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Depois do burn-out: conheça o ikigai, método japonês que ajuda a mudar de carreira

Por Taíssa Stivanin

Filosofia é aplicada em escola francesa criada por jovem executiva e ajuda profissionais que passam por crise no trabalho

Mudar de profissão ou trabalho é um dos principais desafios para quem pretende dar uma guinada na carreira, por diferentes razões: doença, vida pessoal ou, em casos mais graves, após vivenciar um burn-out – exaustão generalizada que paralisa o indivíduo e, em boa parte dos casos, provoca uma séria depressão.

Na França, um novo método, criado por um psiquiatra japonês, Mieko Kamiya, tem ajudado profissionais que buscam dar um novo sentido à carreira. Trata-se do ikigai, fusão das palavras iki, que em japonês significa vida ou estar vivo, e gai, aquilo que vale a pena e deve ser valorizado. Kamiya o descreve como a energia vital que gera o entusiasmo necessário para se levantar de manhã e tocar o seu dia, apesar das dificuldades. O ikigai ajuda a identificar as competências pessoais e talentos muitas vezes engavetados em nosso psiquismo, obrigado à se adaptar às obrigações do dia a dia.

A executiva francesa Anaïs Raoux, 27 anos, vivenciou essa situação. Aluna brilhante, ela obteve seu “BAC”, passaporte francês para o ensino superior, aos 16 anos. Foi aceita e se formou em uma das concorridas escolas de Administração de Empresas francesa, em Lille, no norte da França e logo obteve uma vaga em uma grande empresa de Auditoria Financeira. O sucesso profissional, entretanto, não motivava Anaïs, que em 2015 pediu demissão. “Eu sentia esse mal estar no trabalho. Achava que não tinha talento, voltava para casa e chorava.”

Depois de uma experiência em uma incubadora que tinha por objetivo orientar jovens empresários, onde atuou como diretora, ela decidiu fundar sua própria start-up, Wake Up, uma escola de desenvolvimento pessoal que ajuda executivos e profissionais a mudar de carreira, situada no 9° distrito de Paris.

Hoje, 60% dos profissionais declaram não ter comprometimento com o trabalho, segundo uma pesquisa realizada pela rede social profissional Linkedin. O trabalho da jovem executiva é justamente ajudar a mudar essa situação, utilizando, entre outros métodos, o ikigai. “É uma filosofia que nos inspira muito”, explica. “Temos dificuldades o tempo todo, como empresários, assalariados ou independentes. Mas é essa fonte de energia descrita no ikigai, essa chama que temos dentro de nós, que precisamos despertar, revelar e cultivar no cotidiano”, descreve.

Burn-out e perda de confiança

A empresária “socorre” muitos profissionais vítimas de burn-out ou de outros distúrbios ligados ao excesso de carga de trabalho, que afetam a saúde física e mental. “Quando eles chegam aqui, essa chama está reduzida a cinzas, corroída pela sociedade, pela pressão, por um ambiente de trabalho tóxico, ou por um manager pouco compreensivo, que não os ajudou a revelar seus talentos. Isso gera perda de confiança ao longo dos anos”, ressalta.

Apesar de vulneráveis, esses profissionais, conta a executiva francesa, têm a esperança de encontrar uma profissão com a qual se identifiquem pessoalmente, não apenas tecnicamente. “A ideia é que aqui eles possam ser eles mesmos. É nisso que trabalhamos. Tirar essa máscara usada nas empresas, onde são conhecidos por aquilo que fizeram, pelo currículo, e se questionar o que estão realmente buscando”, declara. Para ajudar a identificar essas competências pessoais, o site da escola propõe um teste gratuito de personalidade de 80 perguntas, que se chama Bússola. Ele ajuda a identificar os talentos intrínsecos, como a criatividade ou intuição, e não o que foi tecnicamente aprendido e desenvolvido ao longo de anos de experiência.

A maioria dos profissionais que participam das formações tem cerca de 10 anos de experiência. A idade das pessoas que buscam uma nova orientação varia entre 27 e 55 anos mas, seja no início ou fim da carreira profissional, todas buscam uma vaga que corresponda à sua personalidade. Anaïs e sua equipe analisaram a Psicologia de 150 profissões. “Somos capazes, em função das preferências psicológicas, de orientar as pessoas ou estruturar e fazer uma “triagem” de todas suas ideias”, diz.

Com o ikigai, a ideia é incitar ao questionamento sem esquecer a realidade do cotidiano. Ela cita como exemplo o trabalho por conta própria, que seduz e leva muitos profissionais a deixar bons cargos em empresas tradicionais. Mas quem decide ser seu próprio patrão deve saber lidar com o incerto: o cliente não paga, a negociação demanda mais horas do que o previsto e a vida familiar às vezes precisa ficar em segundo plano.

“Temos de tudo: pessoas que mudam de profissão mas continuam assalariados, outras que mudam de cargo dentro da própria empresa”, conta a executiva. Ela cita como exemplo uma especialista em Recursos Humanos que se transformou em hipnoterapeuta, ou um engenheiro que lançou uma marca de roupas ecologicamente corretas.

Segundo Anaïs, há também uma verdadeira demanda dos profissionais por vagas que contribuam para a sociedade, para a preservação do meio-ambiente e uma distribuição de renda mais justa. De toda maneira, passando mais de 80% do tempo no trabalho, é fundamental fazer algo que se gosta. “O mito de que deixamos os problemas na porta da empresa não existe, ou resiste, mas é falso”, conclui.

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