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Sonambulismo infantil: um distúrbio comum, mas que exige precauções

Por Taíssa Stivanin

Distúrbio que atinge até 20% das crianças entre 1 e 15 anos exige precauções para evitar acidentes graves.

A brasileira Taciana Ferreira vive desde 2010 em uma pequena cidade chamada Annemasse, na região da Alta Savoia, com o marido e seus dois filhos. Enzo, o mais velho, hoje com sete anos, teve seu primeiro episódio grave de sonambulismo em novembro de 2016. O menino já falava, sentava na cama, andava um pouco pela casa, mas nunca a ponto de preocupar os pais. Até o dia em que ele literalmente foi para a rua dormindo.

Era inverno e a família dormia tranquilamente. Por volta das 3h30 da manhã, o interfone tocou: era a polícia, acompanhada de Enzo. Na época com três anos e meio, o garoto tinha aberto a tranca da janela do apartamento, situado no térreo, e saiu pela rua.

“Ele desceu uma escadinha perto de um andaime, porque o prédio estava passando por reformas, abriu o portão do prédio, atravessou uma praça, a avenida e a rua. Quando foi achado estava só de cuequinha, camiseta e meia”, conta Taciana.

Enzo acordou e começou a gesticular, assustado. Ele foi encontrado por um jovem que passava de carro e o levou até a delegacia mais próxima.

“A policia levou Enzo até o local onde o rapaz o havia encontrado e perguntou se ele lembrava do caminho de casa. Ele tinha feito o trajeto da escola. Com as indicações do meu filho, os policiais conseguiram encontrar nosso prédio, que estava próximo”, conta Taciana, emocionada. Por conta do frio, o menino teve um princípio de pneumonia e foi hospitalizado. “Imagina o que poderia ter acontecido?”, diz a mãe.

No hospital, Enzo passou por uma bateria de exames, incluindo testes neurológicos, que confirmaram a doença. “O sonambulismo foi constatado, mas ele não tinha nenhum problema, como epilepsia”, explica Taciana.

Desde então, a família passou a tomar diversas precauções: as portas e janelas são trancadas à noite e as chaves ficam escondidas. Além disso, Taciana precisou retirar a mesas de centro da sala. Enzo ainda tem episódios de sonambulismo até duas vezes por mês. Quando acontece, Taciana pega o filho delicadamente pela mão e o leva de volta para a cama.

Sonambulismo é mais comum na infância e adolescência

O que acontece no cérebro de um sonâmbulo? Os episódios ocorrem na chamada fase do sono lento e profundo, ou fase delta, essencial para o desenvolvimento infantil. Isso porque é na chamada “sleep delta”, no início da noite, que há secreção do hormônio do crescimento. A respiração é lenta, o coração bate mais devagar e os músculos, normalmente, relaxam.

Estruturas cerebrais como o cerúleo, uma pequena parte azulada do tronco cerebral, liberam neurotransmissores como a noradrenalina, envolvidas na fisiologia do sono.

Nos sonâmbulos, uma disfunção dessa estrutura faz com que eles não fiquem paralisados enquanto dormem e justamente não tenham esse relaxamento muscular.

Essa parassonia, cujo mecanismo ainda guarda ainda alguns mistérios para a medicina, é comum na infância e na adolescência. O diagnóstico, entretanto, deve excluir problemas como a epilepsia, que podem acompanhar o sonambulismo. Na infância, o distúrbio estaria ligado ao amadurecimento e à sincronização das ondas cerebrais e desaparece sozinho.

Fenômeno neurológico

O psiquiatra francês Patrick Lemoine é especialista do sono e autor de vários livros sobre o assunto. O sonambulismo, explica, é um fenômeno neurológico. “Não há nenhuma relação com os sonhos ou pesadelos ou outras questões psicológicas. É um problema de amadurecimento do cérebro, que cura espontaneamente”, explica. Quando levantam à noite, diz, as crianças reproduzem de maneira inconsciente o que fizeram durante o dia.

“São automatismos motores simples, em geral, pouco sofisticados. Eles andam, dão uma volta e se deitam novamente.” Acidentes, entretanto, podem acontecer. O mais importante no caso dos pequenos sonâmbulos, diz, é tomar precauções, como fez Taciana, para evitar incidentes graves.

“As crianças podem levantar e pular pela janela. Infelizmente, todos os anos há mortes”, lamenta. A frequência dos episodios é variável, explica o psiquiatra francês. Eventos estressantes como mudanças podem desencadear novas crises.

Este foi o caso da assessora de comunicação Crika Rios, 40 anos, que vive em Paris desde 2010, e que era sonâmbula na infância. Crika conta que o distúrbio começou por volta dos 8 anos, depois da separação dos pais e da mudança para um novo apartamento em São Paulo. Sua irmã também tinha o problema.

“No meu caso foram poucos episódios. Mas a gente acordava, ligava a TV”, conta Crika. Um dia ela conseguiu abrir a porta e saiu. “Fui passear. Sai de casa, cheguei no hall do elevador, chamei o elevador, entrei e desci. O porteiro do prédio viu pela câmera que eu estava circulando e avisou minha mãe, que desceu para me pegar no subsolo.”

Falando à noite

Muitas crianças falam muito à noite mas não chegam a se levantar para caminhar. E o caso do pequeno Ivan, 5 anos, de Curitiba. Seu pai, Zeno, conta que seus diálogos às vezes podem ser impressionantes, mas ele e sua mulher acabaram se habituando. Como Ivan acorda em forma e não apresenta sonolência, eles não se preocuparam. "Começou por volta dos dois anos. Comecei a observar, acordava e tentava conversar, mas ele não responde", conta. "Ele brinca durante à noite, mas não chega a levantar. Ele fala bastante e algumas vezes ja peguei ele sentando na cama", diz.

O psiquiatra francês lembra que a maioria das crianças falam à noite, os pais não devem se preocupar e isso não está relacionado ao sonambulismo.

 

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