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Enquanto Dória apaga, a Street Art brilha na França

Por Leticia Constant

A decisão do prefeito de São Paulo, João Doria, de pintar de cinza os grafites do corredor urbano da avenida 23 de maio, provocou uma avalanche de reações indignadas. Na França, ao contrário, prefeituras, museus e galerias de arte recorrem cada vez mais aos artistas de rua e seus grafites.

Post dos grafiteiros paulistas Gêmeos, de fama internacional

O prefeito de São Paulo, João Doria, declarou guerra aos grafites, ordenando uma operação que chocou moradores da cidade e artistas de rua do mundo todo.

Cobriu de cinza a famosa galeria a céu aberto da avenida 23 de maio, sem mesmo lançar uma discussão com uma comissão cultural ou propor uma reflexão sobre a preservação dos mais de 15 mil metros quadrados de grafites pintados por mais de 200 artistas.

O corredor de arte urbana, um dos maiores da América Latina, foi uma proposta da prefeitura anterior, de Fernando Haddad, quando artistas famosos foram convidados a criar as obras.

A ação faz parte do programa "Cidade Linda", que rapidamente virou "Cidade Cinza" nas redes sociais. A operação "de guerra"  prevê reparo em calçadas e pintura de muros em vários bairros da capital. O prefeito também passou a ser chamado de "Doria Gray".

Artistas de rua e intelectuais brasileiros protestaram contra a medida, entre eles, a dupla de grafiteiros paulistas Os Gêmeos, formada pelos irmãos Gustavo e Otavio Pandolgo, que no dia 27 de janeiro publicaram na sua página Facebook um "post protesto" contra o prefeito João Doria.

"Como apagar sem diálogo?"

São Paulo também é a terra de Rafael Suriani, artista de rua, arquiteto, que vive e trabalha em Paris.

Ele diz o que está sentindo com a "cidade cinza": "A primeira reação é ficar chocado, é uma ação violenta, uma

Arte de rua de Rafael Suriani em Paris Rafael Suriani

forma agressiva e muito forte de poder, que vai contra uma conquista de São Paulo dos últimos vinte anos, que é a cena do grafite, da arte de rua, que virou uma das expressões mais belas da cultura urbana e da São Paulo. Então, como chegar e apagar sem diálogo uma conquista? Uma das maiores pinturas mural do mundo feita por 200 artistas, que representa uma sociedade, como uma gestão pode chegar e apagar sem diálogo? A gente se sente agredido como artista e como cidadão em geral", desabafa.

O artista diz que para ele o corredor da 23 de maio representava um avanço, uma forma de consagração da arte de rua que lhe dava muito orgulho. "No mundo todo São Paulo é respeitada, junto com Berlim, talvez as duas capitais da arte urbana no mundo, para mim era o símbolo de toda uma apropriação que a população paulista teve do espaço público", diz.

A pergunta é inevitável.Isso poderia ter acontecido na França? Um prefeito apagar assim tantas obras? Para Rafael Suriani, isso dificilmente ocorreria porque a política aqui na França se faz de outra maneira, com muito mais participação".

Rafael também deixa uma mensagem para o prefeito Doria: "É impossível lutar contra o grafite, vai aparecer de novo, sempre foi assim, não adianta apagar".

"Atualmente a Street Art na França é uma loucura", diz o artista C 215

Vamos fazer um paralelo entre a decisão arbitrária do prefeito paulista e o tratamento que a França dá à Street Art? 

No ateliê de um dos monstros sagrados do grafite francês, o artista C215 - famoso internacionalmente, com obras em dezenas de capitais do mundo - a produção é intensa. Eu perguntei a ele como a arte de rua é vista por aqui.

Wild Side Story, sobre azulejos, de C215 C215

"Na França, atualmente, é uma loucura o interesse pela Street Art. Há encomendas de grafites de tudo o que é lado, institucionais, prefeituras, galerias... A França, hoje, é o país onde a arte urbana é mais bem recebida no mundo. Para dar uma ideia, estou preparando a exposição "Atletas" para o Museu Nacional do Esporte, em Nice. Hoje, na França, os artistas são convidados a fazer exposições individuais nos museus, o artista Invader está no Musée En Herbe, de Paris, o Speedy Graphito expõe no Museu de Touquet, temos realmente um reconhecimento maior por parte das instituições".

E como evitar que políticos destruam criações de antecessores com outra visão cultural? "Infelizmente, a Street Art também pode se tornar um tema político; e é principalmente no momento da criação que os habitantes devem se mobilizar para inscrever os grafites no patrimônio. Quando os muros estão pintados, alguns gostam, outros são indiferentes, não reagem... Isso abre a porta para reviravoltas políticas e também negligências na preservação do muro. É preciso reagir assim que o muro é realizado, com petições, para que seja inscrito no patrimônio, seja preservado, protegido pela lei, e também restaurado", responde C215.

O artista reflete também sobre o paradoxo que os grafites representam. "Na verdade, temos uma arte a ser

Speedy Graphito expõe atualmente no Musée du Touquet-Paris-Plage, no norte da França

conservada por sua qualidade e pelo patrimônio que representa. Ao mesmo tempo, também é uma arte efêmera, então, nessa condição sempre podem acontecer acidentes. Os muros podem gastar, podemos questionar também a manutenção, pois em vinte anos as pinturas empalidecem. Não tenho um recado ao prefeito Doria, mas claro que nunca é bom saber que uma obra dessa qualidade foi apagada, ainda mais voluntariamente", responde C 215, dando uma pincelada no rosto do ex-jogador e técnico Zinedine Zidane, uma das obras que vai expor no Museu Nacional do Esporte, em Nice.

Street Art 13: o roteiro de arte de rua que atrai parisienses e turistas

A prefeitura do 13o distrito de Paris é um dos maiores exemplos de apoio à arte de rua. O bairro tem um percurso sensacional com diversos artistas que pintaram prédios e muros na rota chamada "Street art 13", que também  conta com a colaboração de duas galerias especializadas nesse tipo de expressão, a Itinerrance e a galeria Mathgoth; o conjunto se tornou uma atração turística obrigatória e atrai, além dos próprios franceses, cada vez mais estrangeiros que querem descobrir Paris além da Torre Eiffel e da Champs-Elysées.

O prefeito do 13° distrito, Jérôme Coumet, considera que a arte de rua é um instrumento formidável da promoção cultural para todos, propondo parcerias com habitações sociais e instituições. Ele apoiou o projeto efêmero Tour Paris 13, em que 500 grafiteiros de 80 países, inclusive brasileiros Loiola, Speto, Rapto e Ethos.

Veja o vídeo sobre a Street Art no 13° distrito de Paris

 

 

 

 

 

 

 

 
 

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