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Graziano se despede da FAO e deixa Fome Zero como herança global

Chega ao fim nesta quarta-feira (31) o segundo mandato de José Graziano da Silva como diretor geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).Em seu lugar assume Qu Dongyu, vice-ministro da Agricultura da China, eleito no mês passado.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

Graziano ficou quase oito anos à frente da agência durante os quais o mentor do Fome Zero expandiu as fronteiras do programa que erradicou a fome no Brasil. Era julho de 2011 quando, por apenas 4 votos de diferença em segundo turno, José Graziano da Silva era eleito diretor geral da FAO. A vitória consagrou os êxitos do ex-ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome entre 2003 e 2004 e também a estratégia do Itamaraty que, à época, alicerçou as negociações com os países em desenvolvimento do G77 e a China.

Liderada pelo então ministro das Relações Exteriores Antonio Patriota, a diplomacia brasileira atuou em duas linhas de frente: adaptar em nível global os sucessos alcançados pelo Fome Zero no combate à pobreza e intensificar a cooperação entre os países do hemisfério Sul.

No início da década a imagem do Brasil no exterior era positiva e de credibilidade: em 2012 o Brasil foi o décimo maior doador ao Programa Mundial de Alimentos (WFP), com mais de US$85 milhões e centenas de toneladas de alimentos doados. E foi o próprio Graziano, agora como servidor humanitário da ONU, a anunciar a saída do Brasil do Mapa da Fome em 2014.

Multiplicação dos exemplos brasileiros

As ideias que deram certo no Brasil e que deram forma ao Fome Zero são consideradas por Graziano “ícones da política externa brasileira” e foram adaptadas a diferentes realidades nacionais em várias partes do mundo. Para citar alguns exemplos: o programa de merenda escolar do Brasil foi replicado em praticamente toda a América Latina e em muitos países africanos, assim como o incentivo a compras locais e o Programa para Aquisição de Alimentos (PAA), um dos mais exitosos para alavancar e sustentar a agricultura familiar, sobretudo na África e na Ásia.

Graziano trabalhou para resgatar a credibilidade da agência, fundada no pós-guerra para restabelecer a produção agrícola mundial. Ele recebeu uma organização inerte após 17 anos com um mesmo diretor – Jacques Diouf, do Senegal. Promoveu reformas internas e externas e conectou os cinco escritórios regionais, ou seja, envolveu os mais de 6 mil funcionários em um só lema: “trabalhando por Fome Zero”.

O brasileiro enfrentou o ceticismo de alguns países membros, sobretudo da União Europeia, ao reabrir as portas para as doações independentes diante de um orçamento congelado. Viu ameaçada a multilateralidade da organização por essas mesmas doações que eram destinadas somente a projetos de interesse dos doadores em detrimento da conjuntura global.

Esforços conjuntos

Graziano aprofundou os laços com as agências irmãs da FAO, o Programa Mundial Alimentar (WFP) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), e também com outras agências da ONU como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Unicef. O principal documento da FAO, o Relatório sobre o Estado da Insegurança Alimentar (SOFI, em inglês), hoje é publicado em conjunto com todas essas agências, levando em consideração todas as formas de má nutrição e as lacunas dos sistemas alimentares que hoje não promovem dietas saudáveis.

Mas enquanto o número de famintos no mundo aumenta, a obesidade também é maior. Hoje a estimativa é que 820 milhões de pessoas passam fome no mundo, sobretudo na Ásia e na África. O número de obesos é quase o mesmo e a epidemia de obesidade não poupa nenhum continente. Faltam pouco mais de 10 anos para se chegar à marca estabelecida pela ONU para atingir as metas de desenvolvimento sustentável e os conflitos, a emergência climática e a recessão econômica são hoje os principais obstáculos para erradicar a fome. Para Graziano, hoje no mundo “falta vontade política para direcionar os recursos necessários a erradicação da fome”.

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