rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

Álcool Saúde Cérebro Ciência

Publicado em • Modificado em

“Blecaute alcoólico”: casos de amnésia após consumo de bebidas preocupam cientistas

media
O consumo de bebidas alcoólicas é responsável pela morte de 49 mil pessoas por ano na França. hinduhumanrights.info

Uma amnésia temporária ou duradoura, um descontrole do próprio cérebro e do corpo: assim o “blecaute alcoólico” é descrito por várias pessoas que viveram esse fenômeno. Pouco tratado pela ciência até hoje, ele vem sendo cada vez mais relatado entre os consumidores – mesmo ocasionais – de bebidas alcoólicas.


A estudante de marketing Isabelle H., de 23 anos, frequentava um festival de música com amigos até que, para ela, a festa terminou repentinamente. A garota acordou no dia seguinte em uma barraca, dormindo ao lado de desconhecidos, e sem nenhuma lembrança de quando e como foi parar ali.

“Tudo o que aconteceu continua sendo um mistério até hoje”, diz, em entrevista ao jornal Le Monde, ressaltando que não havia consumido uma grande quantidade de álcool: “o mesmo que os outros”. Os amigos, aliás, não perceberam que nada anormal acontecia com a garota, que, apesar de não ter consciência, continuou na festa. “O sentimento que tive era como vemos naqueles desenhos animados, quando o personagem corre até o final de um precipício e cai no vazio”, afirma.

Apesar de ainda não conhecerem todos os detalhes deste fenômeno, os pesquisadores já o definem como “blecaute alcoólico”. Ele se difere do coma alcoólico, estágio atingido com o consumo excessivo de álcool, porque, no “blecaute”, a pessoa não chega à inconsciência total, afirma à RFI Mickael Naassila, diretor da unidade sobre álcool e farmacodependências da Universidade da Picardia.

“No blecaute alcoólico, nosso cérebro fica incapaz de memorizar novas informações, enquanto continuamos a falar e a agir normalmente. O cérebro simplesmente para de armazenar informações, seja parcial – de determinados momentos de uma noite, por exemplo, – ou totalmente, quando esquecemos completamente tudo o que aconteceu”, explica.

Segundo Naassila, o “blecaute alcoólico” está sobretudo relacionado à rapidez com que bebidas são ingeridas e menos com a quantidade. “Como o organismo de cada um é diferente, o volume de álcool no sangue não segue uma norma para desencadear esse fenômeno. Pode ser entre 1g ou 1,5g por litro de sangue ou até 2g ou 3g por litro de sangue, dependendo da sensibilidade da pessoa”, destaca.

A repetição de bebedeiras também pode resultar em episódios de “blecautes alcoólicos” mais frequentes. O professor da Universidade da Picardie diz ter sido procurado por jovens franceses que praticaram durante um ou dois anos o “binge drinking” – prática que consiste em ingerir grandes quantidades de bebida alcoólica no menor espaço de tempo possível. Em comum entre todos esses depoimentos, a perda de memória mesmo quando o consumo era de uma pequena quantidade de álcool. “Por isso, os pesquisadores associam o ‘blecaute alcoólico’ sobretudo à rapidez com que as bebidas são consumidas. Quanto mais rápido se bebe, maior é a possibilidade de desencadear esse fenômeno”, afirma.

Estudos recentes sobre o “blecaute alcoólico”

A perda de memória relacionada ao consumo de álcool começou a ser abordada há pouco mais de 20 anos por pesquisadores. Em 1995, Donald W. Goodwin analisa a ingestão de bebidas alcoólicas por seus estudantes do primeiro semestre de Medicina e 33% deles dizem ter passado por ao menos um episódio de blecaute. Em 2016, uma pesquisa britânica mostra que 20% dos mais de 2.100 jovens interrogados relatam uma espécie de amnésia depois de ter consumido álcool.

“Há 30 ou 40 anos, pensávamos que episódios de amnésia só aconteciam com os alcoólatras. Mas, recentemente, começamos a perceber que esse fenômeno não acontece somente com quem é dependente de álcool. Quando interrogamos nossos próprios estudantes de Medicina, temos até 40% de uma classe que vai nos dizer que em um período de um ano eles viveram ao menos um episódio de blecaute”, afirma o especialista em dependência química.

Na França, um estudo desenvolvido por Naassila e Olivier Pierrefiche na Universidade da Picardia sobre a questão é ainda mais preocupante. Ao contrário da ideia de que o álcool traz prejuízos à saúde a longo prazo, os pesquisadores conseguiram demonstrar que uma ou duas “bebedeiras” já podem resultar em graves danos para a memória e a aprendizagem.

“Há um mecanismo no cérebro que serve para memorizar e aprender, chama-se plasticidade sináptica. Nossos neurônios têm uma atividade de transmissão do tipo ‘plástica’, o que quer dizer que eles se adaptam – aumentam ou diminuem essas atividades – frequentemente. Percebemos que o álcool modifica esse fenômeno, perturbando esse balanço do cérebro e induzindo os blecautes e a perda de capacidade de memorização”, explica.

Naassila lembra que pesquisadores também já começam a estabelecer a relação entre a quantidade de blecautes e as consequências irreversíveis desses fenômenos para a saúde das pessoas, em termos cognitivos e até mesmo aumentando a possibilidade de desenvolver o alcoolismo mais tarde. “Além disso, todos sabemos que o álcool, mesmo se consumido em poucas quantidades, é uma droga, que pode desencadear vários tipos de câncer e doenças. Por isso, diminuir o consumo de bebidas alcoólicas é sempre positivo para a saúde, por mais que as autoridades subestimem essa questão”, salienta.

Consumo de álcool na França

O consumo de bebidas alcoólicas é a segunda causa de morte evitável na França, onde, devido ao lobby do vinho, as autoridades penam para colocar em prática políticas públicas para combater o problema. Segundo o Instituto Nacional de Vigilância Sanitária do país, 49 mil mortes são registradas por ano devido ao consumo do álcool no país.

Cientistas advertem que o limite de consumo de bebidas alcoólicas sem perigo exagerado é de 100 gramas de álcool puro por semana, ou seja, 10 copos de cerveja (250 ml), de vinho (100 ml) ou de destilados (3 ml). A partir dos 40 anos, no entanto, a ingestão desta quantidade diminui a esperança de vida em seis meses. Além disso, Naassila é taxativo: “independentemente da dose, o risco zero não existe”.