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Saiba como o ar-condicionado esfria sua casa, mas aquece o planeta

Por Daniella Franco

Você sabia que, ao ligar seu ar-condicionado também está contribuindo para o aumento da temperatura no planeta? A situação é um tanto paradoxal, afinal, esses aparelhos servem para resfriar os ambientes. O problema é que eles também liberam calor. Sem falar na energia consumida, que é gerada em centrais que, quanto mais trabalham, mais emitem gases de efeito estufa: os vilões do aquecimento global.

Recentemente, a Agência Internacional de Energia soou o alarme. O mundo conta hoje com 1,6 bilhão de ares-condicionados: até 2050, serão 5 bilhões desses aparelhos em todo o planeta. O aumento da demanda se deve principalmente ao crescimento econômico em regiões e países que sofrem com o aumento das temperaturas, como o Brasil.

"O Brasil é um país tropical, onde dois terços do país está em uma região de temperaturas relativamente altas a maior parte do ano. Portanto, o uso do ar-condicionado tem se tornado cada vez mais comum, inclusive em residências de menor poder aquisitivo. As classes mais baixas acabaram se equipando com esses aparelhos devido a essas ondas de calor cada vez mais frequentes", diz o climatologista Tercio Ambrizzi, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas.

No Brasil, até o momento, não há estudos sobre o impacto do ar condicionado no aumento das temperaturas. Algumas cidades, como São Paulo, começam a implementar projetos para lutar contra o aquecimento, como prédios com espaços verdes, painéis fotovoltaicos para gerar energia e a utilização de água reciclada.

Mas, segundo Ambrizzi, os esforços ainda são mínimos, faltam políticas públicas e projetos para a conscientização da população sobre a importância da sustentabilidade. "É preciso de um fomento do governo para que haja mais pesquisas para melhorar a eficiência de equipamentos como o ar condicionado. Já existem aparelhos mais desenvolvidos para resfriar os ambientes, mas eles ainda são muito caros", ressalta.

Além disso, o especialista destaca a necessidade da construções mais sustentáveis no Brasil. "Os prédios e residências precisam de ventilação mais adequada, e os materiais utilizados neles devem permitir uma troca mais fácil de calor para resfriar os ambientes quando está calor e esquentá-los quando está frio. Por isso, precisamos pensar nisso urgentemente: a atmosfera está aquecendo e as ondas de calor e de frio vão se repetir cada vez mais", alerta.

Paris registra aumento de temperatura devido ao ar-condicionado

Embora em menor proporção que no Brasil, a situação não é das melhores na França, que vive ondas de calor cada vez mais fortes e mais frequentes a cada verão. O país também vive o fenômeno da utilização desenfreada do ar condicionado. Nos meses mais quentes do ano, os aparelhos chegam a se esgotar nas lojas.

Cécile De Munck, responsável pelas pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Meteorológica do Serviço de Meteorologia da França, é uma das autoras de um estudo que, através de várias simulações, mostrou que os sistemas de resfriamento dos ambientes em Paris podem gerar um aumento de temperatura de 0,5°C até 2°C nas ruas da capital francesa. "Todos os sistemas de ar-condicionado para refrescar os prédios que expelem calor aumentam a temperatura das ruas", diz.

Segundo a pesquisadora, o aumento das temperaturas é principalmente verificado durante a noite, momento em que a camada térmica nas zonas urbanas é mais fina. Esse fenômeno traz consequências também para as pessoas, aumentando o estresse térmico noturno e prejudicando a recuperação do organismo humano, que acontece durante a noite. "Tudo isso é um círculo vicioso, porque quanto mais sobem as temperaturas das ruas, mais aumenta a demanda da população por ar-condicionado. Ou seja, é um fenômeno que não vai se autorregular sozinho e que atinge todas as pessoas: as que têm e as que não têm ar condicionado", salienta.

Soluções paliativas em Paris

Os pesquisadores e especialistas do clima são céticos sobre a possibilidade de encontrar medidas que acabem com as ondas de calor ou barrem o aumento das temperaturas. Por isso, Paris se organiza para encontrar soluções paliativas ao problema e refrescar a cidade de forma mais sustentável possível.

Segundo Erwan Cordeau, encarregado de estudos sobre o clima do Instituto de Planejamento e Urbanismo da Ile-de-France, os primeiros projetos ainda estão em fase experimental, mas trazem resultados interessantes e renovam as esperanças dos especialistas em clima. O principal segredo, segundo ele, são as árvores.

"As plantas são uma espécie de ar-condicionado passivo, elas fornecem vapor de água ao ar e são uma boa solução para refrescar as cidades. Por isso há cada vez mais espaços verdes em Paris", explica. A estratégia vem sendo cada vez mais utilizada em pátios de escolas da capital francesa, reitera.

Outra solução é um mecanismo que Cordeau chama de "ilhas de refresco". São espaços públicos - que podem ser verdes ou não - como bibliotecas ou piscinas, onde as pessoas podem se abrigar durante episódios de calor. Os especialistas franceses também começam a desenvolver "caminhos de refresco", trajetos protegidos do sol, onde as temperaturas são mais baixas, e através dos quais a população pode chegar até as "ilhas de refresco".

Por fim, a terceira estratégia debatida na região parisiense é refrescar a cidade aumentando a presença da água nos espaços urbanos. "Pensamos na criação de pequenos lagos, fontes, jatos d'água, vaporizadores, para que a água também ajude a combater o aumento das temperaturas", conclui Cordeau.

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