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Soberania da Amazônia é raro ponto de convergência entre esquerda e direita

Por Lúcia Müzell

As últimas semanas evidenciaram que, em tempos de forte polarização, a esquerda e a direita brasileiras convergem num ponto: a defesa da soberania do Brasil sobre a Amazônia. O tema foi, inclusive, o foco do discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira (24), depois de o ex-militar ter se insurgido contra o presidente francês, Emmanuel Macron, que evocou a possibilidade de internacionalizar a floresta.

Na sequência, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff foram obrigados a concordar com Bolsonaro – em entrevistas à imprensa francesa, ambos destacaram que a Amazônia é do Brasil. O assunto sempre foi sensível aos brasileiros, em especial nos anos 1990, com o fim da Guerra Fria.

Macron não é o primeiro a levantar a polêmica questão – há 30 anos, outro francês, o socialista François Mitterrand, propôs a criação de uma entidade internacional para punir crimes ecológicos na Amazônia, que poderia resultar na “renúncia de parte da soberania por alguns países”.

Nos Estados Unidos, o ex-vice-presidente democrata Al Gore, por sua vez, disse que, “ao contrário do que os brasileiros acreditam, a Amazônia não é propriedade deles, ela pertence a todos nós”. Para Alexandre Fuccille, professor de Relações Internacionais da Unesp e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed), a reação de qualquer governo brasileiro a esse tipo de colocação é incontestável.

“Por vezes, há relatos um pouco fantasiosos ou exagerados sobre a cobiça internacional em relação à Amazônia, mas sem dúvida a ideia de internacionalização é bastante infeliz. Qualquer brasileiro rechaça essa possibilidade”, afirma.

Preparação para uma invasão

No período pós-Guerra Fria, de insegurança em relação ao que aconteceria na América do Sul em meio a influências capitalistas e comunistas, as declarações dos líderes ocidentais aceleraram os planos do alto comando militar brasileiro de se precaver contra uma eventual invasão, lembra o sociólogo José Roberto Martins Filho, professor Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), especialista em defesa e em governos militares.

“O Brasil se preparou para isso como uma doutrina militar de resistência, a partir do fim da Guerra Fria, na qual o exército da Amazônia seria uma espécie de força de guerrilha, para resistir a uma possível invasão”, indica Martins Filho. “Mas eu acredito que, concretamente, essa possibilidade seja muito pouco provável.”

Naquele momento, tomou mais forma a ideia de fazer a floresta contribuir para o desenvolvimento econômico do país. “Eu diria que todos os governos, desde o Sarney até Temer, e em especial a partir do governo Collor, foram muito sensíveis às pressões dos militares. Eles estão lá há muitas décadas e têm uma visão de mundo muito particular sobre a Amazônia, na qual eles defendem a tríade de ocupação, desenvolvimento e soberania”, observa Alexandre Fuccile.

Diferenças de abordagens

Os dois pesquisadores ponderam que as semelhanças entre a visão dos militares, da esquerda e da extrema-direita de Bolsonaro se encerram na defesa da integridade territorial do Brasil e da sua autoridade sobre a Amazônia. Como os militares, Lula e Dilma adotaram políticas desenvolvimentistas que incluíam a floresta, porém sob uma perspectiva de preservação.

“A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte e todo o prejuízo que ela trouxe para as populações indígenas não eram esperados de um governo como o de Lula, mas foram feitos. Porém, é uma semelhança que para por aqui, porque houve uma preocupação evidente dos governos do PT com o controle do desmatamento”, frisa Martins Filho.

Bolsonaro, por sua vez, levanta o argumento da soberania sobre a Amazônia para questionar a defesa ambiental e dos povos indígenas pregada pelos países europeus e até por seus vizinhos latino-americanos. Na visão do presidente, essa seria uma mera desculpa para que bloquear os avanços do Brasil.

“É uma ênfase bastante paranoica, que vê fantasmas onde não existem. Por exemplo, as principais diferenças com os discursos dos países centrais, que veriam um interesse em preservar a floresta amazônica, é que a ideia por trás disso não seria a preocupação ambiental, mas sim fazer obstáculos ao desenvolvimento do Brasil como uma grande potência”, frise Fuccile. “Seria uma manobra dos países centrais par a impedir que o Brasil cumprisse o seu destino manifesto. Aliás, essa é uma ideia presente nos governos militares: ‘integrar para não entregar’.”

Alinhamento aos Estados Unidos

Por outro lado, os dois especialistas ressaltam que a defesa da soberania por Bolsonaro e os militares que o apoiam apresenta uma grave incoerência: a política externa de alinhamento quase incondicional aos Estados Unidos. Os exercícios militares conjuntos com forças americanas na Amazônia e a abertura da base de Alcântara para lançamentos de Washington são duas medidas que contradizem o discurso do governo, segundo Martins Filho.

“Entre os que estudam a defesa nacional e particularmente da Amazônia, existe ceticismo muito grande sobre qualquer discurso nacionalista militar porque há o apoio a um governo que atrelou o Brasil aos Estados Unidos, portanto não pode falar em soberania”, observa o pesquisador da UFSCar.

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