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Medicina francesa ainda é machista, revela livro

Por Taíssa Stivanin

Como os estereótipos influenciam a saúde feminina? O livro “Mulheres e Saúde, uma Questão masculina?”, lançado em outubro na França, mostra como os clichês prejudicam o atendimento médico das mulheres.

Na obra, a neurobiologista Catherine Vidal e a historiadora Muriel Salle, explicam como os clichês e a pobreza prejudicam as mulheres e de que maneira a saúde pública deve se reestruturar para adaptar os tratamentos e proporcionar uma melhor qualidade de vida.

As mulheres vivem mais, mas em pior condição, por conta de tratamentos e prevenção inadequados. Morrem de doenças cardíacas da mesma maneira que os homens, apesar de serem alvo mais frequente de despistagem do câncer do seio. A RFI Brasil conversou com a historiadora Muriel Salle, professora na Faculdade de Medicina Claude Bernard desde 2010, em Lyon, que tenta sensibilizar os futuros médicos sobre a questão.

As questões de gênero e o impacto na saúde das mulheres é um campo de pesquisa novo. Como você se interessou pela questão?

Comecei minha pesquisa analisando o discurso sobre as mulheres na área médica durante o século 19, que é muito machista. O que me interessava é a construção desse discurso, que as considerava inferiores do ponto de vista físico e intelectual, e que servia para corroborar um discurso político excludente, bem definido no código civil publicado por Napoleão em 1804. Percebi, dando aulas aos futuros médicos, que esse discurso sobrevivia, em pleno século 21, de uma maneira mais “modernizada”. Mas há uma tomada de consciência. Em setembro, um sindicato de residentes em Medicina lançou uma sondagem, disponível on-line, sobre o machismo no estudo da Medicina.

De que maneira os estereótipos que envolvem a saúde das mulheres podem prejudicá-las?
Há duas coisas importantes: a primeira durante a própria formação. Os estudantes aprendem a sintomatologia, ou como as pessoas ficam doentes. A maior parte dos estudos é realizada com homens. Então, para começo de conversa, a teoria sobre essa doença se baseia em homens. Muitos estudantes de Medicina, desta forma, não foram muito bem formados. Um exemplo são as doenças cardiovasculares, que se manifestam de maneira diferente nas mulheres. A segunda questão é conscientizar os estudantes de Medicina sobre suas ideias pré-concebidas envolvendo homens e mulheres. Por exemplo, que eles são mais resistentes à dor e que elas mais emotivas. Isso significa que se alguém disser que está sentindo dor, isso será percebido de maneira diferente no caso de um homem ou uma mulher. Então a tendência é dar menos medicamentos para a mulher. Da mesma maneira, no caso das doenças cardíacas, um dos sintomas femininos é a palpitação, que vai ser confundido com a emotividade. Em vez de pedir a ela que consulte um cardiologista, o clínico geral vai prescrever ansiolíticos.

Hoje as doenças cardíacas são a primeira causa de mortalidade entre as mulheres, à frente do câncer do seio. Há campanhas preventivas do governo. Podemos constatar uma evolução?

Na França, o risco de morrer de doença cardíaca atinge uma em cada três mulheres. Já o câncer do seio, uma a cada 26 mulheres, mas é muito mais percebida como uma doença feminina. Está claro que não se trata de prevalência estatística e é o que eu e Catherine (co autora do livro), tentamos mostrar. Sempre imaginamos que um médico é alguém racional, um cientista. Mas pode acontecer que o imaginário em torno de uma doença supere a realidade e impeça os médicos de enxergá-la. Dentro de uma perspectiva puramente biológica, é preciso lembrar que o sexo, ser homem ou mulher, é natureza, mas o gênero, é cultural e social. Significa que as mulheres são mais vulneráveis do ponto de vista da saúde porque são mais vulneráveis do ponto de vista econômico e mais expostas à violência.

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