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Mostra em Paris resgata processos abusivos contra mulheres

Por Patricia Moribe

A exposição “Culpadas até que se prove o contrário”, na sede dos Arquivos Nacionais, em Paris, até 27 de março, quer dar voz a mulheres abusivamente condenadas ao longo da história. A iniciativa, que consumiu dois anos de pesquisas, recolheu 320 processos de interrogatórios, muitas vezes os únicos vestígios escritos de trágicos destinos diante de uma legislação arbitrária e opressora.

A mostra é dividida em cinco alas, de acordo com o arquétipo das supostas criminosas: feiticeiras da Idade Média e séculos 16 e 17, as envenenadoras, as condenadas por infanticídio, as incendiárias da época da Comuna de Paris e as chamadas colaboradoras “horizontais” durante a guerra.

O caso da atriz e cantora Arletty, estrela de clássicos do cinema francês como Hotel du Nord e Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis), é um dos mais notórios no período do pós-guerra. Ela foi presa no final da guerra, por causa de seu romance com um alemão. Irreverente, ela declarou durante seu julgamento: “Se não era para dormir com os alemães, não deviam tê-los deixado entrar”. Uma outra frase é mais famosa ainda, mas teria sido colocada em sua boca por um biógrafo: “Meu coração é francês, mas meu sexo é internacional”.

“A exposição é uma homenagem a essas mulheres, mostrando o quanto esses processos eram injustos e absurdos”, diz Marie, diretora do sistema público hospitalar. “Acho que no fundo tem a disputa entre homem e mulher; são mulheres consideradas culpadas de imediato, acusadas sem provas e torturadas. Sob tortura, elas confessam qualquer coisa”, acrescenta a visitante.

Perguntas para estabelecer a culpa

Na parte das bruxas, um caso notório é o da hoje santa e heroína Joana d’Arc. Numa transcrição de um documento da época, ela é questionada sobre a árvore das fadas, ao redor da qual ela certamente dançava quando pequena, e outras absurdas perguntas para provar que ela era uma feiticeira. Condenada por heresia, ela é queimada viva em 1431.

Para Karine, outra visitante, a parte dos infanticídios foi a que mais a impressionou. “Essas pobres mulheres eram obrigadas a matar seus filhos, porque foram abandonadas ou não tinham ajuda de ninguém, em condições desastrosas.”

A exposição revela que uma lei de 1556 obrigava mulheres não casadas a se apresentar às autoridades em caso de gravidez, oficializando publicamente um futuro de ostracismo e rejeição, forçando muitas mães a esconder essa condição ou a abandonar ou matar o recém-nascido.

Matou marido após 47 anos de abuso

A mostra remete o visitante a uma notícia recente da atualidade francesa. Trata-se de Jacqueline Sauvage, 69 anos, condenada a dez anos de prisão por ter matado, em 2012, o marido violento e abusivo, que torturou toda a família, inclusive com estupros de Jacqueline e das filhas, durante 47 anos. Ela acabou ganhando a graça do presidente francês, François Hollande, uma espécie de perdão que é concedido desde a época da monarquia na França e que entrou oficialmente na Constituição francesa em 1958. Dessa forma, apoiada pela família e pela opinião publica, Jacqueline Sauvage deixou finalmente a prisão no dia 29 de dezembro.

A mostra “Culpadas até que se prove o contrário” pode ser vista na sede dos Arquivos Nacionais, em Paris, até 27 de março.
 

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