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Paris Exposição Ciência Saúde

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Exposição desvenda o « discreto charme do intestino, nosso segundo cérebro »

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A exposição "Microbiota", inspirada no livro "O discreto charme do intestino", está em cartaz na Cidade da Ciência e da Indústria de Paris. © SolStock/E+/Getty images

A exposição “Microbiota”, ou flora intestinal, é inspirada no best-seller “O discreto charme do intestino”, das irmãs alemãs Giulia e Jill Enders. A mostra, em cartaz na Cité de Sciences de Paris, desmistifica de uma forma lúdica o órgão e revela o mundo fascinante do intestino, considerado pelos especialistas como “nosso segundo cérebro”. Co-organizada pelo Pavilhão do Conhecimento de Lisboa, a exposição tem a vantagem de ser trilíngue e traz todas as explicações também em português.


Uma boca enorme, cheia de dentes, acolhe os visitantes da exposição “microbiota” e eles são numerosos durante este período de férias escolares em Paris. O percurso da mostra reproduz nosso aparelho digestivo. Tudo muito lúdico, interativo. Pais, com seus filhos, avôs acompanhando os netos, grupos de adolescentes, entram curiosos para conhecer os detalhes do funcionamento da nossa digestão e, principalmente, de nossos intestinos, delgado e grosso, o ponto alto da exposição.

O órgão sem glamour, normalmente associado a situações embaraçosas ou constrangedoras, é vital para o nosso organismo, como o coração ou o cérebro. Uma grande sala cor de rosa e alaranjada, cheia de vilosidades como a parede dos intestinos mostra que eles não apenas são engenhosos, como também são densamente povoados por milhares de bactérias, de cerca de 400 espécies diferentes. “Temos mais bactérias em nosso organismo do que estrelas no céu, lembra Dorothé Vatinel, curadora da exposição da Cidade das Ciências de Paris, em entrevista à RFI.

A comparação não para por aí, temos mais bactérias do que células em nosso corpo. “Temos que nos considerar como uma interface entre nossas células e todas essas células bacterianas que abrigamos. Somos um ecossistema!”, resume Muriel Thomas, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa Agrônoma, um dos parceiros da exposição. O intestino, órgão até pouco tempo negligenciado e pouco conhecido, participa da nossa digestão, nos alimenta, mas também tem um papel fundamental em nosso sistema imunológico. “Algumas dessas bactérias intestinais produzem, por exemplo, a vitamina K, essenciais para a nossa saúde, que não existem em outro lugar. Elas também digerem alimentos que não foram digeridos antes, como as fibras, e produzem 10% de nossa energia cotidiana”, completa a pesquisadora.

Educativa e atraente

Os pais que acompanhavam seus filhos nessa visita guiada à nossa digestão elogiaram o caráter educativo, lúdico e atraente da exposição. Mas muitas crianças ficaram espantadas em aprender que tem um mundo morando dentro de suas barrigas. “Tem coisas na nossa barriga que são um pouco nojentas. É engraçado a gente ter essa espécie de floresta na barriga”, comentou Alvine, de 11 anos. Clotilde, de 12 anos, também ficou surpresa: “Não só temos muitos micróbios, como temos o tempo todo!”

Um dos desafios dos organizadores foi justamente falar dessas coisas “nojentas”, sem embaraço e com humor. Sobre as fezes, um caderno escatológico explica os motivos e a composição das várias consistências de cocô. Um cantinho com duas privadas, dando dicas para ajudar o intestino a funcionar melhor, faz muito sucesso. Um painel, onde se pode puxar o intestino e ver que ele é enorme, com vários metros, intriga alguns pequenos: “ a gente pode colocar o tubo dentro do buraco, é o que temos na barriga. Fiquei impressionada com o tamanho”, disse Sirine, de 9 anos.

Florence, mãe de dois filhos, acha que a mostra pode “ajudar a superar alguns preconceitos e espera que seu filho, que fica assustado com o que se passa no interior de seu corpo, tenha menos medo. Não é Joaquim?” Tímido, o menino de 8 anos responde afirmativamente: “sim aprendi que o intestino é onde tem o cocô!”

Atualmente os pesquisadores tentam determinar qual é a influência dos intestinos no stress, na aprendizagem, na depressão ou na satisfação que sentimos. Fabienne, que acompanhava os dois netos, não se espanta que o intestino seja considerado como um segundo cérebro: “Quando não estamos bem, temos algum problema nos preocupando, temos sempre dor de barriga”, recorda.

Parceria com outros museus europeus

A exposição “microbiota” é a quarta realizada em parceria entre a Cité de Sciences de Paris, o Pavilhão do Conhecimento-Ciência Viva de Lisboa e a Eureka de Helsinki. Rosalia Vargas, presidente da Ciência Viva e diretora do Pavilhão do Conhecimento, salienta que esse consórcio “é muito importante para que os museus e centros de ciência trabalhem junto não só para terem boas ideias, como também boa capacidade para produzir essas exposições que são muito interativas, que abordam temas da atualidade, que interessam muito às pessoas, como esta sobre a flora intestinal, que é um tema muito importante.” As instituições trabalham sempre com a comunidade científica e educativa com o objetivo de vulgarizar a ciência para um público de todas as faixas etárias. Rosalia Vargas lembra que a mostra é inspirada no livro “O discreto charme do intestino”, publicado em mais de 40 países (no Brasil ele é editado pela Martins Fontes) e que os desenhos divertidos de Jill Enders que ilustram a obra da irmã Giulia, também pontuam a exposição.

“Microbiota” fica em cartaz em Paris até o dia 4 de agosto. Em seguida, será exibida em Lisboa a partir de outubro de 2019.