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Estudo de cientista brasileira sobre ligação entre células inova no combate de várias doenças

Por RFI

Pesquisas de cientista brasileira na Inglaterra podem melhorar os tratamentos de várias doenças, como câncer, asma, síndrome do intestino irritável e até ajudar a reduzir os efeitos colaterais de venenos de bichos peçonhentos.

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

Vida de cientista costuma ser mais isolada. Sabe-se pouco do que acontece entre todos aqueles equipamentos de laboratório. Há anos, a brasileira Vania Braga se especializou em entender como as células se ligam umas às outras, como se fossem coladas, para manter a unidade e formar vários tecidos do corpo, levando a estruturas de vários órgãos.

No laboratório do Imperial College de Londres, onde trabalha, ela tenta identificar como as doenças conseguem romper essa ligação entre as células. Muitas enfermidades têm esse poder, inclusive o câncer que é um dos objetos de estudo da professora. Quando um tumor se torna maligno, as células se transformam, não conseguem reconhecer ou se agarrar fortemente às vizinhas. É assim que uma célula, ou um grupo de células, se destaca do tecido, se lançando na corrente sanguínea, formando uma metástase em lugares distantes no corpo.

A brasileira se dedica há anos à corrida da medicina contra o câncer. Ao entender o que acontece, ela acredita que é possível reverter o processo. O estudo da ligação das células se desdobra em outras frentes e pode ajudar no tratamento da asma, na síndrome do intestino irritável e até nas pesquisas de antídotos contra venenos de bichos peçonhentos.

“O potencial do estudo da ligação entre as células é enorme. Pode ajudar a combater e reverter doenças. Alterações na coesão celular podem ocorrer durante invasão de vírus e bactérias, levando à diarreia e a manifestações, como por exemplo, da doença do intestino irritado. Durante ataques de asma, por exemplo, o tecido de revestimento dos brônquios pode ficar mais permeável à entrada de alérgenos e à reação imunológica que causa a reação dos brônquios durante um ataque", explica a especialista.

Parceria de ponta com a UFMG

Nesse momento, a professora conta que o seu departamento no instituto britânico e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estão fazendo um projeto conjunto para desenvolver novas drogas e tratamentos contra venenos de cobras. A ideia surgiu depois que o professor Carlos Chaves Olortegi, da UFMG, em uma visita em um período sabático na Inglaterra, apresentou as suas pesquisas.

Bioquímico, ele é especialista em isolar esses venenos de animais peçonhentos, desenvolver anticorpos e caracterizar as toxinas diferentes de cada veneno. É o velho processo de desenvolver os antídotos. Mas até pouco tempo, o seu trabalho era atacar as toxinas e combater o veneno com anticorpos. Com a colaboração entre os dois laboratórios, eles começaram a estudar a maneira como essas toxinas afetam o funcionamento das células.

Se uma a pessoa é picada por uma cobra, o único tratamento disponível é aplicar o soro antiofídico e esperar que ele atue. "O antiveneno não entra na célula. Só imobiliza a toxina circulante. E espera-se que o paciente vá eliminar naturalmente a toxina pelos rins", conta a professora. O problema é que, em muitos casos, a toxina pode entrar na célula e causar danos aos tecidos. Há situações em que os efeitos colaterais do veneno são tão fortes que exigem a amputação de membros afetados pela picada. Podem ainda causar paralisia ou levar órgãos internos a perderem a função. Ao entender como os venenos atuam na ligação entre as células, destruindo a estrutura dos tecidos em vários órgãos, será possível combater também seus efeitos colaterais.

Mas o trabalho conjunto não para aí. As duas universidades estão usando exatamente o modelo desenvolvido no laboratório para reduzir os custos de pesquisas e diminuir os testes com animais. Por exemplo, na verificação da qualidade do soro antiofídico.

Em conjunto com o Laboratório do professor Chaves na UFMG, eles desenvolveram uma plataforma tecnológica que acaba de ser patenteada pela instituição mineira com modelos para testar vários antivenenos. O objetivo é evitar a utilização de camundongos nos testes de avaliação da qualidade do soro antiofidico em institutos de ponta.

"Vários camundongos precisam ser mortos para decidir qual antissoro é eficaz o suficiente para ser usado em pacientes. Era uma matança em escala industrial, que também encarece a produção do soro antiofídico", explica Vania Braga.

Com a nova plataforma tecnológica, as células crescem e são tratadas com o veneno e o antissoro. O veneno sozinho mata as células, mas se o antissoro se ligar ao veneno, oferece proteção às células e elas não morrem. Para Braga, que vive há muitos anos no Reino Unido, a importância deste trabalho está em contribuir para as pesquisas no Brasil.

"Os expatriados têm muito potencial para contribuir com treinamento e técnicas de ponta em áreas ainda não exploradas no Brasil, como a biologia celular. Temos como fazer uma ponte com os professores e as universidades brasileiras", afirma. Mas ela alerta para os riscos dos cortes de gastos feitos pelo governo de Jair Bolsonaro.

"Nesse momento em que há cortes de gastos orçamentários e bolsas, é um problema enorme. Eles vão afetar sensivelmente essas colaborações. É muito difícil para um estudante brasileiro conseguir bolsas de doutorado e pós-dourado fora do país. A não ser que o projeto internacional aprovado seja muito específico em relação a temas brasileiros, e o estudante obtenha visto de trabalho, etc. Além disso, os cortes diminuem a verba para manter a pesquisa nos vários laboratórios no Brasil."

Na prática, é como se ela própria estivesse por trás das ligações entre as "boas células" da academia, que poderão dar origem a novas pesquisas e descobertas, num contexto semelhante ao que acontece com seu objeto de estudo.

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