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Melhor sanção contra desmatamento é consumo consciente, afirmam especialistas

Por Lúcia Müzell

A melhor maneira de combater o desmatamento na Amazônia é pelo bolso – mas não com sanções econômicas nem bloqueio de acordos internacionais. Para especialistas ouvidos pela RFI, a alternativa mais eficaz passa por uma mudança dos hábitos de consumo, com uma maior preocupação dos clientes em banir produtos originados em áreas desmatadas ilegalmente.

O Brasil tem instrumentos para fazer a diferenciação entre os produtores que infringem as leis e aqueles que respeitam as regras ambientais e utilizam áreas já desmatadas. Para Raul Valle, diretor de Justiça Socioambientalda WWF Brasil, apenas a segunda categoria deveria ter acesso aos mercados internacionais, em especial na Europa, onde os clientes são cada vez mais sensíveis a essas questões.

“Infelizmente, está se criando um cenário para aplicarem sanções e boicote ao Brasil, que seria ruim para o país. Quando se coloca todo mundo na mesma situação, não há diferenças entre bom e o mau produtor”, ressalta Valle. “É muito importante que o consumidor e as organizações europeias deem um recado de que querem continuar comprando do Brasil, mas só do Brasil responsável.”

Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil em discussão sobre licenciamento ambiental na Câmara dos Deputados em 14 de agosto de 2019 © WWF-Brasil

Boicote sem distinção

Ao desmontar os mecanismos de fiscalização, o governo brasileiro dá o sinal de que se alia à parcela mais atrasada do agronegócio, que responde por cerca de 20% das terras agrícolas. O resultado é que, na dúvida, os consumidores europeus ameaçam boicotar os produtos brasileiros sem distinção.

“A parte atrasada do agronegócio é que vive da ilegalidade e só consegue sobreviver às margens da lei e da civilização. Invadem terras públicas, invadem terras indígenas, desmatam necessariamente”, explica o ambientalista. “Muitos não são nem agricultores: vivem apenas da especulação de terras do que da produção agrícola propriamente dita.”

Hoje, indica Valle, a maioria dos produtores rurais busca se modernizar na questão. No Acordo de Paris sobre o clima, o Brasil se comprometeu a zerar o desmatamento ilegal – que responde por 80% do desmatamento como um todo. O cientista Carlos Nobre, respeitado internacionalmente pelos estudos sobre o tema, considera que o consumo responsável é uma etapa fundamental para atingir essa meta.

“Se os consumidores de produtos que se originam na Amazônia exigirem certificação de que aquilo que eles compram não vem de uma área desmatada, essa seria a maneira mais efetiva. Mas mudar a cultura de consumo é um processo lento, que não acontece de um dia para o outro”, observa Nobre.

Carlos Nobre, climatologista Captura de vídeo

Exploração responsável dos recursos naturais

Ligado ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), pesquisador é um dos criadores do projeto Amazônia 4.0, que alia a tecnologia de ponta ao uso responsável dos recursos da floresta. O objetivo é criar um centro tecnológico e de desenvolvimento sustentável na região, com o envolvimento das comunidades locais.  Na opinião de Raul Valle, iniciativas como essa são fundamentais para que a floresta atenda aos interesses econômicos, como espera o governo, mas sem degradação ambiental.

Nesse contexto, farão falta as verbas estrangeiras para o Fundo Amazônia, já que parte do dinheiro era utilizada para promover a exploração consciente dos recursos. Em agosto, Noruega e Alemanha suspenderam  quase R$ 290 milhões que repassavam ao fundo,  o mecanismo mais importante de preservação da Amazônia.

“É importante manter uma fonte de recursos para alternativas econômicas, ou seja, cadeias produtivas da borracha, da castanha, do açaí, do cacau, do cupuaçu e vários outros produtos da floresta, que estão sendo melhoradas, mas ainda precisa de um tempo para que possam ganhar escala. Tirar os recursos nesse momento pode quebrar um círculo virtuoso que estava sendo formado”, lamenta Valle.

Monitoramento mundial da devastação

Carlos Nobre ressalta que, embora o governo conteste os dados oficiais do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre o desmatamento, organismos internacionais também estão de olho na devastação da floresta e chegam às mesmas conclusões que o instituto brasileiro.

“É tapar o sol com a peneira porque existem muitos sistemas de monitoramento e de alteração na vegetação nas florestas tropicais, em várias partes do mundo. Nos Estados Unidos, tem a Universidade de Maryland, o Japão tem um sistema que monitora todas as florestas tropicais do mundo, a Jica, e o próprio Brasil tem vários além do Inpe. Todos eles convergem para a mesma resposta”, afirma o cientista.

Os dados indicam um aumento progressivo da devastação desde 2015, e os números deram um salto nos últimos 12 meses. A tendência atual é de que, em 2019, as estatísticas do desmatamento mais do que dobrem em relação às registradas em 2014.

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