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“Países que praticaram políticas de privatização do ensino nunca chegaram a esse nível”, diz professora da Unirio, que participa do protesto pela educação no Brasil

Por Márcia Bechara

Segundo Maria Luíza Süssekind, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), que também integra a direção da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa (Anped), os cortes feitos pelo governo Bolsonaro podem configurar “a extinção de um sistema público de educação”.

A expectativa, segundo a professora, é que pessoas de diferentes locais saiam às ruas para lutarem pela educação pública do Brasil. “É um sistema que funciona em rede, através de uma forma de financiamento nacional. É muito importante que todo esse sistema seja defendido, inclusive para manutenção do próprio sistema privado, que é um aliado dessa grande rede, que funciona como orientadora e condutora de toda a política nacional para a educação, há muitos anos”, explica.

Segundo informações de Süssekind, recolhidas junto ao Fórum Nacional de Educação, a programação dos protestos terá um teor educativo. “A maneira que quem defende a educação tem de se manifestar é ir para a rua dar aula”, conta a professora da Unirio, que ministrará nesta terça-feira (13), junto com outros professores, um “aulão” público na sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

A mobilização será pautada também por uma greve geral dos trabalhadores do setor, com a participação de estudantes. “Efetivamente, um número gigantesco de instituições de educação através de suas representações sindicais e docentes aprovaram greves e interrupção do trabalho no dia de hoje, para essa manifestação”, afirma. Uma das reivindicações do protesto é parar o “desmonte” da educação pública no Brasil, que seria promovida pelo corte de verbas da ordem de R$ 6,2 bilhões de reais bloqueados pelo governo de Jair Bolsonaro, que atingem 25% do orçamento destinado à Educação no país.

“Os dados que temos são muito tristes. Nós temos passado por políticas de contingenciamento e de redução de financiamento, que já estamos chamando de ‘desfinanciamento’, desde 2015. Para a pós-graduação e alguns programas periféricos, isso já tem significado um corte linear da ordem de 50%”, alerta a professora. “Se pensarmos apenas no estado do Rio de Janeiro, estamos falando de 40 mil professores do Ensino Médio que só atendem a 25% da população. Estamos falando de extinção de programas, de secretarias ligadas ao desenvolvimento da Educação, mas também estamos falando do impedimento de redes que ainda possuam uma forte demanda possam cumprir seu dever constitucional de atender ao público que tem direito de estar na escola”, diz.

“Desmonte”

Segundo Maria Luíza Süssekind, pode-se falar em um projeto de “desmonte” da educação brasileira quando “tanto no setor legal, quanto no aspecto das políticas de financiamento e manutenção atuais, como as bolsas, o Fundeb, você está falando na extinção de um sistema público de educação”. “Isso é de uma gravidade incomensurável, porque nem em países que praticaram durante um período longo da sua história políticas de privatização e ‘desfinanciamento’ da educação pública jamais chegaram a esse nível”, analisa.

“Concretamente, já existem estudantes abandonando a universidade”, alerta Süssekind. “Já vemos os números do Enem muito menores, já encontramos dificuldade para achar estudantes que cumpram tarefas de bolsistas de pesquisa, porque eles já voltaram a trabalhar regularmente para ajudarem suas famílias, então isso tem um impacto direto na formação dessas pessoas”, diz. “Estamos falando de gerações que começaram a ter acesso à educação básica como um todo, e ao ensino superior muito recentemente, nestes últimos 30 anos, uma geração que começou a chegar lá. A próxima corre o risco de não conseguir”, analisa.

Para a professora, que faz parte da diretoria da Anped, são medidas que afetam as gerações futuras. “São gerações que correm o risco de não chegarem mais ao mercado de trabalho com uma qualificação que seja minimamente da educação básica e do ensino superior. Estamos falando de um projeto de ‘lumpenproletarização’ do profissional brasileiro diante de mercados internacionais”, avalia ela, numa referência ao termo marxista, em alemão - Lumpenproletariat -, que designa uma parcela miserável da população, destituída de recursos econômicos mas, principalmente, de consciência política.

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