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João Paulo Miranda Maria: “Interior de SP é minha matéria-prima”

Por Elcio Ramalho

“Não fui eu quem descobriu o Festival de Cannes. Foi o Festival de Cannes que me descobriu”, brinca o cineasta João Paulo Miranda Maria ao se referir ao evento que o projetou internacionalmente e abriu as portas para novas experiências cinematográficas.

Desde que recebeu a menção especial do júri de Cannes em 2016 pelo curta-metragem “A Moça que Dançou com o Diabo”, seu trabalho ganhou visibilidade mundial e a vida virou do avesso, resultando até em uma mudança temporária de endereço.

A fama repentina conquistada junto com o prestigioso prêmio poderia fazê-lo trilhar caminhos mais confortáveis financeiramente. Ele diz ter recebido propostas para dirigir comerciais no Brasil e até encarar uma aventura em Hollywood, mas preferiu seguir suas convicções.

Por isso, decidiu se instalar em Paris como um dos seis selecionados - entre centenas de candidaturas - do programa Cinéfondation, vinculado ao Festival de Cannes. O dispositivo consiste em uma residência artística na capital francesa e inclui uma bolsa de estudos modesta, além de contatos com produtores e profissionais que auxiliam cineastas a preparar o primeiro ou segundo longa-metragem da carreira.

João Paulo chegou em março para passar uma temporada de quatro meses e meio, que poderá ser estendida por até um semestre, já que prevê participar de laboratórios cinematográficos e encontros em festivais internacionais. “Está sendo uma experiência incrível, é uma oportunidade única estar em Paris, no berço do cinema mundial. Minha referência teórica vem muito da escola francesa. Para mim é um prestígio enorme”, disse na entrevista à RFI Brasil.

A rotina é intensa. Ele intercala a elaboração do roteiro com consultorias e encontros com produtores, além de apresentações orais do filme em gestação. “O trabalho é de lapidar o projeto até ele poder ser executado”, explica o cineasta.

“Casa de Antiguidades” é o nome já escolhido para o longa de estreia e que, se tudo der certo, será estrelado por Antonio Pitanga e rodado até o final do ano. O filme vai contar a história de um homem com idade avançada que deixou o norte do Brasil e se instalou no interior de Santa Catarina. O protagonista trabalha dentro de uma fábrica de leite e seu contato com os animais vai repercutir na sua relação com outros seres humanos. “Uma regressão que vai fazê-lo voltar a um estado quase primitivo, animal”, revela.

Cinema "caipira"

Nascido em Porto Feliz e radicado em Rio Claro, ambas cidades do interior paulista, João Paulo reivindica um cinema “caipira”, mas longe dos clichês reproduzidos nos filmes e produções audiovisuais. “Quando via muitos trabalhos, eram retratados de maneira quase estereotipada. Quando eu falo que faço um cinema caipira, as pessoas imaginam um cenário rural, do 'Jeca Tatu' ou 'Mazzaropi'”, afirma.

A necessidade de retratar um universo mais fiel às suas raízes interioranas o levou a criar, em 2005, um pequeno “núcleo” cinematográfico em Rio Claro, onde também atua como professor de cinema na UNIMEP. Primeiro fundou um cineclube, o “marco zero”, segundo ele, de um processo que desencadeou na criação de um grupo prático formado por amadores e fãs de cinema, batizado de Kino-Olho.

Os exercícios feitos com imagens gravadas por celulares evoluíram para o que Miranda Maria chama de “filmes-ensaios”, sempre com o foco na promoção das histórias e do folclore do interior. “Para mim, toda essa relação do interior, no caso o interior do estado de São Paulo, acabou se tornando minha matéria-prima. Eu precisava falar sobre aquilo, sobre aquelas pessoas, as coisas boas e ruins. E também ser crítico. Era um olhar único, bastante singular sobre aquela realidade”, conta João Paulo.

“Um artista sempre deve dizer algo sobre onde vive, o que acontece ao seu redor. Aí acaba criando uma cumplicidade maior porque você está falando de algo mais verdadeiro e muito mais próximo do que você sente”, acrescenta.

Nos últimos três anos, o Kino-Olho evoluiu para a produção de curtas-metragens, que apesar dos poucos recursos tinham muitas ambições, por isso passaram a ser enviados a festivais. Foi com imensa surpresa que João Paulo viu seu curta "Command Action" selecionado e projetado em uma mostra do Festival de Cannes em 2015. No ano seguinte, veio a menção especial do júri com A Moça que Dançou com o Diabo, uma produção de R$ 500, que competiu com filmes de orçamento muito mais poderosos.

Os sonhos são possíveis

Quase um ano depois de ter dividido o palco da cerimônia com grandes nomes do cinema mundial, João Paulo admite que o prêmio mudou sua vida, e não apenas por trocar momentaneamente Rio Claro por Paris. “Mudou no sentido de que seus sonhos são possíveis. Parece bobo de falar, mas eu venho do interior, de uma família simples, de comerciantes. Sempre foi uma coisa muito distante imaginar um artista na família, ainda mais fazendo cinema. Era praticamente impossível”, recorda. “Tudo acabou mostrando o que é possível e aonde o esforço pode levar”.

Apesar da distância, ele acompanha o trabalho desenvolvido pelo Kino Olho e dos membros que ele chama de “sonhadores”, como técnicos e atores que nunca haviam feito cinema antes e que, agora, estão produzindo filmes. “Já não sou o único diretor. Neste semestre em que estou aqui, estão sendo produzidos três curtas. É uma onda que está caminhando”, diz, orgulhoso.

 Para ouvir a entrevista completa, clique na foto acima. 

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