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Células da glia vão revolucionar modelo do cérebro humano, diz neurologista francês

Por Taíssa Stivanin

O neurologista francês Yves Agid, um dos maiores especialistas da França, explica como os estudos sobre as células da glia podem levar à concepção de um novo modelo cerebral, baseado hoje principalmente nos neurônios.

O neurocirurgião Yves Agid wikipédia

Aos 77 anos, o médico francês Yves Agid é um dos maiores neurologistas do país. Fundador do Instituto do Cérebro e da Medula, professor emérito da Faculdade de Medicina Pierre e Marie Curie, chefe do setor de neurologia do hospital Pitié-Salpetrière em Paris durante 12 anos e especialista em doenças neuro degenerativas, como o Mal de Alzheimer ou Parkinson, ele agora se dedica ao estudo das células da glia. Descobertas há mais de 150 anos por um biólogo francês, elas têm um papel muito mais determinante no funcionamento cerebral do que se imaginava.

As pesquisas mostram que as células da glia, além de serem mais numerosas no cérebro humano do que os neurônios, são essenciais na integração das informações produzidas pela mente e sua sincronização. Elas influenciam a ação cerebral em diferentes patologias, como a esclerose múltipla, mas também agem no comportamento, no sono, na memória e no próprio relógio biológico. Essas constatações abrem, no futuro, novas possibilidades terapêuticas, como explicou o médico francês à RFI Brasil.

“Em 40 anos de pesquisa, percebi que falávamos pouco dessas células e notei duas coisas extraordinárias: a primeira é que existem mais células da glia no cérebro no do que neurônios. Há cerca de 85 bilhões de neurônios e cerca de 100 bilhões de células da glia.”

Mas o que são essas células e qual sua função cerebral? Fisiologicamente, elas estão situadas entre os neurônios. No início, explica o especialista francês, se pensava justamente que a função delas era similar à de um tecido conjuntivo, servindo de suporte físico para evitar que os neurônios se “perdessem” dentro do cérebro.

A segunda constatação feita pelo professor francês é que, quanto maior o nível de inteligência de um animal, mais células da glia ele possui, como no caso do homem. “Essas duas observações são espetaculares e nos levam a crer que essas células são mais importantes do que pensávamos na função fisiológica do cérebro e na gênese do comportamento humano, seja ele motor, intelectual ou emocional”.

Existem diversos tipos de células da glia, sendo que as mais investigadas pelos pesquisadores, explica Yves Agid, são os astrócitos, que se parecem com uma estrela. “Percebemos, ao longo dos últimos 20 anos, que os astrócitos têm um papel fundamental, interagindo com os neurônios de maneira muito próxima. Além disso, têm também todas as propriedades neuronais e ainda por cima algumas a mais. Seu metabolismo é muito complexo. Os neurônios e os astrócitos comunicam e se falam entre eles o tempo todo”.

Função essencial na construção do pensamento

Os cientistas também perceberam que os astrócitos agem no comportamento, na memória e em outras funções essenciais ao funcionamento cerebral. Em 1950, descobriu-se também que eles comunicavam entre si, produzindo ondas de cálcio, que se propaga pela rede celular que produz esse complexo sistema de informações produzidas pelas sinapses neuronais.

A desregulação dos astrócitos, diz o especialista francês, também é responsável pelo desenvolvimento de várias doenças genéticas. Por que razão então, durante anos, a Ciência se esqueceu das gliais? Principalmente porque havia poucos meios técnicos que permitissem estudá-las mais de perto.

“Há cerca de 30 anos, o desenvolvimento de métodos de biologia celular e bioquímica e molecular mais modernos permitiram compreender melhor essas células. Vimos que elas têm um papel importante em todo o sistema de neurotransmissão do sistema nervoso e eventualmente nas doenças neurológicas e psiquiátricas”.

A questão que se coloca agora, diz o neurologista, é a revisão do modelo do cérebro dos animais como é conhecido hoje, baseado totalmente nos neurônios e suas sinapses elétricas. Um avanço científico que poderia levar a novos tratamentos para diversas doenças e levar a responder a uma pergunta que pode revolucionar a Ciência.

“Como um cérebro material produz um pensamento que imaginamos imaterial? Não sabemos o que é o pensamento. São informações, difíceis de conceber de uma maneira física. Para responder a essa questão fundamental, é preciso trabalhar com neurônios e células da glia”, conclui o neurologista francês.
 

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