rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

Museu Picasso Guerra Espanha Aniversário Madri

Publicado em • Modificado em

Após 80 anos, obra "Guernica", de Picasso, é comparada a Aleppo

media
"Guernica", obra-prima de Picasso, completa 80 anos Divulgação

Centenas de pessoas homenagearam nesta quarta-feira em Guernica, no País Basco, as vítimas do bombardeio nazista sobre esta cidade há exatamente 80 anos, durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O trágico acontecimento foi imortalizado pelo pintor espanhol Pablo Picasso em um painel que se tornou o símbolo da guerra, de Guernica à Síria.


O quadro voltou à linha de frente, já que a partir de 4 de abril protagoniza uma grande exposição dedicada ao pintor no Museu Reina Sofia, em Madri, onde é exposto há 25 anos.

Seu impacto é tão grande que, na Organização das Nações Unidas (ONU), os bairros devastados da cidade síria de Aleppo foram descritos, há alguns meses, como um "Guernica do século 21".

"Algumas reproduções foram vistas em manifestações de sírios para dizer basta à guerra", conta Rosario Peiró, chefe da área de coleções do museu madrilenho, que, no ano passado, recebeu 3,6 milhões de visitantes.

"Lá estava eu, naquela tarde de 26 de abril de 1937, recolhendo mortos e feridos em Guernica", lembra Luis Ortiz Alfau, que tem 100 anos e mora em Bilbao, a 36 km do município bombardeado.

"Às 16h passaram três aviões alemães e italianos", conta. As aeronaves apoiavam Francisco Franco e outros generais golpistas que se rebelaram em 18 de julho de 1936 contra a Segunda República. "Eles lançaram bombas incendiárias. Foi quando a cidade inteira ardeu", lembra Alfau, que era soldado no lado republicano

O ataque causou entre 150 e 300 mortos, de acordo com as últimas estimativas de historiadores. Mas, sobretudo, inaugurou a "guerra ao terror", que consiste em bombardear por via aérea os civis, uma tática usada muitas vezes na Segunda Guerra Mundial.

Dois dias após o bombardeio, em sua oficina da rua Grands-Augustins, em Paris, Picasso descobriu pelos jornais os primeiros registros fotográficos da tragédia. Em 1º de maio, começou os esboços preparatórios.

Touro impassível, cavalo em fuga

Na tela, de mais de 7 metros de comprimento, uma mãe com seu filho morto nos braços se contorce de dor, sob o olhar impassível de um touro. Um miliciano desmembrado com uma espada quebrada jaz no chão, pisoteado por um cavalo em fuga.

"Impactaram-me suas dimensões, e posso imaginar o que foi a guerra espanhola", diz Takahiro Yoshino, um japonês de 20 anos absorvido diante da pintura, "cujos personagens parecem gritar".

O quadro também tem sido estudado por gerações de estudantes. "Por que estão tristes?", perguntam crianças de 3 anos sentadas na frente da tela. "Porque Picasso também estava muito triste", responde a professora, Sonia Seco.

Morando em Paris desde 1904, o artista já era um dos maiores nomes da pintura mundial e militava em defesa da Segunda República espanhola.

A tela, pintada em preto, branco e cinza, respondia a um pedido das autoridades republicanas espanholas. Foi exibida na Exposição Universal de Paris, em 1937, na qual podiam ser vistos os pavilhões rivais da Alemanha nazista e da União Soviética.

Emblema da esquerda

Apesar do seu reconhecimento universal, a imagem recebeu algumas críticas na época, como do britânico Anthony Blunt: "Picasso pertence ao passado".

O poeta francês Michel Leiris permaneceu parado em frente ao quadro, estupefato por algo "assombrosamente belo". "Picasso nos envia nossa carta de luto: tudo o que amamos vai morrer", escreveu.

A obra, por sua vez, viveu sua vida de "exilada espanhola", relembra Rosario Peiró. A partir de 1937, ela iniciou uma longa viagem pela Europa e Estados Unidos, que inicialmente serviu para arrecadar fundos para os refugiados espanhóis da guerra.

Confiada ao Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1939, ano em que Franco ganhou a guerra, a obra permaneceu mais de 40 anos em solo americano.

Picasso, filiado ao Partido Comunista francês em 1944, havia orientado que a pintura só poderia ir ao seu país natal quando fossem devolvidas ao povo espanhol as liberdades que tinham sido confiscadas.

Símbolo poderoso

Na Espanha, por sua vez, tornou-se um símbolo poderoso. "Os antifranquistas penduravam muitas vezes em suas paredes o cartaz do 'Guernica'", aponta o francês Emmanuel Guigon, diretor do Museu Picasso de Barcelona.

Em 1981, o quadro viajou a uma Espanha em plena transição democrática. Sua primeira localização foi, no entanto, um pouco peculiar. Foi exibido em uma dependência anexa do Museu do Prado atrás de um triste "bunker de vidro à prova de explosões e balas que afastava o espectador", em um país onde a memória histórica estava "longe de ser pacificada", segundo o escritor e posterior ministro da Cultura Jorge Semprún (1923-2011).

"A importância que tem no inconsciente coletivo é tal que o defino como um trabalho espiritual, sempre com o objetivo de promover a paz", diz Bernard Ruiz-Picasso, neto do pintor.

(Informações da AFP)