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Católicas da Amazônia esperam do Vaticano maior valorização para mulheres dentro da Igreja

Por Elcio Ramalho

Reforçar o papel das mulheres na Igreja Católica e conferir responsabilidades e ações reservadas apenas aos homens é um dos temas da agenda do Sínodo da Amazônia que geram mais expectativas. As discussões entre bispos e religiosos que começaram no dia 6 de outubro no Vaticano partem de uma realidade ancorada em regiões remotas ou nas periferias urbanas das grandes cidades amazônicas, onde as mulheres ocupam a lacuna deixada pela ausência de padres e diáconos.

Enviado especial a Manaus,

Professora aposentada, Creuza Pinheiro da Silva, de 68 anos, caminha pouco mais de 15 minutos entre sua casa e a área conhecida como “Cemitério dos Índios”. No caminho de terra e areia até o centro comunitário ela precisa se desviar das grandes poças d’água formadas após o imenso temporal que se abateu na cidade durante a madrugada.

O centro não tem piso, é protegido apenas por uma cobertura de palha e fica no meio da área ocupada por cerca de 500 famílias que ainda lutam para terem o título de propriedade de suas casas, a maioria ainda inacabada. Em princípio, a área do antigo cemitério indígena deveria abrigar representantes de 22 etnias, mas a infiltração de traficantes de drogas provocou a divisão do terreno com moradores “brancos”.  

A situação não impede a presença da missionária Creuza e  sua equipe para o trabalho religioso desenvolvido há mais de cinco meses com a pequena comunidade católica da área. São apenas 18 fiéis, que nem chegam a ocupar todos os bancos de madeira. Na primeira fila, Fortunato Lima, da etnia baniwa, está acompanhado da mãe e do filho mais velho, de 24 anos, que sofre de epilepsia. A doença fez a família se mudar de São Gabriel da Cachoeira para Manaus, onde é possível seguir o tratamento com um neurologista.

Nascido e criado na fé católica, Fortunato insistiu para que a comunidade também pudesse receber a visita de religiosos. “É longe para ir à igreja, por isso tentei chamar a Igreja Católica para cá, e está dando certo”, comemora, ao lembrar que várias vezes foi abordado para mudar para igrejas evangélicas. “Essas igrejas, puxam a gente, oferecem merenda, essas coisas para poder conquistar a população. Mas prefiro continuar católico. A diferença é que nós vamos apenas com a intenção de orar”, compara.     

Fortunato participa todos os sábados das celebrações, sendo que apenas duas foram com a presença de um padre. As demais foram comandadas por Creuza, que é ministra da Eucaristia. No altar improvisado, estão a imagem de Nossa Senhora da Conceição, velas, a bíblia e os demais objetos necessários para a liturgia que começa pontualmente às 8h30. 

Ritual de uma missa

A catequista segue o mesmo ritual da missa, desde o início com as palavras e orações de boas-vindas, passando pela leitura do Evangelho seguida do sermão, a distribuição da Eucaristia, já consagrada, até o encerramento.

Toda a celebração segue o rito de uma missa, mas trata-se de uma Celebração da Palavra, já que não pode exercer funções como a transubstanciação, quando o padre transforma o pão no corpo e o vinho no sangue de Cristo.

O trabalho missionário com a comunidade católica indígena é uma das atribuições recentes de Creuza, que não esconde sua grande expectativa para que o Vaticano reconheça e amplie o poder de ação das mulheres na região amazônica.

“A Igreja aqui na Amazônia é toda voltada para o trabalho feminino. Quando a gente vai pelos interiores, pelos ‘beiradões’, a gente vê que a grande maioria é de mulheres que vivem da fé e trabalham para a fé. É um trabalho que a gente se sente bem”, diz.

Sua própria experiência a legitima para reivindicar uma ação concreta por parte da Igreja.

“A nossa grande preocupação enquanto Igreja nesta grande extensão amazônica é que todos tenham acesso à Palavra e ao Pão. Temos o Pão, mas não sabemos quando que o padre vai, quando vai sacramentar. Há uma disparidade muito grande. Já viajei com padres para comunidades que passam um ano sem receber a Eucaristia. Ele chegava, celebrava batismo, casamento. Isso a gente fica na expectativa de que o Sínodo traga uma resposta”, diz Creuza.

A expectativa é de que a Igreja volte a criar o papel de diaconisas, abolida pela instituição em um passado recente. No momento, apenas os homens podem ser reconhecidos como diáconos e substituir os padres em alguns sacramentos como o batismo, matrimônio, entre outras funções sacerdotais.

“As mulheres já têm ministérios. O que faltava? Eu venho, participo da celebração. As mulheres batizavam, casavam, alfabetizavam, catequizavam, mas não faziam os trabalhos que os homens fazem. Esses homens estão realmente muito fechados entre eles, porque é uma questão clerical. Quer dizer, ‘eu estudo para ser padre, mas não vou querer ir para os ‘beiradões’, as comunidades, distantes’. E quem vai? As mulheres. Elas estão lá, fazem parte da comunidade. Temos muita expectativa neste Sínodo principalmente nesta questão diaconal da mulher”, insiste.

