rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

Ciência Antropologia Etiópia Teoria da Evolução

Publicado em • Modificado em

Crânio de australopiteco de 3,8 milhões de anos é descoberto na Etiópia

media
O crânio do australopiteco foi descoberto na Etiópia em 2016 e revelado nesta quarta-feira, 28 de agosto de 2019, em artigos puclicados na Nature. Dale Omori/Cleveland Museum of Natural History/Handout via REUT

O crânio de um australopiteco (Australopithecus) de 3,8 milhões de anos, em estado "notavelmente completo", foi descoberto na Etiópia. A descoberta, revelada por estudos divulgados nesta quarta-feira (28), abala, mais uma vez, nossa visão da evolução da espécie.


"Este crânio é um dos mais completos fósseis de hominídeos de mais de 3 milhões de anos", disse Yohannes Haile-Selassie, do Museu de História Natural de Cleveland, nos Estados Unidos, coautor de dois estudos publicados na revista "Nature". Em um comentário no periódico, Fred Spoor, do Museu de História Natural de Londres, o estudioso completa que a descoberta pode "se tornar um novo ícone da evolução humana", ao lado dos célèbres "Toumaï", "Ardi" e "Lucy".

Comparativamente, o esqueleto Toumaï (um Sahelanthropus tchadensis), considerado por alguns paleontólogos como o primeiro representante da linhagem humana, tem cerca de 7 milhões de anos. Foi encontrado no Chade, em 2001.

Descoberto na Etiópia, Ardi (ou Ardipithecus ramidus, uma outra espécie de hominídeo) teria 4,5 milhões de anos, e Lucy, a Australopiteco mais conhecida, descoberta na Etiópia em 1974, tem 3,2 milhões de anos. Outros fósseis de Australopiteco, menos conhecidos, têm no mínimo 3,9 milhões de anos, mas apenas o maxilar e os dentes foram encontrados. Sem o crânio, nossa compreensão da evolução desses hominídeos extintos permanecia muito parcial.

Descoberto em fevereiro de 2016 no sítio de Woranso-Mille, na região de Afar, na Etiópia (a 55 quilômetros de onde estava Lucy), este novo fóssil, chamado MRD, pertencia a um dos primeiros Australopitecos, os Australopithecus anamensis.

Sonho que virou realidade

"Achávamos que o A. anamensis (MRD) se transformava progressivamente em A. afarensis (Lucy) com o tempo", explica Stephanie Melillo, do Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, na Alemanha, coautor dos dois estudos. Mas esta última descoberta bagunça o tabuleiro do que se sabia até então, mostrando que as duas espécies teriam se cruzado nas savanas de Afar durante cerca de 100.000 anos.

“Isso muda nossa compreensão do processo de evolução e destaca novas questões: estavam em competição pelo alimento, ou pelo espaço?", pergunta Stephanie Melillo.

Ainda que bem pequeno, o crânio deve ser o de um adulto, do gênero masculino a priori. Reconstituições faciais feitas com base em características do fóssil revelam um hominídeo com as maçãs projetadas, maxilar proeminente, nariz largo e testa estreita.

Para surpresa dos pesquisadores, o crânio se apresenta como uma mistura de características próprias dos Sahelanthropus, como o Toumaï, e dos Ardipithecus, como o Ardi, mas também de outras espécies mais "recentes". "Até hoje, havia um grande abismo entre os ancestrais humanos mais antigos, que têm cerca de 6 milhões de anos, e de espécies como a Lucy, que têm três milhões de anos", relata Stephanie Melillo, para quem esta descoberta "reconecta o espaço morfológico entre estes dois grupos".

Em um primeiro momento, apenas seu maxilar era visível. "Não acreditei nos meus olhos quando vi o resto do crânio", lembra Yohannes Haile-Selassie, que descreve "um momento eureka", "um sonho que se tornou realidade".