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Cirurgia bariátrica: dez anos depois, menos da metade dos pacientes mantêm o peso

Por Silvano Mendes

O Brasil já é o segundo país do mundo em número de cirurgias bariátricas. No entanto, as estatísticas mostram que com o tempo nem todos os pacientes estão satisfeitos com a técnica, criada para ajudar no emagrecimento rápido. Segundo especialistas, dez anos após a operação apenas metade deles conseguem manter o peso.

Em 2015, cerca de 100 mil cirurgias bariátricas foram realizadas no Brasil. Essa intervenção se popularizou a tal ponto que em poucos anos o país se tornou um dos líderes mundiais nesse tipo de operação, atrás apenas dos Estados Unidos, que realizam o dobro de cirurgias a cada ano.

O médico Josemberg Campos, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), comenta que a aumento da procura da cirurgia bariátrica no Brasil, assim como nos Estados Unidos, se justifica pelo número de pessoas gordas no país. Segundo ele, 51% da população está acima do peso e pelo menos “15% dos brasileiros poderiam se candidatar para uma cirurgia bariátrica”.

Conhecida popularmente como cirurgia de redução de estômago, a bariátrica é, na verdade, o nome dado a diferentes procedimentos que têm como objetivo ajudar na perda rápida de peso. Entre os métodos mais realizados no Brasil estão o Bypass gástrico, que consiste em efetuar um grampeamento de parte do estômago, reduzindo assim o espaço para o alimento. Outro tipo de intervenção popular no Brasil é o Sleeve, ou gastrectomia vertical, método no qual o estômago é transformado em um tubo, com capacidade reduzida de armazenamento.

Ambas provocam o emagrecimento em menos tempo que os regimes convencionais. No entanto, basta visitar os fóruns de discussão e as redes sociais para se dar conta que os resultados nem sem são os esperados. Se muitos se felicitam da perda rápida de peso logo nos primeiros meses e anos, há também relatos de pacientes que não alcançam os objetivos estipulados ou que simplesmente recuperaram o peso inicial com o passar do tempo.

Cerca de 5% recuperam todo o peso inicial

Segundo a endocrinologista Cintia Cercato, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), depois de 10 anos, menos da metade dos pacientes estão plenamente satisfeitos, pois “50% reganham menos de 20% do peso”. No entanto, “os outros 50% dos operados engordam novamente mais de 20% do excesso de peso. Além disso, cerca de 5% reganham praticamente todo o peso e voltam ao seu ponto inicial, ficando apenas com os efeitos colaterais da cirurgia, sem ter nenhum benefício”, conta a especialista.

Os efeitos colaterais mencionados pela médica são as carências nutricionais provocadas principalmente no caso do Bypass gástrico. Pois ao realizar um desvio do intestino inicial, a técnica promove o aumento de hormônios que dão saciedade e diminuem a fome. Mas, ao mesmo tempo, provoca uma deficiência de alguns micronutrientes, como ferro, cálcio e vitamina D12.

Mas o professor Marco Aurélio Santo, diretor da Unidade de cirurgia bariátrica do Hospital das Clínicas, ligado à Faculdade de medicina da USP, é mais ponderado. “De um modo geral, a cirurgia atinge com plenitude o objetivo maior de garantir uma perda de peso sustentada na grande maioria dos pacientes”, comenta o médico.

Ele também lembra que nem todos estão aptos a realizar essa operação, já que para ter acesso à cirurgia bariátrica no Brasil, os pacientes passam por um processo de cerca de dois anos, período durante o qual os médicos vão avaliar se a intervenção é necessária e qual tipo de operação é mais adequado. Além disso, há um acompanhamento psicológico, para que “o indivíduo comece a se conscientizar das mudanças que vão ocorrer após a operação”.

No que diz respeito ao peso, aqueles que apresentam um índice de massa corporal (IMC) acima de 35 são prioritários, principalmente se forem portadores de doenças associadas a obesidade, como pressão alta e diabetes. Diante dessa restrição, “tem pessoas que às vezes engordam de propósito para alcançar o peso mínimo para operar”, denuncia Santo.

“É uma cirurgia perigosa”, conta paciente

A carioca Maria* tem 62 anos e realizou a cirurgia bariátrica há mais de dez anos. Brigando com a balança desde a adolescência, ela já tinha tentado vários tratamentos e dietas antes de optar pela intervenção cirúrgica. “Eu estava muito pesada, com 123 quilos para 1m68 de altura. A gordura estava me incomodando”, conta.

Para a equipe médica que a acompanhou, seu caso foi um sucesso, mas uma década depois, Maria conta que recuperou parte do peso. “Cheguei a uns 81 quilos, mas agora eu estou com 93”, relata a carioca, que continua fazendo regimes, faz parte do programa Vigilantes do Peso, e segue tomando vitaminas para repor as carências provocadas pela operação. “Essa cirurgia ocasiona uma restrição na entrada de açúcar e vitaminas no organismo e isso é para o resto da vida. Então você sempre vai ter que tomar vitaminas. É um preço que você tem que pagar por ter feito a operação”, lamenta. “É uma cirurgia perigosa, que tem que ter um acompanhamento médico e obediência muito grande por parte do paciente”.

O mesmo alerta é feito pelo médico Josemberg Campos, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Segundo ele, quem passa por esse tipo de intervenção tem que se manter vigilante, pois “infelizmente, estamos tratando de uma doença crônica incurável”.

Portanto, para que a cirurgia funcione, o paciente tem que mudar totalmente seus hábitos alimentares, praticar atividades físicas e evitar o consumo de álcool ou drogas. Uma mudança radical de estilo de vida que pode desanimar algumas pessoas. “Não pode achar que encontrou a solução para seus problemas. A cirurgia bariátrica é só um empurrão para você ter mais saúde, não é uma formula mágica”, avisa Maria. Apesar disso, a carioca não se arrepende e diz que, se necessário, faria tudo novamente.

O sistema público de saúde cobre a operação bariátrica no Brasil. Mas por enquanto, somente cerca de 10% das cirurgias realizadas no país são financiadas pelo SUS, as demais sendo cobertas por convênios ou pelo sistema de hospitais particulares, onde a intervenção custa entre US$ 15 mil e 30 mil.

*A testemunha preferiu não ser identificada e teve seu nome modificado.

 

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