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“América é último enigma na história da humanidade”, diz antropóloga

Por Elcio Ramalho

O livro "Histoire des Peuples d’Amérique" (História dos Povos da América, em tradução livre) da Editora Fayard Histoire, escrito pela antropóloga e historiadora Carmen Bernand, é uma preciosa contribuição para a compreensão da formação e do povoamento do continente americano.

Para a especialista, suas descobertas e revelações abrem caminho para que a ciência avance na investigação de civilizações ainda desconhecidas principalmente da região amazônica, que ainda reserva muitos mistérios sobre a presença humana no imenso território.

Para o extenso trabalho de mapeamento e identificação dos povos que habitaram a América, Carmen Bernand, recorreu a uma grande quantidade de artigos, livros e às técnicas mais modernas usadas pela genética, antropologia e arqueologia, como o uso do equipamento LIDAR [Light [ou Laser) Imaging Detection And Ranging, na sigal em inglês], que permite, por exemplo, identificar sítios arqueológicos cobertos pela vegetação. “São técnicas boas, mas muito caras e difíceis. Os países latino-americanos não podem pagar. Talvez os países do norte”, destaca.

“Quando estava na universidade, pensávamos que a origem dos povos americanos era mais recente, de cerca de 12.000 anos AC. Essas novas técnicas permitiram saber que a origem é bem mais antiga. A presença dos índios pode ser de 30.000 a 35.000 anos AC”, diz a especialista sobre o termo genérico usado para se referir aos povos americanos.

Filha de espanhóis emigrados para a França, Carmen viveu parte da juventude na Argentina, onde teve início sua carreira acadêmica, com sequências nas maiores instituições francesas. Seus trabalhos incluíram colaboração com o famoso antropólogo Claude Lévi-Strauss e outros grandes nomes das ciências humanas. Para esse trabalho sobre os povos da América, ela destaca a importância da iconografia. “Para mim, a iconografia foi muito importante. Monumentos, cabeças, entre outros objetos. Com a iconografia pode-se ver as imagens e saber que coisas e elementos são importantes e por quê”, justifica.

Na entrevista à RFI, ela destaca que suas investigações permitiram aprofundar conhecimentos sobre as civilizações mais conhecidas do continente. “Descobrimos que as cidades maias não eram grandes, mas, sim, enormes. Yucatán era toda urbanizada”, diz sobre a famosa cidade mexicana.

Segundo Carmen, as civilizações Maia, Inca e Azteca foram as mais modernas, mas outras ainda mais antigas e primitivas foram identificadas no Equador, na costa do Peru, na região do Golfo e até no Brasil, devido à descoberta de petróglifos, que são gravações de imagens e representações simbólicas nas rochas. “Esses povos já fabricavam pirâmides artificiais, tinham calendários e uma forma de escritura”, explica. “Não temos livros e estudos desse período porque era tudo tradição oral. No território mexicano também temos coisas muito antigas. Sabemos não apenas que os homens passaram pelo estreito de Bering a pé, mas também por meio de barcos e embarcações”, acrescenta.

Parte do trabalho também se concentra no período da Conquista, marcado pelas explorações do continente durante as colonizações a partir do século 16. O período é mais cheio de documentos e registros, o que permitiu à especialista entender melhor as interrelações espirituais e simbólicas entre os povos. “O Cristianismo foi uma religião a mais para os índios. Eles tiveram uma interpretação muito particular. Temos que diferenciar a Igreja como instituição e pelos rituais. No México, há catecismos pintados pelos indígenas com o Cristo descendo ao inferno para buscar os ossos dos povos antigos. Esse Cristo também é Quetzalcóatl, o Deus dos Aztecas”, explica Carmen.

Em sua obra, a especialista defende uma maior exploração dos povos da região amazônica, que ainda tem muito a revelar para os pesquisadores de todas as áreas, da arqueologia à antropologia e história.

“A Amazônia é muito apaixonante. Os primeiros espanhóis que desceram o rio Amazonas viram aldeais muito grandes, mas depois esses povos desapareceram. Na Amazônia existiram sociedades muito grandes. O LIDAR permitiu ver fundações de cidades, que eram evoluídas e tinham contato com as civilizações no Peru”, constatou. “No Lago Titicaca, onde fica a Bolívia, há coisas da Amazônia. Ainda não sabemos por que temos tantos petróglifos e imagens pela Amazônia brasileira, colombiana e equatoriana. Temos coisas maravilhosas que ainda não sabemos”, garante.

“A América é a última coisa enigmática da história dos homens. Conhecemos muitas coisas sobre a Ásia, Europa e também sobre a África. A América tem algo misterioso porque as pessoas não eram americanas, eram muitas outras coisas, não sabemos muito bem, não há documentos escritos. Temos um compromisso com esses povos primitivos, conhecer suas terras e seus territórios. Uma história não de pessoas selvagens, mas uma história dos homens”, conclui. Esse trabalho requer recursos. “São técnicas boas, mas muito caras e difíceis. Os países latino-americanos não podem pagar. Talvez os países do norte”, destaca.

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