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Incêndio Amazônia Brasil Colômbia Cúpula

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Sem Bolsonaro, reunião de cúpula de países amazônicos anuncia pacto pela Amazônia

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Por motivos de saúde, Bolsonaro cancelou a participação na cúpula de Letícia sobre a Amazônia. REUTERS/Adriano Machado

Seis dos nove países amazônicos reunidos na cidade colombiana de Letícia, fronteira com o Brasil e com o Peru, vão anunciar nesta sexta-feira (6) uma declaração de preservação da Amazônia denominada "Pacto de Letícia pela Amazônia". O presidente Jair Bolsonaro será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.


Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

O pacto é uma resposta de longo prazo a uma crise provocada pelos incêndios que devoram vidas, riquezas e o futuro do planeta. Ele pretende propor medidas e ações para um projeto regional de prevenção e de cooperação perante catástrofes ambientais na Amazônia.

"Da reunião presidencial, sairá uma declaração que vai dinamizar as ações concretas e um itinerário de atividades nacionais, regionais e globais em defesa da Amazônia", antecipou o ministro das Relações Exteriores da Colômbia, Carlos Holmes Trujillo, avançando que será uma convocação global para uma ação regional que unifique visões.

"Será lançada uma grande convocação global para avançar nas ações regionais de conservação, de desenvolvimento tecnológico para a conservação, coordenação de ações para a preservação da Amazônia", anunciou o chanceler colombiano, anfitrião do encontro.

Dos seis países presentes, quatro enviarão os seus presidentes (Colômbia, Peru, Bolívia e Equador) enquanto o Suriname terá o seu vice-presidente, Michael Ashwin Adhin, e o Brasil será representado pelo chanceler Ernesto Araújo.

Da região amazônica fazem parte ainda a Venezuela, a Guiana e a França, através do seu território ultramar na fronteira com o Brasil, a Guiana Francesa. Esses países, no entanto, não foram convidados.

Videoconferência

O presidente Jair Bolsonaro, ausente por questões de saúde, acompanhará a reunião por videoconferência. O empenho de Bolsonaro em aparecer unido ao pacto, mesmo à distância e mesmo tendo o seu chanceler presente na reunião, explica-se pela pressão nacional e internacional sobre o presidente brasileiro.

Os demais líderes também precisam do compromisso de Bolsonaro não só porque o Brasil é responsável por 60% da Amazônia, mas porque a retórica bélica do brasileiro, em ataque a ONGs, tribos indígenas e governos estrangeiros, termina envolvendo toda a região.

Cético das alterações climáticas, o discurso de Bolsonaro a favor da exploração de minérios em áreas protegidas e sua hesitante política em matéria de fiscalização têm sido apontados pelos ambientalistas como combustível para as queimadas.

Bolsonaro, por sua vez, coloca em dúvida os reais motivos por trás dos interesses externos em preservar a Amazônia, indicando que usam a questão ambiental para se apoderarem, paulatinamente, das riquezas brasileiras. Esse choque de visões gerou um conflito diplomático com o presidente francês Emmanuel Macron, um crítico da forma como o brasileiro enfrenta a problemática dos incêndios que consomem a floresta.

Soberania

Por isso, um dos aspectos do "Pacto de Letícia pela Amazônia" será a preservação do ambiente dentro dos limites da soberania dos países sobre os seus territórios. "As ações deverão compreender não só os países amazônicos, mas também os países da América do Sul e a comunidade internacional em geral", indicou o chanceler colombiano Carlos Holmes Trujillo.

Mas se Bolsonaro é alvo de ONGs e governos, os demais presidentes também sofrem com as críticas internas, tanto de organizações sociais quanto da oposição política. Em plena campanha eleitoral para um quarto mandato nas eleições de outubro, o boliviano Evo Morales tem sido duramente criticado pela oposição. Em crise política, o colombiano Iván Duque resolveu fazer da preservação da Amazônia e das riquezas naturais da região uma das prioridades da sua política externa. Duque lançou, em agosto, um Conselho Nacional de Luta contra o Desmatamento.

A ideia de uma reunião de cúpula nasceu no final de agosto durante um encontro bilateral entre os presidentes da Colômbia, Iván Duque, e do Peru, Martín Vizcarra, preocupados em coordenar um trabalho em conjunto.

A crise dos incêndios chama a atenção do mundo, mas a Amazônia também sofre outras ameaças que serão debatidas nesta reunião: o desmatamento para o cultivo e para a extração de madeira, a mineração ilegal, o comércio ilegal de espécies e a invasão de reservas indígenas, entre outros pontos. "Por isso, é indispensável soluções conjuntas com uma visão de longo prazo", explicou, em nota, a Chancelaria do Equador.

A reunião acontece na sede da Universidade Nacional de Letícia, um porto colombiano no rio Amazonas em frente ao Peru e unido por terra à cidade brasileira de Tabatinga, no estado do Amazonas. O Pacto de Letícia pretende convocar a adesão posterior da Venezuela, da Guiana e da Guiana Francesa.