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“Estamos assistindo a uma guerra de facções”, diz Jean Wyllys sobre repercussão do envolvimento de Bolsonaro no caso Marielle

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O ex-deputado federal Jean Wyllys conversou com exclusividade com a RFI nesta quarta-feira (30) direto de seu escritório no Instituto de Pesquisa Afro-Latino-Americanos, na universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Acervo pessoal

O ex-deputado federal Jean Wyllys conversou com exclusividade com a RFI nesta quarta-feira (30) direto de seu escritório no Afro-Latin American Research Institute, na Universidade de Harvard, onde é pesquisador-convidado. Ele analisou as repercussões após a reportagem da Jornal Nacional que revelou uma possível ligação dos assassinos de Marielle Franco com a família Bolsonaro e a “live” do presidente brasileiro nesta madrugada, direto da Arábia Saudita. Jean Wyllys falou sobre as forças políticas em jogo neste novo tabuleiro de xadrez, onde Bolsonaro parece perder peças importantes, mas cujo peso mobiliza a entrada em cena de atores de instâncias superiores, como o Supremo Tribunal Federal.


RFI: O Ministério Público do Rio contradisse agora há pouco a versão apresentada pelo porteiro do condomínio Vivendas da Barra, no Rio, que revelava a possibilidade de uma ligação do presidente Jair Bolsonaro com os assassinos de Marielle Franco. Segundo a promotora, Bolsonaro não teria sido o responsável por autorizar a entrada de Élcio Queiroz no local, e o porteiro poderia ter se enganado.

Jean Wyllys: Na verdade, não sabemos se o porteiro voltou atrás ou se foi pressionado. A ingerência do Executivo neste episódio, representada pela atuação do ministro da Justiça Sérgio Moro, é inaceitável, além de ilegal. Ele se calou até agora sobre a execução de Marielle e sobre o caso Queiroz. Por que agora resolve se meter com um porteiro?

RFI: Como você avalia a atuação de Moro, acionado por Bolsonaro, que desejava que o porteiro depusesse novamente?

JW: O Moro é um capacho de Bolsonaro. Ele é um elemento interessante na medida em que a Globo não sabe o que fazer com ele. Moro foi um personagem essencial na narrativa pública de combate à corrupção que mascarou o golpe. As pessoas associaram a queda da Dilma a um discurso mais amplo anticorrupção, anti-petista, construído sobretudo pelo jornalismo da Globo. Para esse discurso, Moro e a Lava Jato são fundamentais. Em sua sede de poder, Moro se converte em ministro de Bolsonaro, deixa de ser juiz, e sai fora do controle de uma emissora que se alinhou em 2018 com ele. A Globo vai continuar poupando Sérgio Moro e negligenciado as revelações da Vaza Jato [iniciadas pelo site Intercept, em parceria com veículos brasileiros]? Moro está fragilizado, ele não tem para onde ir porque a Vaza Jato revelou o nível de corrupção em que a Lava Jato se envolveu. Mas o anti-petismo continua a ser uma força política, composto pelo bolsonarismo, composto por forças antidemocráticas e criminosas, e o moro-lavajatismo. Moro não tem muita saída, ele está em franca erosão, o que lhe resta é ser capacho de Bolsonaro.

RFI: Qual a sua avaliação sobre a “live” do presidente Jair Bolsonaro? Ele chegou a dizer que “querem” que seu filho seja preso, mas a reportagem do Jornal Nacional não chegou a citar nenhum de seus filhos...

