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Sexismo na ciência leva a diagnósticos e tratamentos piores para as mulheres

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A professora de História da Ciência Londa Schiebing diz que "mulheres não são apenas homens menores" e suas especificidades devem ser consideradas nas pesquisas. For Women in Science/ Twitter

Diagnósticos equivocados, tratamentos inadequados, segurança inferior. Esses são alguns dos impactos gerados pelo sexismo na ciência e na pesquisa, áreas nas quais a presença das mulheres enfrenta barreiras de gênero. Os cientistas tendem a perpetrar remédios formulados para homens, ignorando as diferenças genéticas entre os sexos, assim como médicos prestam menos atenção a sintomas tipicamente femininos que possam ser alertas para problemas graves de saúde, como ataques cardíacos.


“Os cientistas precisam entender: mulheres não são apenas homens menores”, resume Londa Schiebing, professora de História da Ciência e diretora do Gendered Innovations, da universidade americana de Stanford. Ela participou de um debate sobre os impactos das questões de gênero nas pesquisas, promovido pela Fundação L’Oréal antes da entrega do prêmio Mulheres na Ciência, em parceria com a Unesco. O encontro reuniu cerca de 300 pessoas em Paris, nesta quarta-feira (13).

A Unesco pontua que, atualmente, apenas 28% dos pesquisadores no mundo são mulheres e não mais do que 3% dos prêmios Nobel são atribuídos a elas. Os números perpetuam o desconhecimento das especificidades femininas na ciência: quanto maior o número de especialistas mulheres, maiores as chances de as questões de gênero serem consideradas nos trabalhos.

Mulheres são vistas como “desvios à norma”

Em 2014, a Comissão Europeia concluiu que há 137 áreas de pesquisa que poderiam ser mais eficientes se as diferenças de gênero fossem estudadas. Os setores são os mais variados, como informática, nanotecnologia ou geociência.

“Historicamente, na medicina ou na engenharia automobilística, o corpo do homem branco é tomado como a norma e a mulher é analisada sob a perspectiva de alguém que desvia da norma. É por isso que não há, por exemplo, cintos de segurança adaptados para mulheres gravidas – e os equipamentos existentes causam danos ao feto em 75% dos acidentes”, explica Schiebing.

Essas diferenças levam as mulheres a receberem medicamentos inadequados para o corpo feminino, com mais efeitos colaterais que nem mesmo foram verificados na elaboração da fórmula. Elas também são sujeitas a doses equivocadas dos remédios, já que a posologia foi concebida para um homem. Além disso, embora haja cerca de 13 milhões de grávidas na Europa e nos Estados Unidos, sequer existem remédios específicos para as mulheres que esperam um bebê, destaca Cara Tannenbaum, diretora cientifica do Instituto do Gênero e Saúde, ligado ao Instituto Canadense de Pesquisas de Saúde.

Homens também se beneficiariam com mais equilíbrio

“Sob uma perspectiva da evolução, é preciso considerar essas diferenças e finalmente os cientistas estão começando a perceber que, se fizerem isso, os homens também vão se beneficiar. Talvez isso seja o que faltava para as coisas mudarem mais rápido”, observa a canadense.

Se o sexo das células fosse melhor analisado em um transplante, por exemplo, as chances de sucesso aumentariam, assim como a elaboração de medicamentos para a dor poderia progredir ao levarem em conta anticorpos que as mulheres produzem naturalmente devido à possibilidade de engravidar.

Inteligência artificial encontra prostitutas – mas não ajuda vítimas de estupro

O sexismo também é verificado na elaboração de softwares e hardwares, que podem ser menos eficientes com usuárias mulheres. A pesquisadora Rachel Adams, do Centro de Políticas e Leis de Informação, da Universidade de Londres, relata que, na inteligência artificial, as ferramentas de comando de voz são fabricadas para atender às necessidades masculinas.

“Se você pede para o assistente vocal do seu telefone encontrar viagra ou uma prostituta, ele está programado para responder de prontidão. Mas se você disser: ‘fui estuprada, por favor me ajude?’, não há respostas”, afirma Adams.

Da mesma forma, o número de erros no reconhecimento da voz é bem maior quando a usuária é mulher, assegura a pesquisadora britânica. “Os programas se baseiam em estereótipos e escolhem o modelo masculino por ser o mais fácil, afinal, quase sempre, quem está programando também é um homem.” Atualmente, apenas 22% dos pesquisadores em inteligência artificial são mulheres.