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Brasileiras na França contam como mudança de país afeta a saúde

Por Taíssa Stivanin

Em evento promovido pelo grupo Mulheres do Brasil, participantes receberam dicas de especialistas sobre como lidar com o estresse, a sobrecarga mental, e esclareceram dúvidas sobre a prevenção e o funcionamento do sistema de saúde francês.

O burburinho na sala da Embaixada do Brasil em Paris, no 8° distrito da capital, marca o início da Segunda Jornada da Saúde, que aconteceu no sábado (16) em Paris. Cerca de cem brasileiras, de estados, origens e classes sociais diferentes, ouvem atentas a palestra da psicóloga e terapeuta Margareth Alvares Leplat, radicada na França.“Quem aqui nunca sentiu que tinha coisas demais para pensar para fazer e ninguém para ajudar?”, questiona, causando reações imediatas na plateia. A pergunta da psicóloga tem um motivo: o estresse, a sobrecarga mental e o questionamento sobre a própria identidade estão entre os fatores que mais influenciam a saúde das brasileiras que se mudaram para a França.

“Uma das grandes questões da mulher brasileira na França hoje é a questão da autoestima. A mulher, quando vem para um país estrangeiro, muda muito a impressão que tem dela mesma. Fica muito perdida. Por isso a importância de eventos como o de hoje, para que as mulheres possam trocar informações e compartilhar as experiências, as vivências de como tem sido essa transformação na vida e o fato de morar no exterior”, explica a psicóloga.

A terapeuta Margareth Alvares Leplat deu dicas sobre como lidar com o estresse da mudança para o exterior (Foto: Taissa Stivanin/RFI Brasil)

Além disso, a falta do apoio da família e dos amigos que estão longe contribuem para o surgimento de sintomas fisiológicos ligados ao estresse: baixa imunidade, por exemplo, que favorece as infecções, principalmente no inverno. “A pessoa chega com muita expectativa e normalmente pouco aberta ao que é diferente. Todos os países tem uma imagem de 'massa'", ressalta.

"Nós, brasileiros em geral, quando nos mudamos para a França imaginamos muitas coisas e nos decepcionamos porque é só mais um país, com todas suas qualidades e todas suas dificuldades. Tem esse tempo de adaptação, que costuma ser o mais difícil para as pessoas, que consiste em deixar de lado as expectativas que a gente cria e lidar com a realidade como ela é”, resume.

Diferenças que incluem, por exemplo, lidar com o inverno cinzento e duradouro, com uma cultura diferente – os franceses são em geral mais fechados e é mais difícil estabelecer vínculos. A psicóloga salienta que o sistema de saúde também é bem diferente do brasileiro. Há ainda ilusão da gratuidade generalizada nos estabelecimentos, que é falsa.

“Tem toda uma parte jurídica, eu diria, que é a de entender o que é um sistema público, mas pago,” diz a terapeuta brasileira. Sem plano saúde, a consulta em um especialista pode sair cara. Além disso, obter uma vaga para realizar um exame sofisticado, por exemplo, pode demorar meses. Por essa razão, o Grupo Mulheres do Brasil, criado em 2013 e liderado pela empresária Luiza Trajano (no comando da rede de lojas de varejo Magazine Luiza) realiza com frequência eventos para ajudar as mulheres brasileiras que vivem em outros países.

Na França, a associação ganhou uma filial em 2018. A Jornada da Saúde foi organizada pela naturopata Rafaella Tillier e a enfermeira Ligia Paraiso, coordenadoras da área no grupo, que virou uma referência para as brasileiras que estão chegando ou moram no país.

Sala cheia na Jornada da Saúde, evento organizado pelo Grupo Mulheres do Brasil (Foto: Taissa Stivanin/RFI Brasil)

A estudante Gabriela Mesquita, 23 anos, de Guarulhos, chegou há apenas um mês na França. Ela entrou em contato com o Mulheres do Brasil antes de se mudar para o país, para onde veio acompanhar seu noivo. “Chegar na França sozinha não é fácil, especialmente sem falar a língua”, diz Gabriela, que se considera ansiosa. “Cair de pára-quedas é um pouco complicado. O sistema de saúde aqui é completamente diferente do sistema brasileiro. Tudo aqui é completamente diferente do Brasil. Não esperava por isso e está sendo tudo mais difícil”, diz.

“Cheguei aqui e estou ainda bem desesperada, bem perdida em relação a sobre como resolver determinadas situações, especialmente emocionais. Também tem a questão do inverno. Não é fácil sobreviver ao inverno na França emocionalmente estável. Então acho que conhecer pessoas em um evento que trata de saúde, física e emocional, é enriquecedor”, afirma.

A estudante brasileira conta ter crises de ansiedade provocadas pela solidão. “Ontem mesmo eu tive uma crise de ansiedade. Meu noivo foi trabalhar o dia inteiro, eu fiquei em casa, olhando pela janela, chuva caindo, neblina, o frio, com o aquecedor ligado e fiquei pensando: e agora, o que que eu vou fazer? Não consigo sair de casa, chove, não tenho para onde ir, para quem ligar…então ver que eu não estou sozinha, com pessoas com quem posso contar, é maravilhoso”, analisa.

A brasileira Amanda Barros venceu a depressão sazonal (Foto: Taissa Stivanin/RFI Brasil)

Vencendo a depressão sazonal

Amanda Silva Barros, de Goiânia, foi vítima da depressão sazonal, gerada pela falta de sol, mas conseguiu resolver o problema graças à ajuda do grupo. A brasileira, que vive em Paris há dois anos e meio, descobriu que tinha a doença ao ler uma reportagem da RFI sobre o tema, publicada no ano passado. “Amanda passou a fazer a luminoterapia, único tratamento para o mal, e está curada. “Mudou completamente meu ânimo”, ressalta. Amanda gosta de morar na França e está satisfeita com o sistema. “Já fiz cirurgias aqui, meu irmão também e não tenho do que reclamar, fomos muito bem tratados.”

Entendendo o sistema francês

A brasileira Sabrina Bouanani Camargo vive há 17 anos na França, onde trabalha em uma seguradora internacional. Ela conta que sua principal dificuldade é a prevenção dentária. Em sua opinião, a preocupação com a dentição, inclusive nas crianças, é menor do que no Brasil. Ela também sente dificuldades para marcar as consultas. “Marcar consultas é demorado. Por isso estou aqui para aprender mais sobre a saúde, ter mais informações, que eu possa utilizar no dia a dia”, declara.

Sabrina Camargo vive na França há 17 anos e aprova o sistema de saúde (Foto: Taissa Stivanin/RFI Brasil)

De maneira geral, ela aprova o sistema francês. Mãe de uma menina, Sabrina conta que não teve problemas no acompanhamento da gravidez. “Tive um bom atendimento em uma clínica particular e fiquei bem satisfeita com o tratamento que minha ginecologista me deu” avalia. “O sistema é ótimo. A gente pode obter uma parte do reembolso pelo INSS e o plano de saúde arca com restante, ou pelo menos uma boa parte dele”, explica. “O Brasil deveria adotar esse sistema", sugere.

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