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Perturbadores endócrinos afetam inteligência antes do nascimento, diz cientista

Por Taíssa Stivanin

O QI dos humanos está diminuindo, mostram diversos estudos. O mais emblemático deles é a pesquisa publicada pelos cientistas finlandês Edward Dutton e o britânico Richard Lynn, em 2015, na revista Intelligence. Ela confirma a queda do QI, a partir do ano 2000, em países como a França, Noruega, Reino Unido e Finlândia.

A bióloga do instituto francês CNRS Barbara Demeneix confirma essa tese. Autora do livro “Coquetel Toxico – como os perturbadores endócrinos envenenam o cérebro ”, ela explica como essas substâncias têm um efeito negativo nas funções cognitivas.

Em abril deste ano, a cientista, que também dirige um laboratório no Museu de Historia Natural de Paris, concedeu uma longa entrevista à RFI. Segundo ela, os produtos químicos presentes em nosso meio ambiente interferem no funcionamento de uma principais reguladores do desenvolvimento cerebral: o hormônio da tireoide. Essas moléculas, que contêm cloro, bromo ou fluor, podem limitar a absorção do iodo, essencial para o funcionamento da glândula.

As substâncias estão em toda parte: nos alimentos, no ar, nas roupas, nos cosméticos, nos detergentes e nos brinquedos. Áreas urbanas e rurais de países ricos, pobres e emergentes estão expostos a esse bombardeio químico. Até mesmo ursos polares, na longínqua Antártida, que respiram o ar contaminado, são vítimas de seus efeitos.

Segundo Barbara Demeneix, cerca de 143 mil produtos presentes no mercado não foram testados corretamente. Além disso, desde os anos 60, a quantidade deles aumentou 300 vezes. Essa mistura de elementos produzidos pela indústria vai prejudicar a troca de informações entre as células e induzir reações colaterais.

Em seu livro, a pesquisadora de origem britânica destaca que os chamados perturbadores endócrinos prejudicam a saúde dos adultos, mas, para os fetos, eles são ainda mais nefastos. Esses efeitos, diz a cientista, foram atestados em diversos estudos e são corroborados por centenas de endocrinologistas no mundo todo. “Somos muitos a dizer as mesmas coisas e a afirmar: há um problema”, ressalta a pesquisadora.

Onde a baixa do QI no humano entra neste contexto? O TSH, hormônio estimulador da tireoide, fundamental para o desenvolvimento cerebral, depende do iodo, cuja absorção é modificada por algumas substâncias químicas. Entre elas, estão os ftalatos, presentes em plásticos moles, retardadores de chamas de materiais bromados inflamáveis, existentes em aparelhos eletrônicos, pesticidas e parabenos, usados em cosméticos, entre outros.

As crianças, explica Barbara Demeneix, são expostas desde a concepção a esses produtos consumidos pela futura mãe. “A organização do cérebro da criança que vai nascer será alterada. Esse efeito nos pudemos demonstrar com centenas de substâncias. Constatamos que o cérebro de uma criança exposta dentro do útero a certos pesticidas terá menos neurônios do que um outro”, diz a pesquisadora.

Aumento de casos de autismo

A relação entre essas substâncias e o autismo também é um objeto de estudos pelos cientistas. A deficiência do hormônio tireoidiano na gravidez aumenta os riscos do autismo na criança. Presentes no líquido amniótico, que envolve a placenta, os perturbadores endócrinos podem influenciar essa futura condição cerebral, explica a cientista de origem britânica.

Esta hipótese, ainda que não tenha sido oficialmente confirmada, é mais do que plausível, ressalta Barbara Demeneix. “Os pediatras e as pessoas que cuidam dessas crianças estão convencidos. Já a industria, e a as pessoas que trabalham para ela, são outra conversa”, ironiza. O grande perigo, lembra Demeneix, é a exposição a um coquetel de elementos químicos nocivos, como ela descreve em seu livro.

“A criança, na concepção, é exposta a uma mistura de substâncias. Medimos a quantidade dessas substâncias em gravidas nos Estados Unidos e na França. Há dezenas, às vezes centenas de produtos químicos presentes no sangue e que passam no líquido amniótico”, diz a cientista.

Em seu laboratório, ela testou o efeito dos agentes químicos. A pesquisadora e sua equipe expuseram girinos, que também dependem do hormônio tireoidiano para crescer, a 15 substâncias usadas pela maior parte das pessoas no dia a dia – e encontradas no sangue das mulheres gravidas.

Em seguida, a equipe injetou esse coquetel químico nos girinos. “O desenvolvimento do cérebro foi alterado, assim como a sincronização dos hormônios tireoidianos, o número de neurônios e de células da glia (que cercam os neurotransmissores) diminuiu e houve mudança no comportamento dos animais”, diz a pesquisadora.

Segundo ela, quando um modelo testado em animais apresenta esses resultados, é possível constatar que as substâncias, alterando o funcionamento da tireoide, alteram também o cérebro humano. O cavalo de batalha dos cientistas, agora, é que os estudos, no futuro, levem a uma regulamentação mais rigorosa que proteja a saúde dos consumidores.

Enquanto isso, os efeitos do coquetel toxico, podem ser minimizados com algumas medidas, diz a pesquisadora do instituto francês: prestar atenção à composição dos cosméticos, limitar o uso o plástico na cozinha, tomar bebidas quentes em xicaras de vidro ou cerâmica, arejar a casa, comer alimentos orgânicos e desligar todos os aparelhos eletrônicos durante a noite.

 

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