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Conheça a Fagoterapia, tratamento que combate bactérias resistentes

Por Taíssa Stivanin

O tratamento, surgido nos anos 20, tornou-se raro com o advento dos antibióticos e utiliza um coquetel de vírus que atacam bactérias específicas.

O engenheiro de computação francês Christophe Novou Dit Picot, foi atropelado quando era criança na Costa do Marfim, onde vivia sua família. Em coma e internado em Abijan, ele adquiriu uma infecção hospitalar que atingiu sua perna esquerda. A bactéria, um Estafilococo Dourado, nunca foi debelada- os antibióticos não surtiam efeito. Em 2013, depois de 49 operações, o francês, em uma cadeira de rodas, foi informado que teria a perna amputada ou morreria de uma septicemia, ou infecção generalizada. Christophe não aceitou a situação e decidiu buscar uma alternativa. Foi quando sua cunhada falou de uma clínica na Geórgia, chamada Eliava Phage Therapy Center, que praticava a Fagoterapia. "Eu consegui me livrar do Estafiloco Dourado e outras quatro bactérias resistentes. Sem os fagos, hoje, eu não estaria mais aqui", diz.

A Fagoterapia, utilizada entre 1920 e 1940, caiu em desuso com o advento dos antibióticos e a invenção da Penicilina em 1928 por Alexander Fleming. Um dos criadores do método é o francês Félix d’Herelle, que trabalhou no Instituto Pasteur entre 1911 e 1921. Ele era amigo de George Eliava, que dá nome à clínica na Georgia. O estabelecimento existe desde 1923 e nunca fechou as portas. O cientista francês, que alguns dizem de origem canadense, curou pacientes durante uma epidemia de disenteria, utilizando os chamados bacteriófagos: vírus predadores de bactérias, presentes em todo o corpo e no meio ambiente: na pele, na flora intestinal e na água, por exemplo. Eles injetam seu DNA e se replicam dentro do micróbio, que acaba “explodindo”. Cada fago ataca uma bactéria específica ou um grupo delas. Por isso, um coquetel é preparado sob medida para cada paciente.

No caso de Christophe, o resultado foi milagroso. Depois de 15 dias na clínica em Tbilissi, a infecção e pode ser operado, retomando uma vida praticamente normal, longe do périplo dos hospitais. Ainda restam sequelas, mas que são minimas, diz, perto do que ele vivenciou e perdeu em 40 anos de luta contra a infecção. Para ajudar outros pacientes, o engenheiro de computação criou, em 2017, a associação Phages Sans Frontière (Fagos sem Fronteira), com o intuito de informar sobre o acesso ao tratamento no exterior que têm um custo elevado.

Na França, a Fagoterapia só é autorizada em casos extremos e em alguns estabelecimentos, como o hospital de la Croix Rousse, em Lyon. O acesso mais amplo aos fagos esta sendo analisado por um comitê da Agência Nacional de Segurança do Medicamento (ANSM), organismo que autoriza a comercialização de remédios na França e que poderá efetivar a autorização temporária de utilização dos micro-organismos. A associação do engenheiro, que conta com cerca de 300 pessoas, integra esse comitê."As autorizações temporarias e os tratamentos experimentais ja estao sendo distribuidas nos hospitais de Lyon e Paris", diz.

Trata-se de um passo importante para lutar contra a epidemia de bactérias resistentes, que surgiram justamente por conta do abuso do uso de antibióticos. A estimativa é que cerca de 33 mil pessoas morram por ano na Europa, vítimas de infecções que não reagem mais aos medicamentos, explica a microbiologista francesa Marie-Céline Ray, autora do livro “Infections, le traitement de la dernière chance” (Infecções, a ultima opção de tratamento, em tradução livre).

Autorizações excepcionais

Essas complicações estão relacionadas principalmente às infecções nosocomiais, adquiridas nos hospitais, respiratórias, urinárias e dermatológicas, entre outras. “As bactérias podem ter em suas células pequenos círculos chamados plasmídeos, onde podem existir genes de resistência aos antibióticos. Elas podem transmitir esse gene uma para a outras”, descreve a especialista. O uso indiscriminado de moléculas como a penicilina favorece essa resistência. “Houve essa campanha na França, “les antibiotiques, ce n’est pas automatique” (antibióticos não devem ser usados de maneira automática, em português), mas os médicos continuam prescrevendo. Nos hospitais o uso diminuiu, mas nos consultórios ainda se receitam muitos antibióticos”, alerta a microbiologista.

Christophe Novou Dit Picot Arquivo Pessoal

No livro, Marie-Céline descreve a história da utilização dos fagos na Medicina, Ela lembra que nos países da ex-União Soviética, como é o caso da Geórgia, a Fagoterapia é um tratamento como qualquer outro. Na França, o método apos poucos foi desaparecendo em detrimento dos antibióticos. Até 1974, havia remédios manipulados com fagos disponíveis nas farmácias, mas aos poucos, os fagos foram sumindo das prateleiras.

“Hoje há autorizações excepcionais para casos desesperados”, explica a microbiologista, em caso de risco de morte ou amputações. “Idealmente, é preciso colher uma amostra da bactéria resistente e procurar alguns fagos considerados virulentos contra o micro-organismo que ataca o paciente. E uma Medicina bastante personalizada”, ressalta Marie-Céline Ray. Na clinica Eliava, na Geórgia, o tratamento utiliza preparações prontas e individualizadas. Em princípio, o tratamento é bem tolerado e não traz efeitos colaterais. O antibiótico também pode ser associado, em alguns casos.

A microbiologista acredita que a Fagoterapia tende a se desenvolver como uma alternativa razoável à resistência aos antibióticos. Algumas empresas de biotecnologia na França e nos Estados Unidos, diz, começam a se interessar pela sua produção. Na Suíça, pesquisadores também começam a utilizar os fagos para aliviar pacientes que sofrem de Fibrose Cística, doença genética que provoca o acumulo de muco nos pulmões e que muitas vezes pode ser fatal. No intestino, explica a microbiologista, os fagos também integram a flora, ou macrobiota. Por isso, podem ser considerados como probioticos, atuando na proteção do sistema imunológico.

 

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