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A Amazônia “é nossa”? Sem dúvida. Mas soberania nunca significou fazer o que quiser

Por Alfredo Valladão

Não adianta esbravejar. É claro que o presidente francês está jogando principalmente para uma plateia doméstica. E que o fuzuê sobre a Amazônia está sendo manipulado. Só que a floresta está em chamas e não é de hoje. Não são as piores queimadas da série histórica, mas o espetáculo tornou-se intolerável para qualquer cidadão do planeta.

Hoje, a mudança climática é a principal preocupação da opinião pública mundial. Não há governo democrático que aguente sem mostrar serviço na proteção do meio ambiente. Até nos Estados Unidos de Trump, eleitos republicanos já estão discretamente apoiando medidas nesse sentido.

A Amazônia “é nossa”? Sem dúvida. Mas soberania nunca significou fazer o que quiser. Ela tem que levar em conta os tratados internacionais, os interesses de vizinhos e parceiros, assim como valores e interesses universais, como os direitos humanos. Sem falar das necessidades e anseios da população nacional.

A questão do clima não tem fronteiras: é um problema global e, queiramos ou não, todo mundo vai se ingerir no assunto. O bioma amazônico não é o “pulmão” do planeta, mas é um elemento importante do equilíbrio climático mundial. Portanto, o Brasil vai ficar na berlinda enquanto não mostrar que leva a sério a preservação da floresta.
A jogada de Macron visa neutralizar os movimentos ecologistas e os grupos de agricultores que ameaçam a sua campanha para as próximas eleições municipais. A jogada “pegou”, porque todos os governos europeus – e não só – estão sentindo no cangote o bafo dos ecologistas e do mundo rural.

O problema é que o presidente Bolsonaro também resolveu jogar para a torcida, com decisões e tuites climato-céticos e truculentos, que só podem incentivar quem quer tocar fogo nas árvores, e acha que a selva é um empecilho para o “desenvolvimento”. A trombada com o resto do mundo era inevitável.

Só que o Brasil não tem meios de declarar uma guerra ao Mundo. Trump acha que pode porque tem faca e queijo na mão. Bolsonaro não tem nem faca nem queijo. Isolar o Brasil é café pequeno para as grandes as potências.

Governo sério antecipa os problemas, adapta seu jogo a uma mão fraca, e faz o dever de casa (mandar o Exército apagar as queimadas não é a solução, mas já é alguma coisa e mostra boa vontade). Senão acaba apanhando e é obrigado a recuar, perder a face e ficar numa posição muito mais vulnerável no cenário internacional. E ter que aceitar ingerências ainda mais pesadas.

Agronegócio quer o fim das queimadas

Mas o problema é bem mais cabeludo. Proteger a Amazônia não é só para “inglês ver”. É o futuro do próprio país que está em jogo. O agronegócio exportador é o pilar-mor da economia brasileira. E o setor é abertamente favorável a que se acabe com o desmatamento e as queimadas. Para exportar, são necessárias certificações de boa conduta fitossanitária e ecológica.

Se o drama amazônico continuar desse jeito, é claro que as exportações de carne e soja vão acabar sendo barradas. Já o acordo Europa-Mercosul está praticamente enterrado. Porém, o desafio é ainda mais fundo: por causa da angústia climática, os consumidores dos mercados dos grandes países ricos estão mudando seus hábitos alimentares.

Basta entrar em qualquer supermercado europeu para ver as gôndolas de produtos orgânicos, produzidos localmente ou com pegada de carbono baixa, tomarem conta das prateleiras. O consumo de carne na Europa já diminuiu de 30% nos últimos anos. A equação é simples: os grandes consumidores ricos vão comprar cada vez menos produtos vindos de longe, sem garantias de controle severas e ainda por cima com reputação de “assassinos da floresta”.

E podem tirar o cavalinho da chuva: o mercado chinês está longe de poder compensar as perdas. Longe das bravatas, chegou a hora de pensar seriamente nas novas políticas indispensáveis para garantir o futuro econômico do país.

Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica sobre geopolítica às segundas-feiras para a RFI

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