Jean Wyllys: O comportamento de Bolsonaro naquela “live”, o próprio gesto de fazer isso durante uma visita diplomática a um país no Oriente Médio já é muito significativo e não pode ser desprezado. Por que o assunto Marielle o incomoda tanto? Depois, o comportamento em si é altamente desequilibrado. Aquilo não é o comportamento de um presidente de uma nação de mais de 200 milhões de habitantes e uma das maiores economias do mundo, mas de um hater de internet. Depois, ele faz menção a um filho que a reportagem da Globo não menciona. É como se ele fizesse uma confissão de culpa. Alguém nessa casa atendeu [o interfone], e, nessa “live”, ele aponta que foi um dos filhos dele. Ele tem um filho chamado Jair, Jair Renan. Independentemente disso, é grave que um presidente da República seja implicado num assassinato como o de Marielle, que tem um simbolismo muito grande, porque não foi só a execução de uma promessa política, de uma mulher incrível: foi um recado a um campo político, dentro do contexto de uma intervenção militar em um narcoestado, que é o Rio de Janeiro, incrustrado com organizações paramilitares e criminosas. Apenas o nome dele ser implicado nesse assassinato já é gravíssimo. Há um conjunto de “coincidências” que apontam a ligação da família Bolsonaro com essa execução. Foi a revelação dessa ligação que, aliás, fortaleceu minha decisão de não voltar ao Brasil. A gota d’água, após as ameaças de morte e a destruição pública da minha imagem por meio de fake news, o que me deixava vulnerável nos espaços públicos, foi a informação de que o assassino de Marielle morava no mesmo condomínio que ele. Há uma ligação clara entre as organizações criminosas – as milícias no Rio de Janeiro – e a família Bolsonaro. Esse cara agora é presidente da República, foi eleito por um alinhamento político que vai além do PSL. Ele tem setores das Forças Armadas com ele e com forças criminosas. Avaliei que seria um ambiente propício para a minha eliminação.

RFI: Você já disse que “a memória de Marielle vai derrubar Bolsonaro”. O que você quis dizer com isso?

JW: Não foi uma profecia, não sou profeta nem faço futurologia. A partir da leitura da conjuntura, eu disse aquela frase, ou seja, a morte da Marielle não é o fim. Eles a eliminaram, mas a memória dela vai derrubá-los. O legado dela tem cada vez mais se convertido num símbolo global. É da memória dela, de todo o debate em torno da memória dela, da execução, dos motivos, que vem o simbolismo que vai derrubar essa gente.

RFI: Você dispunha de dados externos concretos, mais completos na época, que o levassem a fazer essa afirmação?

JW: Não, eu era presidente da comissão externa que acompanhava as investigações acerca do assassinato de Marielle. Ela foi executada na noite do 14 de março, e na manhã do dia 15 eu pedi e [o presidente da Câmara] Rodrigo Maia constituiu a comissão. Montamos um plano de trabalho e acompanhamos as instituições que eram responsáveis pela investigação. O trabalho foi todo documentado, a gente produziu relatórios, o Glauber [Braga, deputado do Psol] era relator. Montamos um cronograma de trabalho, mas havia uma dificuldade enorme de transparência das instituições envolvidas com a sociedade. Fizemos pressão com Anistia Internacional, Justiça Global, com a ONU, o Observatório da Imprensa, organismos internacionais. Eu estava acompanhando as reviravoltas na investigação, as relações deste assassinato com o contexto da intervenção militar, ou seja, eu tinha elementos. A partir destes elementos, tive uma intuição, que vem da análise da conjuntura. Vem da experiência de alguém saindo do horror da difamação bolsonarista. Eu vi como Marielle foi difamada quatro horas depois da execução dela pelos mesmos canais que me difamavam. Era uma leitura quase óbvia. E eu continuo dizendo que a memória dela vai derrubar Bolsonaro, porque o empoderamento da extrema direita [no Brasil] está relacionado com aquela execução, e a antecede mesmo, tem a ver com o golpe de 2016 e o alinhamento destas forças políticas em 2018, o ano em que ela é executada.

RFI: Durante a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, você chegou a cuspir em Bolsonaro. Foi um divisor de águas na sua percepção?