Construção da Igreja Católica

Ao final da Celebração da Palavra, Creuza acompanha o pequeno grupo de fiéis católicos na visita ao terreno destinado à construção da futura Igreja Católica na comunidade. Por enquanto, existe apenas uma placa no local, enquanto a poucos metros dali a Assembleia de Deus já está com os alicerces e as paredes erguidas.

“Ainda estamos conversando com o padre sobre quem será nosso padroeiro, mas queremos fazer a igreja em forma de oca, para simbolizar e diferenciar para mostrar que é de uma área indígena”, explica, esperançosa, Hellen Greicy da Costa Barbosa, 38 anos, da etnia Kokama. Mas, por enquanto, não há previsão de quando começarão as obras.

“Trabalho braçal a gente garante, mas o que está mais difícil é financeiramente, mas vamos chegar lá”, diz, sorridente. Segundo Hellen, a comunidade católica é pequena porque ainda faltam visitas para os moradores da própria comunidade, o que as outras igrejas evangélicas já fazem de maneira bem eficiente. 

A área era um antigo cemitério dos índios, hoje ocupada por várias etnias indígenas. E. Ramalho

  

Ainda não é possível saber se quando a Igreja Católica da comunidade ficar pronta, o Vaticano já terá dados sinais em relação às reivindicações de que as mulheres da região amazônica tenham novas funções dentro da instituição. Mas se nenhum passo for dado adiante, Creuza não pretende desanimar.

“A expectativa é grande, mas se o Sínodo não instituir mulheres como diaconisas, nada vai mudar porque vamos continuar fazendo nosso trabalho. Esse trabalho não vai mudar nem desanimar. Mas é lógico que a Igreja Católica vai perdendo por isso. Por quê? Porque outra Igreja instituiu um pastor, ele vai lá com sua família e aí arrebanha os fiéis. A Igreja Católica, como não pode ir com um sacerdote, o que acontece? Ela vai perdendo para essas outras Igrejas esse espaço, por isso estamos perdendo muitos fiéis”, constata.     

Mulheres da equipe itinerante

Além dos centros urbanos, as mulheres também estão muito presentes nas atividades missionárias pelo interior da Amazônia.

Criada em 1988 pelo padre jesuíta Cláudio Perani, a “equipe itinerante” percorre comunidades indígenas e ribeirinhas isoladas, em diferentes regiões dos estados do norte do Brasil.

Nestes locais, a presença de padres é rara, e a equipe desenvolve trabalhos de assistência espiritual e social.  Índigena da tribo Sateré-Mawé, do baixo rio Amazonas, Arizete Denelly se formou em Pedagogia e integra a Congregação das Cônegas de Santo Agostinho. Como membro da equipe itinerante, ela já morou em áreas ocupadas por comunidades indígenas e viajou pelo interior do Amazonas para desenvolver seu trabalho missionário. “A gente não precisa que a Igreja esteja nos dizendo (o que fazer).  Nas nossas comunidades, nós já somos autoridades, respeitando quem lá estão. Já somos sacerdotisas onde nós estamos”, afirma.

Arizete Miranda Denelly da Congregação Cônegas de Santo Agostinho E. Ramalho

Há dez anos cinco na equipe itinerante, Irmã Joaninha Madeira, da Congregação da Imaculada Conceição, desenvolve um trabalho com comunidades indígenas na fronteira entre Bolívia, Peru e Brasil.

“Onde o Estado, a Igreja, as políticas públicas não chegam, nós chegamos para apoiar e empoderar as comunidades indígenas, para que eles possam lutar por seus direitos. Nas fronteiras, você se depara com muita coisa. A vida lá é muito ameaçada, as vidas são muito mais abertas do que nos lugares em que existem políticas públicas e governo. As fronteiras hoje são um grito, onde a gente precisa estar”, diz a missionária, convocada pela “equipe itinerante” para participar de atividades paralelas do Sínodo da Amazônia no Vaticano.  

Irmã Joaninha Madeira em missão na área indigena da fronteira entre Brasil e Bolivia Arquivo Pessoal

No período em que vai estar participando dos debates sobre os novos rumos para o fortalecimento da Igreja Católica na região amazônica, irmã Joaninha pretende ressaltar o papel e as ambições de religiosas e leigas que atuam nas regiões onde a presença do clero é insuficiente.  

“Nessas comunidades, 80, 90% das mulheres estão na liderança, então porque não respeitar a mulher como liderança?  Não que queremos ser ordenadas como padres, não somos clericais, somos leigas, mas temos um papel fundamental na Amazônia. Nas nossas igrejas, as mulheres estão na liderança. Padre é minoria, mas como temos uma história, o machismo na Igreja e no mundo, as mulheres estão ali num cantinho, mas elas estão muito ativas. Inclusive o Papa está convidando muitas mulheres para as reuniões no espaço sinodal. Isso é inédito e traz uma esperança muito grande”, ressalta.

Veja a reportagem em vídeo

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