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Carne sintética: revolução contra a poluição da pecuária ou demagogia?

Por Lúcia Müzell

A cada ano, mais pessoas se tornam vegetarianas ou veganas por razões ambientais - a criação de animais é responsável por cerca de 18% da geração de gases de efeito estufa no mundo. Para ninguém ter de deixar de saborear um bom filé em nome da proteção do planeta, as pesquisas de desenvolvimento de carnes sintéticas ou celulares crescem a todo o vapor. No entanto, o impacto dessa suposta revolução nos hábitos alimentares é controverso – tudo depende de como a carne in vitro é produzida.

Até o momento, a maioria das iniciativas resulta em carne moída ou hambúrguer, como a holandesa Mosa Meat, que recebeu fundos de um dos criadores do Google. A primeira a conseguir fabricar no laboratório um verdadeiro bife, como um entrecôte, foi a israelense Aleph Farms, comandada pelo engenheiro agrônomo francês Didier Toubia. Ele espera que a carne cultivada, como prefere chamar, seja apenas o primeiro passo rumo a biofazendas, que no futuro também produzirão leite e derivados sem precisar explorar os animais.

“Queremos um mundo mais sustentável, com mais equilíbrio na natureza e que seja mais ético, com alimentos sadios e de melhor qualidade. Há muitos problemas na maneira de produção da carne atualmente, em especial na pecuária intensiva, que afetam o ambiente e a nossa saúde”, afirma Toubia. “Queremos resgatar o prazer de consumir a carne mas sem todos os problemas que são associados a ela.”

Gosto ainda não é o ideal

O objetivo é conquistar consumidores com um produto mais próximo possível da verdadeira carne, com gordura e fibras, para ter sensações e gostos que faltam às alternativas vegetais comercializadas até agora. O procedimento é complexo, mas se resume a retirar células do animal e multiplica-las artificialmente em laboratório.

Hamburguer da Mosa Mea Mosa Meat hamburger

Em troca da promessa de uma opção ecológica, sem maus tratos nem abate de animais, as pesquisas recebem investimentos colossais nos Estados Unidos. Empresários famosos como Bill Gates e a gigante de alimentação Cargill financiam os estudos da Memphis Meats, que pretende colocar almondegas sintéticas no mercado a partir de 2021, a um preço acessível. Todos partem do princípio que as pessoas podem até reduzir o consumo de proteína animal, mas não vão abandonar completamente a carne.

“A ideia é que a carne cultivada se integre na indústria agroalimentar. Talvez assim, para atender a toda a demanda, a agricultura convencional possa retomar métodos extensivos mais tradicionais, com menos antibióticos e utilizando menos os recursos naturais”, observa o cofundador da Aleph Farms.

US$ 50 por bife fininho

Na teoria, tudo parece ser uma boa ideia – mas as iniciativas esbarram nos custos e nas técnicas de produção. Já é possível não pagar 300 mil dólares por um bife de laboratório, como foi o caso das primeiras experiências. Mas, por enquanto, ainda é inviável fabricá-los por menos de 50 dólares.

Outro problema é o risco de se trocar a emissão de metano, feita pelo verdadeiro gado, por CO2, gerado pela energia das incubadoras. Em fevereiro, um estudo de pesquisadores de Oxford avaliou que, num prazo de mil anos, a fabricação de carne de laboratório seria mais nociva ao meio ambiente do que a pecuária tradicional. O CO2 se acumula na atmosfera por mais de cem anos, enquanto o metano é eliminado em pouco mais de uma década.

“É muito difícil de se chegar a uma conclusão definitiva sobre o impacto de carbono e outros gases poluentes pela carne artificial porque esse produto ainda não existe em escala comercial. Os estudos atuais utilizam modelos”, avalia Jean-François Hocquette, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas da França (INRA). “Também faltaria analisar o impacto da fabricação de todos os ingredientes necessários para uma produção dessa carne em grandes quantidades.”

Mais um tabu: a uso de hormônios de crescimento para chegar à multiplicação das células e fabricação de proteínas em laboratórios. Além disso, acrescentam-se antibióticos e fungicidas ao coquetel, para evitar o surgimento de bactérias e fungos durante o processo. Na Europa, os implantes hormonais são proibidos nos animais de corte, pelos efeitos nocivos à saúde.

“O valor nutricional da carne artificial ainda não foi estudado de maneira aprofundada. E como ela precisa reproduzir em laboratório todos os procedimentos que ocorrem naturalmente no animal, podemos nos questionar sobre o processo químico de sintetização das moléculas, que pode ter efeitos não só na saúde como no meio ambiente”, nota Hocquette. “Estamos falando de uma indústria química, que gera água poluída e terá resíduos de síntese orgânica.”

Foie gras sem gansos

Na França, uma startup recolhe fundos para conseguir colocar no mercado um produto que dá um passo além na inovação: um foie gras de laboratório. A base de células-tronco retiradas de ovos de gansos, a especiaria francesa será produzida sem maus tratos às aves, ao simular in vitro os efeitos da técnica de gavagem.

No método tradicional, o processo de alimentação forçada faz os animais desenvolverem um fígado de tamanho anormal, com o qual é feito o foie gras. Em laboratório, tudo isso poderá ser evitado, prometem os pesquisadores.

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