileiros”, diz o diplomata e economista.

Admiração exacerbada dos Bolsonaro a Trump é prejudicial

Os Bolsonaro não escondem a admiração pelo presidente americano, Donald Trump. Ao ser questionado sobre as consequências práticas para as relações bilaterais, Ricupero responde que a proximidade excessiva se revela uma desvantagem – ao contrário das aparências.

“Uma relação diplomática deve ser amistosa, mas com dignidade e respeito mútuos. Quando há um excesso de parcialidade, perde-se o equilíbrio”, explica o embaixador aposentado. No último dia 4 de julho, festa nacional dos Estados Unidos, Jair Bolsonaro compareceu à celebração na embaixada americana em Brasília – outro comportamento considerado inadequado na diplomacia.

A “Ivanka brasileira”

O especialista nota ainda que a tendência de nomear parentes próximos é característica dos líderes populistas que emergiram nos últimos anos, “que só confiam nas pessoas muito próximas”. O próprio Trump usa a filha Ivanka e o genro Jared Kouchner nas relações internacionais – embora não tenha chegado ao ponto de escolher nenhum dos dois como embaixador do país.

O jornal francês Le Monde destaca esse aspecto em uma reportagem sobre o tema, publicada nesta sexta-feira (12). O texto afirma que agora o Brasil “também tem a sua Ivanka Trump”. Bolsonaro “fez de seu governo um caso de família”, afirma a matéria.

“O representante de uma pessoa tende a levar as prioridades pessoais e familiares à frente. As decisões [envolvendo os Estados Unidos] provavelmente nem serão mais discutas com o Itamaraty: tudo vai ser tratado no seio de uma família”, completa Ricupero.

Para ouvir a entrevista completa, clique na foto acima.

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