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Vik Muniz: “Depois do modernismo, virou tabu falar de religião em arte”

Por Maria Emilia Alencar

“Imaginária" é o título da exposição que o célebre artista brasileiro Vik Muniz apresenta, pela primeira vez na Europa, na Collection Lambert, em Avignon, no sul da França. A mostra é uma releitura de famosas telas de santos feitas por mestres da pintura. A partir de um trabalho de colagem – que o artista tem desenvolvido nos últimos anos – Vik recria, à sua maneira, imagens históricas da arte sacra. A exposição está sendo exibida simultaneamente no Museu de Arte Moderna de Salvador, na Bahia.

Enviada especial a Avignon

Mais uma vez, o artista utiliza ícones familiares ao público para questionar a ideia da representação na arte e criar um diálogo com o espectador. O resultado é uma série de 19 obras que são grandes mosaicos formados por milhares de pequenas imagens. Com essa série, Vik confessa, em entrevista à RFI, abordar um “conflito pessoal de ser um artista contemporâneo, trabalhando com arte conceitual no século 21, e conciliar isso com sua bagagem de arte sacra”, que faz parte de sua formação.

O espectador se depara com dois movimentos quando contempla uma das obras da mostra de Vik Muniz: ele vê primeiro a grande imagem bem colorida de um santo, como a de São Sebastião, de José Ribera ou São João Baptista de Caravaggio – que fazem parte do imaginário coletivo - e em seguida se aproxima do quadro e começa a reparar milhares de “pequenas distrações”, como define o artista, que são as pequenas imagens que não têm nada a ver com a arte sacra e que formam um todo surpreendente.

“Eu procuro sempre usar arquétipos com os quais o espectador tem alguma familiaridade. Parece que ele viu aquilo antes, e por isso mesmo ele já vem com a impressão formada daquilo que está vendo. E, num determinado momento, ele vê que não é bem aquilo que ele pensava, que ele está sendo traído de certa forma e passa então por uma adaptação entre aquilo que ele imaginou e o que está acontecendo realmente. Isso provoca uma conversa entre a obra e o espectador e constrói uma espécie de conhecimento visual que a gente está tentando alcançar” – explica o artista.

“Eu não sou um comprador de ideologias prontas”

A técnica de questionar a relação entre a realidade e a representação e utilizar para isso obras primas da história da arte é o ponto de partida da trajetória artística de Vik Muniz, conhecido internacionalmente pela utilização de materiais pouco convencionais como nas séries “Crianças de açúcar” ou “Imagens de Chocolate”. Mas para mostrar essa série de santos revisitados, Vik esperava um contexto para isso, já que galerias e curadores de arte contemporânea têm um certo distanciamento com temáticas ligadas a religião.

“A história da arte está muito ligada com a história da religião. No entanto, depois do começo do século 20, depois do período modernista, parece que virou um tabu você falar de religião em arte ”- lamenta ele. «Quando você chega no contexto do modernismo e pós-modernismo, o artista, o intelectual, quase que por obrigação, tem que ser ateu e comunista. Eu não sou nenhum dos dois ”- acrescenta ele.

Alegando não ser “um comprador de ideologias prontas, muito pelo contrário”, Vik insiste no fato da necessidade de um artista trabalhar com fé, “trabalhar com a ideia do acreditar”. E longe dos dogmas que regem a arte contemporânea, ele se define como um artista conceitual que tem uma relação com religião muito profunda, mas também muito aberta. “Eu gosto de religião com um todo, eu a estudo, eu adoro esoterismo, gosto muito de teologia em geral. E acho que acreditar é muito importante” - ressalta.

Para ele, essas imagens de santos tem uma complexidade incrível, pois questionam a “ideia da fé e da dificuldade em acreditar em algo”, no momento em que o seu imaginário está tão poluído, tão permeável à uma quantidade excessiva de referências visuais. “A ideia da fé, do crer é uma particularidade da nossa espécie. Eu acho muito interessante como a gente é amparado por essas pessoas (os santos), cuja vida, a fé, transcenderam a ideia do instinto de sobrevivência e como isso nos inspira”- afirma.

“Imaginária” começou em uma capela

O artista afirma que há muito tempo já tinha começado a trabalhar com imagens de santos, mas não tinha o contexto para mostrá-las. A princípio, ele não queria expor essas obras em galerias ou museus e achava que era algo que não interessava muito os curadores de arte contemporânea. No final do ano passado, surgiu a boa oportunidade: uma creche para 500 crianças carentes, ao lado da Capela Santa Ignez, na Gávea, no Rio de Janeiro, perto de onde ele mora, estava ameaçada de fechamento.  Vik conhecia muito bem o local, pois havia se casado e batizado os filhos nessa Capela.

Rodeada de favelas como Rocinha, Vidigal e Parque da Cidade, o número de batizados e casamentos na Capela haviam diminuído muito nos últimos anos, por questões de segurança e consequentemente a creche anexa estava com dificuldades financeiras para atender a população da região. O artista propôs então realizar em dezembro de 2018 a exposição “Imaginária” na Capela. O sucesso foi impressionante, diz ele. “Não só salvamos a creche, como fizemos uma mostra incrível”, diz ele, lembrando de filas enormes de pessoas querendo ver as obras.

A exposição interessou tanto que já viajou para Tóquio, Avignon e Salvador da Bahia. E deve ser apresentada ainda em Porto Alegre e Lisboa. Vik Muniz está atualmente trabalhando a partir dessas imagens, com a Biblioteca do Vaticano, para o “Sínodo da Amazônia” que acontece em outubro próximo. É possível que a mostra seja apresentada em uma Igreja em Roma.

“É bonito você ver pessoas que vem ver uma mostra mesmo sem nenhuma experiência em arte contemporânea, pessoas que não visitam museus. Eles vêm por causa do tema, porque religião tem um apelo incrível. É uma mostra que acaba interessando pessoas que gostam de arte contemporânea e outras que gostam de arte sacra”. O artista diz adorar a ideia de trabalhar para um público diferente, distante do universo da arte contemporânea. “Trabalhar sempre com um público específico, é muito chato. Quando você trata de temas mais abertos, você também convida as pessoas a compartilhar esse mundo muito interessante que é o da arte contemporânea”- ressalta.

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