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ONG defende consumo de peixes locais para reduzir impacto ambiental

A ONG Global Footprint Network lançou neste mês mais uma edição do seu relatório anual apontando o "dia da sobrecarga da Terra", quando todos os recursos naturais que o planeta é capaz de produzir em um ano já foram consumidos. Em 2017, essa data foi em 2 de agosto.

Marcos Fernandes, especial para a RFI

A RFI conversou com a chefe do departamento marítimo da organização França Natureza e Meio Ambiente Elodie Martine-Cousty, que afirmou que se todos os países consumissem como a nação francesa o dia da sobrecarga da Terra chegaria ainda mais cedo no ano: em abril.

Uma das causas pode ser o consumo de peixes. Segundo ela, os franceses começaram a comer cada vez mais os produtos do mar em busca de uma alimentação mais saudável, mas é preciso tomar cuidado para não “sobrecarregar” ainda mais o planeta.

“A França está entre os países que consomem muito peixe. Em comparação com a Coreia ou a Noruega, nós comemos menos porque lá eles devem consumir 58kg por ano e por habitante e aqui nós consumimos 35kg de peixe e de produtos aquáticos por ano e por habitante. Mas esse volume não para de aumentar porque as proteínas aquáticas são ótimas para a saúde e contém Omega 3. Além disso, os franceses estão cada vez mais cuidadosos com o que comem e com relação à sua saúde”.

Mudança de alimentação

O problema maior é que os franceses têm tendência a comer sempre as mesmas espécies, como o salmão, preferido por 44% dos consumidores, o atum ou o peixe-espada, fazendo com que algumas desapareçam enquanto outras, como a tainha ou o robalo, sobram.

“Na França as espécies mais consumidas são o bacalhau fresco, o salmão e o camarão tropical e quase nenhum vem da pesca francesa. É preciso que os franceses aprendam a voltar a comer peixes locais. Nós encontramos aqui pescadores e vendedores com peixes muito bons, de qualidade e menos caros que precisam estar presentes nas prateleiras dos mercados. Estou me referindo ao robalo ou ao escamudo, que são menos tradicionais. Os franceses podem reduzir os impactos ambientais ao respeitar o momento certo de comer certas espécies”.

O selo MSC garante que a produção é proveniente de uma pesca sustentável. Wouter Schuddebeurs/ Flickr/ Creative Commons

Além da mudança nos hábitos alimentares, uma atitude que pode fazer a diferença no caso da França é o consumo de peixes que tenham o selo de pesca sustentável da organização Marine Stewardship Council, que obedece a três princípios.

O primeiro é a conservação das espécies: a atividade deve se situar num nível que assegure a perenidade das populações pescadas. O segundo é a minimização do impacto no meio ambiente, de modo que a estrutura, a produtividade e a diversidade do ecossistema continuem estáveis. O último é a gestão eficaz, o que significa que a pesca deve respeitar as leis em vigor e ter uma administração que se adapte às mudanças.

Alternativa sustentável

Outra maneira de combater a pesca predatória é a aquacultura, que é a criação em ambiente fechado de organismos marinhos. Se bem executada, a aquacultura pode ajudar a diminuir a exploração excessiva de certas espécies ameaçadas, além de ser uma resposta para a demanda crescente do consumo de peixes. Na França, 70% dos peixes consumidos vêm da pesca, enquanto 30% da aquacultura, de acordo com dados da associação France Filière Pêche (FFP).

Jérôme Lafon, representante industria da pesca e aquicultura da empresa FranceAgriMer ©FranceAgriMer

Para Jerôme Lafon, diretor da filial da pesca da organização France Aguimer, os benefícios da aquacultura são diversos e alguns desconhecidos da maior parte da população.

“É claro que se criamos, em ambiente fechado, diversos tipos de conchas, crustáceos e peixes, isso significa que eles não serão capturados no mar. A segunda coisa que devemos ter em mente é que os profissionais da aquacultura precisam de uma água de boa qualidade, então eles não vão, em seus modos de produção e em suas atividades, se contentar com uma água poluída ou provocar uma poluição. O terceiro aspecto ecológico da aquacultura é que a criação de conchas funciona como uma forma de eliminar o carbono da natureza. Nós recuperamos uma parte de nossas emissões de carbono atmosférico, que ficam presas nas conchas e que, uma vez capturadas, não retornam para a atmosfera”.

Elodie Martinie-Cousty, chefe do departamento marítimo da organização França Natureza e Meio Ambiente. Xavier Fouquet

Segundo Elodie Martine-Cousty, a aquacultura tem tendência a se aperfeiçoar na França. “Há dez anos, era preciso sete quilos de peixes selvagens para alimentar um quilo de peixe criado em cativeiro, enquanto hoje só é preciso um quilo e seiscentos gramas. Progredimos bastante, mas não o suficiente. A aquacultura pode ser uma resposta ao problema, porque ela retira o foco das espécies ameaçadas, mas ainda há muita pesquisa a ser feita sobre a zoologia dos peixes que são domesticados e sobre a possibilidade de que eles se tornem mais vegetarianos do que são na natureza”.

A receita da mudança parece estar na ponta da língua: é preciso comer menos, descobrir novas espécies e aderir a produtos locais e oriundos da aquacultura. Cabe aos franceses a decisão de morder essa isca.

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