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Enfermeira francesa revela caos em centros para idosos

Por Taíssa Stivanin

No livro “J’ai rendu mon uniforme” (Abandonei meu uniforme, em tradução livre), a jovem enfermeira Mathilde Basset, 25 anos, explica por que pediu demissão da casa de repouso onde trabalhava. Ela conta que muitas vezes se sozinha com 90 pacientes idosos sob sua responsabilidade.

No dia 27 de dezembro de 2017, Mathilde, enfermeira recém-formada, decidiu abandonar seu emprego no centro hospitalar do Cheylard, em Ardèche, no sul da França. Ela estava exausta, não somente pelo ritmo de trabalho infernal, mas pela impossibilidade de atender de forma humana os pacientes idosos com quem convivia diariamente –a maioria deles com patologias graves. Esses centros hospitalares são chamados de EHPAD na França. São casas de repouso concebidas para idosos com doenças que provocam perda de autonomia, como o mal de Alzheimer, por exemplo.

Mathilde ama o que faz, e, à beira de um “burn out” decide escrever uma carta para a ministra da Saúde, Agnès Buzyn, sobre suas condições precárias de trabalho. No texto, ela denunciou a falta de profissionais e a impossibilidade de ter uma relação “humana” com os pacientes por pura falta de tempo. Contou que os médicos só aparecem em caso de extrema urgência. A casa de repouso é descrita por Mathilde como uma “usina”.

“Eu estava com raiva do que tinha se transformado minha profissão. Quando eu escrevi: essa não é minha profissão, era exatamente a sensação que eu tinha. E uma deformação da profissão que surgiu com a extinção das vagas, que se agravou, acredito, nos últimos 20 anos. Só tenho dois anos de experiência, não tenho a pretensão de dizer que vi tudo.” A ministra francesa nunca respondeu a carta, mas o texto teve uma grande repercussão e coincidiu com a greve das cuidadoras das casas de repouso, no início de 2018. Muito barulho por nada, segundo Mathilde, já que, na pratica, a situação não melhorou no setor.

Sozinha com mais de 90 idosos

No estabelecimento onde trabalhava, seu trabalho consistia, basicamente, em distribuir rapidamente os medicamentos a dezenas de pacientes, verificar parâmetros essenciais como pressão ou oxigenação em idosos com patologias graves ou glicemias no caso dos diabéticos. Além disso, realizar ou trocar curativos e administrar urgências vitais –muitas vezes o médico demorava para aparecer, descreve no livro.

Mathilde começou a se sentir “estressada, estressante” e se questionou até mesmo se não maltratava os pacientes em certas ocasiões. Nas casas de repouso, para manter a organização, os idosos são privados da liberdade de movimento, explica Mathilde. Ela exemplifica a situação com a história de dois pacientes que começaram a namorar e às vezes não estavam no quarto na hora da distribuição dos remédios – o que representava uma grande perda de tempo para a enfermeira, sozinha com mais de 90 paciente, porque ela era obrigada a procura-los no prédio.

“Eu briguei com o paciente, que não estava em seu quarto na hora certa, e estava no quarto da namorada. Após minha reação, parei e pensei comigo mesma: espera, eles estão em casa e têm direito de ir de um quarto para outro! Eu é que devia me adaptar ao ritmo deles, e não o contrário. A gente tem a impressão de ser uma má profissional e de mentir para as famílias, dizendo que podemos ser vigilantes”, ressalta.

Em outro caso, descrito no livro, ela conta que uma paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica passou a noite respirando mal sem receber a visita no médico, o que acarretou em um enfisema pulmonar. Situações que ela não esperava enfrentar depois dos três anos em que frequentou as concorridas escolas de enfermagem francesas.

 “Fiquei muito decepcionada porque, na realidade, a maioria das casas de repouso na França se parecem com o local onde trabalhei. Condições de trabalho que impedem de ter uma relação humana com as pessoas. A prioridade é para os cuidados médicos, porque eles podem ser contabilizados. Um curativo pode ser faturado, mas 15 minutos de conversa com uma senhora que não está bem não é algo quantificável, com uma tarifa definida pela Seguridade Social”, alfineta.

Uma situação que parece inacreditável em um pais desenvolvido como a França, mas que não espanta Mathilde. Para ela, o pais tem recursos, mas ela questiona se eles são “bem utilizados”. A regra, diz, é fazer cada vez melhor sem meios para isso, com anúncios do governo que a enfermeira considera “contraditórios”. Ela lembra que o presidente Emmanuel Macron sugeriu a extinção de cerca de 30.000 cargos de enfermeiras em 2019, enquanto a ministra da Saúde quer criar mais vagas para profissionais à noite. “As questões ligadas ao envelhecimento da população na França não parece ser a prioridade de nossos dirigentes”, afirma.

Na França, pelo menos 25% da população tem mais de 65 anos. Para a enfermeira há negligência do governo, mas também da família e da sociedade em relação a essa realidade. A impressão é que, de certa forma, as pessoas idosas são consideradas como um incômodo. “Quando envelhecemos, não fazemos mais parte da população ativa e isso diz muito sobre a questão. Somos inativos e desta forma custamos mais caro, sem dar nada em troca. A sociedade na qual vivemos não tem vontade de visualizar como será a velhice e o fim da vida. Valorizamos as pessoas de 25 a 40 anos e quando chegamos aos 50 já somos considerados sêniores, ” diz.

Hoje Mathilde, que durante um tempo pensou em virar um musicista, voltou a ser enfermeira na área de psiquiatria em uma associação e está feliz. Ela diz que durante muito tempo pensou que estivesse “queimada” na área depois das revelações, mas acabou obtendo uma recolocação. “Eu me sinto muito realizada. Concretamente, não é possível trabalhar nesse setor sem ter uma relação com as pessoas, o que me convém. Também tive sorte porque meu chefe é representante da CGT (sindicato francês)!”

 

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