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O mundo cada vez menos opaco dos lançadores de alerta

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A exposição Lanceurs d'alerte fica em cartaz do 11 ao 29 de janeiro. Na foto as "blackboxes". RFI/ D. Leiras

A Gaité Lyrique, um espaço multimídia dedicado à cultura e arte digitais, organiza em Paris uma exposição atípica sobre a figura ultracontemporânea do lançador de alerta.


Instalações, performances e espetáculos foram realizados por artistas extremamente familiarizados com as artes digitais e que utilizam, por vezes, os mesmos métodos utilizados pelos hackers.

O objetivo da exposição não é exatamente o de explicar quem são eles e de que modo os lançadores de alerta se infiltram em dados ultrassecretos. A intenção primordial é a de sensibilizar o público e denunciar algumas das anomalias existentes em nosso sistema democrático.

A especialista em novas tecnologias e comissária da exposição, Marie Lechner, explica que o lançador de alerta é uma figura que tem interpelado a sociedade. Ela afirma que a ideia não é transformá-lo num herói, mas, sobretudo, provocar uma reflexão quanto às disfunções que eles revelam a respeito do sistema.

Lechner cita, como exemplo, temas ligados à vigilância, ao exílio fiscal, ao lugar ocupado pelos serviços secretos na sociedade, enfim, a todos os aspectos que nos interrogam cada vez mais. “Os artistas que fazem parte da exposição abordaram a temática de modo artístico e estético.”

Uma das instalações mais ousadas, “Call-a-spy”, foi realizada pelo coletivo alemão Peng. O grupo - constituído por ativistas, artistas, cientistas e filósofos - utiliza o hacking midiático e a sabotagem cultural com o único intuito de provocar a desobediência civil e provocar mudanças no discurso público.

RFI/ D. Leiras

Através de um call center, o visitante é convidado a telefonar a um dos serviços de espionagem de países como o Canadá, França, Alemanha e Estados Unidos. A instalação, uma mistura de performance artística e militantismo, serve para desmistificar os serviços de inteligência.

Julien, um dos artistas do coletivo, justifica a iniciativa: “Isso permite quebrar o muro existente entre o público, ou seja, a sociedade civil, e os serviços secretos. Nós não sabemos ao certo o que se passa no interior desses serviços. O artista sugere que a sociedade civil não conhece as leis que favorecem os serviços secretos, sobretudo, após os ataques terroristas sofridos pela França, que ainda se encontra em estado de emergência."

De acordo com a comissária da exposição, as reações dos agentes são variadas, às vezes até simpáticas. Durante a vernissage, um pai que estava acompanhado de seu filho pequeno ligou para os serviços secretos alemães e pediu conselhos para que seu filho pudesse exercer a profissão de espião. O agente alemão respondeu ao pai que eles deveriam se dirigir ao serviço secreto francês, pois ele tinha percebido que seu interlocutor tinha sotaque francês.

RFI/ D. Leiras

Uma outra instalação surpreendente se chama “Assange’s Room”. Trata-se de uma réplica exata do quarto de Julian Assange, fundador da Wikileaks, recriada pelo coletivo berlinense !Mediengruppe. “Chelsea’s Wall” é a parede onde foram projetados alguns dos tuítes da militar americana Chelsea Manning, feitos na prisão militar de Fort Leavenworth.

vinciane lebrun-verguethen

Já o coletivo de artistas (La)Horde, aproveita o espaço oferecido pela Gaité Lyrique e divulga uma versão de sua plataforma feita sobre a dança pós-internet e o trabalho de jovens dançarinos do mundo inteiro.

A artista grega Danae Stratou apresenta suas “Black Boxes”, que fazem referência às caixas-pretas dos aviões. A artista afirma que esses equipamentos nos ajudam a compreender as razões das catástrofes, mas, infelizmente, tarde demais.

No caso dessa instalação, as caixas-pretas contêm palavras que definem aquilo que mais nos aterroriza ou algo que precisa absolutamente ser protegido. Desse modo, as caixas-pretas da artista revelam preocupações profundas do público.

A exposição “Lançadores de alerta” fica em cartaz até o dia 29 de janeiro de 2017.