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“No Brasil a tortura não acabou”, diz o psiquiatra Carlos Parada

Por Patricia Moribe

O psiquiatra Carlos Parada trabalha em várias frentes: crianças carentes, drogas e tortura. Diplomado em medicina pela Unifesp, fez residência em psiquiatria em Paris, onde mora desde 1987. Mas apesar de radicado na França, seu campo de ação sempre inclui o Brasil.

Depois de dirigir durante dez anos um centro de consultas ambulatórias para crianças em Paris, o dr. Parada é hoje psiquiatra responsável de um hospital-dia para crianças com distúrbios mentais graves na região parisiense.

Paralelamente, ele participa em São Paulo no Projeto Quixote, criado com cooperação francesa há quase 20 anos. A estrutura acolhe crianças em situação de rua (parcial ou completamente), onde cuidados médicos e assistência social se mesclam. “Sem a visão repressiva que existia no Brasil, quando se cortava o cabelo de uma criança, que era colocada na Febem, para limpar as ruas”, diz.

Tocar o cérebro e mudar o espírito

Em 2016, Carlos Parada lançou o livro “Toucher le cerveau, changer l’esprit”, que descreve como a tecnologia tentou alterar diretamente o espírito. “Ele conta a história da psicocirurgia a partir da lobotomia, criada por um português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel em 1949, e depois como surgem os remédios psicotrópicos e como isso mudou a visão que temos da doença mental e do próprio sujeito”, explica.

Parada conta que a prática da lobotomia foi ampla no Brasil, onde as “moderações econômicas, éticas e sociais são mais indulgentes do que na França. “Lévy-Strauss já dizia que o Brasil tinha passado da barbárie à decadência sem passar pela civilização. Ou seja, um capitalismo sem transcendência. O Brasil foi então um grande praticante da lobotomia desde o início, com casos inclusive de o irmão de um esquizofrênico passar pelo procedimento por medida de prevenção“, relata.

A lobotomia caiu totalmente em desuso, mas Parada diz que a psicocirurgia deve voltar com os avanços da neurociência, como já se vê na China, México ou Estados Unidos. “Aqui na França as pesquisas são muito cuidadosas, mas como é que essas técnicas serão usadas no Brasil, onde quem paga leva? ”, indaga o médico.

“Hoje o Brasil é um grande consumidor de psicotrópicos. Um tema como a ritalina que é um medicamento muito usado para crianças com distúrbios de comportamento no Brasil é quase uma moda”, explica.

Tortura não acabou no Brasil

Carlos Parada também trabalhou no Centro Primo Levi, de Paris, para refugiados e vítimas de violência política e tortura. Para ele, a tortura cria uma fratura social, de medo e desconfiança entre as pessoas.

“A primeira consequência da tortura é na sociedade. Atendi torturados do mundo inteiro. Vi poucas, quase nenhuma pessoa torturada por causa de uma informação. Vi pessoas sendo torturadas durante um, dois meses, um, dois anos. Isso não é para obter informação, é para semear o horror. É para criar o medo e dar vazão à perversão de uns e de outros. E para mostrar à sociedade quem é que manda”, conta.

Carlos Parada acrescenta: “as pessoas que pensam que seria bom a volta de um regime que se dá o direito da tortura, como diz o atual presidente, elas se esquecem que elas próprias vão estar dentro de um regime de medo. No Brasil, a tortura não acabou. Acabou a tortura política. A tortura de classe, a que maltrata pobres e esfarrapados, é permitida e largamente praticada”.

Para assistir a entrevista completa, clique na imagem abaixo:

 

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