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Ofuscada por Rodin, finalmente Camille Claudel tem seu próprio museu

Por Leticia Constant

O Museu Camille Claudel acaba de ser inaugurado em Nogent-sur-Seine, a uma hora de Paris. Neste ano do centenário da morte de Rodin, a escultora tem o merecido reconhecimento com a inauguração do seu próprio espaço.

 

Impossível dissociar a escultora francesa Camille Claudel de seu mestre, Rodin. Seu talento imenso foi devorado pela paixão pelo escultor, de quem foi aluna e amante, e pela loucura. Em 1911, aos 47 anos, ela foi internada num hospício, onde passou os últimos 30 anos de sua vida, até morrer aos 78 anos.

Entrada do museu com fachada contemporânea na antiga casa da família Claudel rfi.fr

Mas suas obras comprovam que ela foi uma das grandes artistas do final do século XIX e para ter esse lugar reconhecido, faltava ter o seu próprio museu.

Foi na cidade de Nogent-sur-Seine, a uma hora de Paris de trem, que Camille Claudel e seu irmão, o poeta Paul Claudel, passaram a juventude. E foi a residência antiga de dois andares da família Claudel, a escolhida para abrigar a maior coleção do mundo de suas obras.

A velha casa se tornou um museu moderno e luminoso, que acaba de ser inaugurado, e é dedicado à época áurea da escultura francesa: além de Camille, estão expostas obras de Alfred Boucher, Paul Dubois e, é claro, Auguste Rodin, que a encontrou quando ela tinha 20 anos, e ele, 40.

A curadora do museu, Cécile Bertran, reconhece que a escultora é uma figura romanesca pela dimensão trágica de sua vida pessoal, aliada a uma obra excepcional, com todos os ingredientes reunidos para despertar o interesse do público. Cécile Bertran espera que o espaço dê a merecida projeção à escultora: "Esperamos que o museu permita que sua obra seja conhecida, que o público possa tomar consciência da importância dessa artista. Além de sua história pessoal, que todo mundo conhece, gostaríamos que a partir de agora seja a sua obra que esteja sob os holofotes, e que as pessoas venham de toda a França e do mundo inteiro para ver seu trabalho de artista. E é isto que permitirá que ela seja reconhecida como merece".

Quanto ao estilo da artista, Cécile Bertran comenta: "É difícil definir um estilo que a caracterize, pois tem uma obra extremamente rica. Se quisermos, talvez, encontrar um ponto comum em sua obra, pode ser a maneira de absorver influências, quase todas as influências do seu tempo, e utilizá-las para criar algo completamente diferente, pessoal, muito moderno, potente. Talvez o seu lado mais inovador esteja nos croquis da natureza e, particularmente, na série chamada Les Causeuses ( As Faladeiras), onde ela desenha pequenos grupos conversando, pequenos formatos, que possuem uma força monumental", reflete a curadora.

Camille Claudel, a escultora do movimento

A historiadora de arte Anne Rivière-Petitot é autora do livro "O Proibido, Camille Claudel de 1864 a 1943".

"A Valsa", obra representativa do movimento, de Camille Claudel © musée Camille Claudel, photo Marco Illuminati

Ela analisa que o aspecto clássico e monumental de Camille foram influências de seu mestre, Auguste Rodin, que tinha o dobro de sua idade e foi seu amante; eles tiveram uma relação atormentada, já que o artista nunca deixou a esposa.

Essa paixão se refletia na obra da artista, que tentou se afastar do carismático escultor, como explica a especialista: "Todos conhecem a trajetória trágica de Camille Claudel. E num certo momento ela teve que se separar - do homem Rodin e de sua influência artística. Ela buscou sair do modelo do professor, e é verdade que ela inovou, criando uma escultura que eu defino como 'escultura do movimento'. Para dar esse movimento, e a percepção desse movimento a quem observa seu trabalho, ela criou obras construídas em desequilíbrio, em diagonal, algumas delas estruturadas sobre um triângulo. Além disso, há um grande 'savoir-faire" de modelagem e de entalhe. Ela tinha uma prática extraordinária, e nisso é uma artista singular, única", observa a historiadora, referindo-se particularmente à peça chamada A Valsa, que considera a obra pioneira do movimento.

O percurso do museu Camille Claudel

O museu foi concebido como um espaço de aprendizado, de assimilação da arte de esculpir. Assim, a primeira sala mostra a diversidade dos conhecimentos que os escultores do século XIX tinham, e dois filmes ensinam como o bronze era fundido e como o mármore era entalhado.

As outras salas expõem os escultores da época e uma delas representa o ateliê de Rodin, trazendo à tona a presença de Camille, seja como escultora, seja como conselheira, em obras como a Porta do Inferno, Burguês de Calais e Monumento a Balzac.

O ateliê Rodin é uma transição para as 43 obras modeladas pelas mãos de Camille Claudel, decididamente modernas. Entre elas, se destaca o busto de Rodin com sua densa barba, e outras dotadas de grande tristeza como O Adeus e A Idade Madura, que exprimem seu sofrimento depois da ruptura amorosa. Inevitável não se impressionar com a cabeça cortada da Medusa, com os traços do rosto da artista, um prenúncio da loucura que a afastaria definitivamente da arte e que a levou a destruir muitas de suas criações.

A programação do museu inclui atividades práticas e lúdicas como, por exemplo, a temática "Uma escultura, um conto", em que uma obra é associada a um conto literário, lido em público.

Veja o vídeo do Museu Camille Claudel

 

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