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Conheça o legista Philippe Charlier, o Indiana Jones francês que confirmou a morte de Hitler

Por Taíssa Stivanin

Philippe Charlier, médico-legista e antropólogo especializado em personagens históricos que identificou os ossos do ditador nazista em 2017, viajara no ano que vem  para o Brasil, para estudar as divindades do candomblé.

Chefe do setor de antropologia do hospital de Nanterre, na região parisiense, o francês Philippe Charlier tornou-se famoso pelas suas pesquisas envolvendo os restos mortais de personagens célebres, como o rei francês Henrique IV, assassinado em 1610 em Paris. Entre julho e setembro de 2017, ele analisou pedaços de ossos, um maxilar, próteses dentárias e parte de um crânio atribuídos a Hitler. O resultado dos estudos foi publicado em maio no European Journal of Internal Medicine.

Os restos estavam conservados na sede da KGB, o antigo serviço secreto russo, em Moscou. Pela primeira vez, desde 1946, as autoridades russas autorizaram o estudo do material. O legista pôde confirmar que eles de fato pertenceram ao führer e também a causa de sua morte, em 30 de abril de 1945, aos 56 anos, em seu bunker, dois dias antes de Berlim cair nas mãos dos soviéticos perto do fim da Segunda Guerra Mundial.

Hitler teria se suicidado ingerindo cianureto, mas um buraco de bala encontrado em um dos ossos do crânio acrescenta uma nova informação a essa versão: o ditador nazista não morreu sob o efeito do veneno, que teria sido insuficiente, mas com um tiro na cabeça dado por ele mesmo ou um soldado. “Encontramos uma substância branca nas próteses dentárias e pedaços de vidro bem finos, bloqueados entre os dentes e a gengiva, que poderiam corresponder ao resto dessa ampola de cianureto, que foi mordida por Adolf Hitler, e que provavelmente não funcionou rapidamente", diz o legista. "Esta é uma das razões que o levou a pedir a um de seus ajudantes que o ajudasse a se suicidar dando um tiro. Ainda não sabemos se foi uma atras do queixo ou na têmpora do lado direito”, acrescenta.

As análises mostram, entretanto, que o führer não deu um tiro colocando a arma dentro da boca. Essa afirmação é possível graças à verificação dos resíduos encontrados nos dentes e no maxilar, que possibilitam identificar a trajetória da bala e a existência de restos de pólvora. Os dados ainda estão sendo estudados pelo médico francês.

Ele explica como obteve a autorização para estudar os restos mortais que revelam detalhes pessoais da vida de Hitler, como o fato de ser vegetariano ou vítima do Mal de Parkinson, doença neurológica que provoca tremores. De acordo com Charlier, o fato dele e dos médicos que o acompanharam nesta aventura serem independentes, e pertencerem a uma zona geopolítica “neutra” foi fundamental.

O legista francês, conhecido mundialmente, também lembra que seu método que consiste na aplicação de técnicas da Medicina forense em estudos arqueológicos. “A Medicina forense aplicada na Arqueologia nos permite voltar no tempo e ter certeza sobre certos dados biológicos destes indivíduos. Nunca trabalhamos sozinhos nesse tipo de pesquisa. Somos cinco ou seis”, ressalta. As equipes são multidisciplinares. Geneticistas, químicos, historiadores e especialistas em Historia da Arte trabalham juntos para reconstruir o passado.

Agora, Philippe Charlier, que ainda têm em mãos os restos mortais do ditador nazista, tenta reconstituir a flora de Hitler, ou seja, a composição de vírus, bactérias e parasitas do tártaro dentário encontrado nos ossos da boca ditador. Por enquanto, todos os ossos foram autentificados, resta apenas uma duvida em relação ao crânio que, de acordo com o legista, em breve deve ser esclarecida comparando o DNA do osso com o do maxilar, que pertenceu de fato ao führer.

Antropologia e política

Hitler não foi o único personagem histórico analisado pelo legista. Em 2013, o especialista e sua equipe, formada por cerca de 30 pessoas, autentificaram os ossos do crânio do rei francês Henrique IV, encontrados na casa de um aposentado em 2008.

Alguns anos depois da Revolução Francesa, em 1793, a cabeça do rei, assassinado em 1610, foi jogada numa fossa comum assim como de outros soberanos. Ela foi adquirida por um fã da monarquia em 1919, e recuperada em uma granja perto de Paris pela equipe do legista, que autentificou. Sucedeu-se uma grande polêmica, como explica o especialista.

“Tem uma rivalidade na França desde o século 19, pelo menos, entre duas famílias, Orleans e Bourbon. As duas querem recuperar o trono da França. Como a cabeça foi devolvida ao patriarca dos Bourbon, a família Orleans decretou que a cabeça era falsa. Por ciúme, desprezo, enfim…”

A equipe de Charlier também recebeu críticas da extrema-esquerda, conta o legista, quando trabalhou na mascara mortuária de Robespierre. Ele conta que foi acusado de ser um “embaixador do feudalismo burguês” e de “manchar a herança da Revolução Francesa”, por ter reconstituído o rosto do líder revolucionário com cicatrizes, marcas de doenças e outros detalhes que “diminuíam” Robespierre. “Acreditamos que são personagens históricos, mas são personagens políticos”, diz Phillippe.

Além dos personagens históricos, o médico-legista também se interessa, como ele mesmo diz, por múmias desconhecidas e divindades e trabalha no museu do Quai Branly, em Paris. Em 2015, lançou um livro sobre os zumbis do Haiti, e no início de 2019 viaja para Salvador, na Bahia, estudar as mães de santo.

De onde vem essa fascinação pela morte do Indiana Jones francês? Ele diz ter começado a se interessar pela arqueologia desde muito cedo, aos seis anos, quando encontrou um esqueleto de toupeira no jardim, da família, em Meaux, na região parisiense.

Filho de uma farmacêutica e de um médico – aliás, os descendentes são médicos há varias gerações-, aos 12 anos ele descobriu seus primeiro esqueleto em um sítio arqueológico, onde foi autorizado a entrar pela equipe. “O que me interessa é a maneira como os homens tentaram domina-la. Eu me interesso mais pelos ex-vivos do que pelos mortos.”

 

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