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Ao contrário do que diz o senso comum, a Amazônia não é o pulmão do mundo

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Uma vista aérea da Amazônia perto de Porto Velho, Estado de Rondônia, Brasil, Brasil, 21 de agosto de 2019. REUTERS/Ueslei Marcelino

O biólogo Marcelo Motokane, professor doutor do Departamento de Biologia da USP e especialista em educação para a biodiversidade, explica que, ao contrário do que prega o senso comum e do que diz o presidente francês Emmanuel Macron em seu tuíte sobre os incêndios na floresta, na verdade a Amazônia não é o pulmão do mundo.


“O que a gente consideraria o pulmão do mundo seria o local ou ecossistema que consegue repor o oxigênio na atmosfera. Se a gente pensar deste ponto de vista, o sistema que consegue repor uma grande quantidade de oxigênio na atmosfera seria o ambiente marinho”, explica.

Motokane revela que o que faz o planeta Terra respirar são principalmente os oceanos. “Nos 5 centímetros de camada superficial da água, existe um grupo de seres vivos, fotossintetizantes ou produtores, que conseguem pegar o gás carbônico e, com a energia luminosa, transformar em glicose e devolver para a atmosfera o oxigênio. É nesta faixa de 5 cm que está o fitoplâncton, que coloca um aporte de oxigênio muito maior na atmosfera”.

A Floresta Amazônica, segundo ele, tem um outro papel, mais focado na manutenção de recursos hídricos, de estabilidade climática, que na reposição de oxigênio na atmosfera. "O que a Amazônia produz em termos de oxigênio é praticamente todo consumido pela própria floresta".

“A gente chama isso de produtividade primária bruta: ver quanto foi produzido de oxigênio e biomassa, retirar o gasto com respiração e o que sobra é o líquido, ou no caso, o oxigênio. É como se a gente ganhasse um salário, tivesse um custo, e o que sobra é nosso. E é o fitoplâncton, espécie de microalga, que tem esta sobra que lhe permite repor o oxigênio da atmosfera”, conta o biólogo.

Imagem que viralizou no Twitter não corresponde à realidade

Sobre os tuítes do presidente francês e de outras personalidades, como o jogador de futebol Mbappé, que evocam a Amazônia como pulmão do mundo, Marcelo Motokane fala que é muito comum as pessoas acreditarem nestas informações, “porque isso é um senso comum que vem desde os anos 1980”. Ele emenda dizendo que a informação postada por Macron de que a Amazônia produziria 20% do oxigênio do mundo não tem base científica.

“Na verdade isso foi uma ideia equivocada que se criou a respeito da Amazônia e da mata atlântica também. A gente faz esta analogia com o pulmão justamente pela capacidade de respirar. Mas o pulmão, humano ou de um outro animal, consome o oxigênio e libera o gás carbônico. São vários equívocos nessas analogias, tanto com o pulmão quanto com o fato de ser repositor de oxigênio na atmosfera”, ensina o professor.

O geógrafo e pesquisador francês Hervé Théry corrobora as explicações de Motokane sobre os equívocos. “A Floresta Amazônica apresenta dois fenômenos: a fotossíntese produz de fato oxigênio, ela capta o gás carbônico para produzir a matéria prima das árvores e exporta oxigênio. Mas, por outro lado a respiração das plantas faz o contrário, que nem os nossos pulmões. Então as duas coisas acontecem ao mesmo tempo”, reitera Théry.

“Uma floresta que está crescendo capta carbono para constituir os troncos e tem um balanço mais positivo. Mas uma floresta madura, como a Amazônica, está equilibrada, ou seja, não produz excedente. As florestas do mundo, em geral, produzem mais ou menos 15% do oxigênio mundial. E a Amazônia é talvez ¼ disso, então não é tanto. Então o que produz oxigênio mesmo, em grande quantidade, são os oceanos. E aí que tem uma produção real de oxigênio para o mundo”, destaca Théry.

Biodiversidade

Tanto Motokane quanto Théry lembram que a Amazônia é importantíssima para o mundo pela sua biodiversidade.

A Amazônia é um dos maiores hotspots de biodiversidade, não só em termo de variedade de espécies, mas também de diversidade cultural, nós temos muitos povos indígenas, muitas culturas nesta região”, afirma Motokane.

“O Brasil tem uma pesquisa de qualidade com relação à preservação da biodiversidade, é um dos países que mais produz conhecimento na área e paradoxalmente é o que mais devasta. Existem formas de fazer esta recuperação [das florestas], mas o tempo que demoramos para devastar é muito mais curto que o tempo para mitigar. Então o custo é muito maior que o custo da preservação”, diz o especialista em biodiversidade.  

O pesquisador francês acrescenta um outro dado: “Para ser mais preciso, a parte da Amazônia que tem mais biodiversidade não está no Brasil, mas nos países vizinhos, porque a altitude introduzida pela presença da cordilheira dos Andes gera mais biodiversidade. Ainda assim a biodiversidade da Amazônia brasileira é fantástica e é absurdo queimar uma riqueza deste tipo, árvores de 40 metros, para produzir um pasto ralo”, lamenta Théry.