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Filme conta história da ditadura brasileira através da pornochanchada

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“Histórias que o nosso cinema (não) contava”, de Fernanda Pessoa, em competição no Cinélatino, de Toulouse. Divulgação

“Histórias que o nosso cinema (não) contava”, de Fernanda Pessoa, é um dos dois documentários brasileiros em competição no festival Cinelatino de Toulouse, no sudoeste da França. O filme usa recortes de pornochanchadas do final dos anos 70 para fazer um retrato inusitado do Brasil sob a ditadura.


Enviada especial a Toulouse

As situações e diálogos se entrelaçam no documentário, com rostos de atores conhecidos e muita sensualização visual. Há falas que podem chocar até machistas, como “Vocês mulheres é que são felizes, já nascem com um talão de cheques no meio das pernas” ou “Este é o terceiro bumbum que perco esta semana por falta de capital”. Mas a intrincada e criativa colagem também fala sobre as cruéis relações da vida empresarial, racismo, divisão de classes, censura, tortura, crise financeira e greves.

Formada em cinema pela FAAP (SP), com mestrado na Sorbonne 3 (Paris), Fernanda Pessoa conta que esmiuçou cerca de 150 filmes, descobrindo pérolas esquecidas de um gênero que por si só é frequentemente relegado a segundo plano quando se fala em história do cinema brasileiro. “Mesmo na faculdade os professores não davam importância, diziam que a pornochanchada só tinha filmes ruins”, comenta a diretora.

A cineasta gosta da palavra francesa ‘remploi’ para falar sobre a estrutura do filme, que reutiliza imagens para se chegar a uma outra obra. “E a pornochanchada é o meio, e não o assunto, para eu falar de um outro conteúdo, ou seja, os anos 70, a ditadura militar e a sociedade brasileira nesse período”, acrescenta.

“Gosto sempre de lembrar que nasci um ano depois da abertura e que não vivi essa época. Mas como tive que assistir a tantas pornochanchadas, eu sinto que tenho conhecimento desse período, eu entendo como era viver naquela fase. Aprendi muito mais que em aulas ou livros. Os filmes mostram como era o dia-a-dia, a atmosfera da sociedade”, conta Fernanda.

Pornochanchadas com tortura

“Eu comecei a me interessar por esses filmes porque trabalhava na filmoteca da FAAP, e o coordenador era um ex-montador da Boca do Lixo, com um acervo enorme de fotos da época. Catalogando essas imagens, eu me deparei com um filme que gerou o projeto, ‘E agora, José? – A tortura do sexo’. O título já traz toda a contradição do filme, ou seja, um título politizado e um subtítulo que erotiza o conteúdo político. O filme tem tortura e a reencenação da morte do jornalista Vladimir Herzog.”

Fernanda conta que decupou e minutou cada filme, sem um pré-roteiro. Depois, com uma seleção de cerca de 20, ela catalogou por eixos temáticos, como exôdo rural, costumes e moral, homossexualidade, desenvolvimentismo e outros. “E junto com o montador, fizemos esses trechos falarem entre si”, conta. Dessa forma foi surgindo o documentário, com pesquisas e filmes suplementares.

“A estrutura segue uma ordem mais ou menos cronológica, começando com o golpe. Depois vieram o milagre econômico, o êxodo rural, até chegar às greves [no caso, um filme mostrando uma paralisação de prostitutas]”, explica Fernanda.

Direitos autorais e estado das cópias

Sobre a obtenção dos direitos autorais, Fernanda ri e suspira ao mesmo tempo. “Foi muito difícil”, diz. Teve de tudo, explica: herdeiros e realizadores que cederam facilmente os direitos, mas a obra em si estava desaparecida ou em estado deplorável, outros que queriam uma contrapartida financeira muito alta ou os que se negavam a colaborar, com o intuito de continuar a se distanciar da aura pejorativa que a pornochanchada adquiriu.

A cineasta não acha que a pornochanchada era um meio de se passar uma mensagem subliminar. “Eu tive acesso a 150 filmes, mas muitos outros foram feitos, muitos se perderam. A maioria que vi não tinham conteúdo político, o objetivo principal era o entretenimento”, constata.

Documentos históricos

“A minha tese inicial era provar que em qualquer lugar, mesmo o mais inusitado, é possível achar traços da nossa história. Mesmo os filmes sem conteúdo político também são documentos históricos, aprende-se muito com eles”, conclui Fernanda Pessoa.

O outro documentário brasileiro em competição no festival Cinelatino de Toulouse é “Sexo, Pregações e Política”, de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez.