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“Desmonte da cultura é um verdadeiro pesadelo no Brasil” diz Julio Bressane, homenageado no Festival de Biarritz

Por Maria Emilia Alencar

Julio Bressane faz cinema há cerca de 50 anos. Ele ganhou a sua primeira câmera aos 12 anos de idade e desde então nunca mais parou de filmar. Mas sua obra foi sempre singular, com filmes autorais classificados de “cinema marginal”, o que para ele parece ser nada mais do que um elogio. Essa carreira única na cinematografia brasileira é celebrada agora no Festival Biarritz América Latina, onde ele nos concedeu uma entrevista para falar de sua trajetória, de seus projetos e do que ele considera o “momento trágico” atual que fulmina a cultura brasileira.

No programa do Festival, o crítico da revista Cahiers du Cinéma, Nicolas Azalbert, se pergunta porque Bressane – que ele considera um dos maiores cineastas brasileiros – continua sendo praticamente um desconhecido após a realização de 37 filmes. A resposta pode estar em sua independência e ousadia criativa, que lhe valeram a censura de alguns de seus filmes durante a ditadura militar no Brasil e um distanciamento com o Cinema Novo, celebrado pela crítica europeia nos anos 60.

O cinema de Bressane se alimenta das muitas referências filosóficas e literárias estrangeiras, que ele confronta com a cultura e identidade brasileiras, mas principalmente da necessidade “obsessiva” que ele tem de filmar. “Eu sempre entendi o cinema como um organismo intelectual sensível que atravessa as disciplinas, as ciências, as artes e sobretudo atravessa a questão da vida. É um instrumento muito radical de autotransformação” – diz ele.

Em 1969 seu filme “Matou a família e foi ao cinema”, inspirado nas manchetes da imprensa sensacionalista de jornais cariocas da época, foi ovacionado no Festival de Cannes. Mas como ele próprio lembra hoje, esse projeto teve de certa forma uma “recepção truncada”, pois ficou apenas 12 dias em cartaz e foi logo censurado, sendo exibido depois “quase que de maneira clandestina”.

Bressane não emprega em nenhum momento um tom de vitimização quando fala de sua carreira, pois sempre optou por um cinema autoral, sem pensar obrigatoriamente em atingir um grande público. “A questão principal para mim foi sempre realizar filmes”. E lembra uma teoria dos intelectuais europeus do século 18: “o criador que faz alguma coisa pensando no público está perdido”.

“Capitu e o Capítulo”

Certamente seus filmes não são unanimidade, mas continuam seduzindo uma franja de espectadores ávidos por uma linguagem cinematográfica peculiar e independente. Seu último longa, “Sedução da Carne” (2018), venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Lisboa e Sintra do ano passado.

O filme, exibido agora no Festival de Biarritz, surpreende, pois sozinha em cena, a atriz Mariana Lima passa os dias conversando com um papagaio sobre sua obsessão pela carne. Ao lado do pássaro, uma pilha de carne crua vai crescendo gradativamente. Sua inspiração vem, entre outras coisas, do pesadelo que é a importância do agronegócio e principalmente da devastação que causa a produção da carne no Brasil.              

Aos 73 anos, o cineasta continua fazendo cinema. Em seu último projeto, que já foi rodado e está em fase de montagem, ele se inspira mais uma vez em um monstro sagrado da literatura brasileira que é Machado de Assis. “Capitu e o Capítulo” é o título do filme que, segundo ele, “não é uma tradução, nem uma adaptação de Dom Casmurro, e sim uma distorção desse romance”, onde uma figura do livro se torna um personagem importante, que é o Capítulo.

“É um pêndulo entre a Capitu (personagem central do romance) e o Capítulo”, formulação que lhe foi sugerida pelo poeta e amigo Haroldo de Campos (1929-2003). Nesse filme, ele aborda algo central para Machado de Assis que são as crises de epilepsia das quais o escritor sofria. Em suas obras o “capítulo” está ligado a questão da emoção concentrada, cega, às interrupções que se sucedem. Os capítulos estão ligados a essas interrupções. Por isso, diz Bressane, um livro de Machado contendo 160 páginas pode ter 148 capítulos, ou seja, “uma interrupção atrás da outra”.

Momento trágico para a cultura no Brasil

Em relação aos cortes nos programas dedicados a cultura no Brasil, preconizados pelo atual governo Bolsonaro e às ameaças e intervenções na Ancine, Bressane se mostra profundamente pessimista. “Certamente um tipo de cinema deve desaparecer com esse controle, com essa autoridade que o governo vai impor. Não sabemos se o cinema vai sobreviver, nem que tipo de cinema vai sobreviver. É um momento muito triste e bastante trágico para o cinema e para a cultura brasileira”, conclui o cineasta.

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