JW: Sim, claro, quando cuspi em Bolsonaro, o filme “Homens de Bem”, que retrata minha atuação parlamentar já havia sido rodado. O filme mostra o momento em que sou eleito, em 2014, mas não consigo ficar feliz ao ver a votação expressiva que ele havia recebido, eu já havia pressentido o movimento funesto que havia na sociedade. Eu fui capaz de fazer essa leitura porque eu sou gay, e vinha sendo vítima de um conjunto de violências que tinha a ver com a família Bolsonaro, o gabinete dele me difamava diretamente. Eu vi quando essas forças políticas antidemocráticas, como o MBL, como o Vem pra Rua, se associaram à centro-direita para derrubar a Dilma. Os setores da esquerda não davam a devida importância e tratavam somente como uma coisa pessoal, no máximo como homofobia, mas eu via a maneira como essas forças se aglutinavam. O ridículo político foi utilizado por ele, ele ascendeu a partir do contraponto com a minha figura. Aquele dia [quando o ex-deputado cuspiu no atual presidente] era a curva ascendente desse movimento, mas não era o ponto culminante, que foi a execução de Marielle.

RFI: Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro e até então aliado de Bolsonaro, contradisse o presidente nesta quarta-feira sobre o fato de ter conhecimento do processo do Ministério Público do Rio, com o depoimento do porteiro. Bolsonaro perde aliados ou é apenas uma tentativa de sair da “linha de tiro”?

JW: Não posso dizer nada conclusivo nesse momento, mas eu tenho memória.  Witzel estava do lado dos candidatos que quebraram a placa que fazia uma homenagem a Marielle Franco, após sua execução. Witzel foi eleito graças a uma campanha de fake news que não o valorizavam, mas que o contrapunham a figuras como eu, Marielle, no campo da esquerda. Witzel foi uma grande surpresa, ninguém sabia quem ele era quando foi para o segundo turno graças a uma sobreposição de redes digitais com essas redes analógicas, que são as igrejas evangélicas neopentecostais, e as milícias que controlam territórios no Rio de Janeiro. Nada disso se apaga, o que estamos vendo agora é uma guerra de facções. As forças de centro-direita que vinham perdendo as quatro últimas eleições resolveram dar um golpe e se alinharam com forças criminosas, achando que elas seriam controláveis. Essas forças criminosas fazem o serviço sujo, da difamação, da intimidação, da ameaça e do assassinato. Elas perpetraram o golpe, começaram a implementar um programa neoliberal com um governo sabidamente corrupto [Temer] e esse programa deveria ter prosseguimento. Como eles não tinham candidato viável, se alinharam em torno de Bolsonaro mesmo sabendo o que ele representava e que forças políticas estavam na base do bolsonarismo. O que estamos vendo agora é uma guerra entre facções, no Rio de Janeiro entre as que apoiam Witzel e aquelas de Bolsonaro, e, ao mesmo tempo, a centro-direita que se aliou a estas forças tentando conter os danos. Há uma tentativa de contenção de danos, e que bom que ao menos eles estejam fazendo isso, porque a ascensão da extrema direita não é responsabilidade da esquerda, mas quem financiou a campanha de fake news de Bolsonaro, quem naturalizou o discurso fascista. Agora há uma guerra clara entre as organizações criminosas que estão na base eleitoral de Bolsonaro, de Witzel, dessas figuras do Rio de Janeiro. Witzel, depois de ter se aproveitado do bolsonarismo, agora tenta pular fora do barco, depois que Bolsonaro começa a derreter após questões como o Gabinete do Ódio, da política ambiental do Ricardo Salles, da política desastrosa de um Ernesto Araújo. Witzel tenta pular fora do barco usando um elemento no qual ele mesmo está implicado, que é a execução de Marielle.

RFI: Como você acha que o STF vai se posicionar após a revelação do possível envolvimento de Bolsonaro com o caso Marielle?

JW: O STF não é um órgão neutro, nunca foi. Ele tem um papel na execução do golpe de 2016 e na eleição de Bolsonaro. Estou falando de um alinhamento de forças políticas que também estão no STF. A indicação de um ministro do STF é um processo político que não se interrompe quando ele vira ministro. Espero que agora o STF esteja junto com a Globo e participe da contenção de danos do mal que eles empoderaram. Diante desta denúncia, que o STF abra um inquérito e que a Procuradoria-Geral da República (PGR) trabalhem mais ativamente nesta contenção de danos.