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Cultura, a grande ausente na campanha presidencial da França

Por Leticia Constant

Entre os temas defendidos com ardor na campanha dos candidatos que lutam para entrar no Palácio do Eliseu para um mandato de cinco anos, a cultura não foi incluída. Um paradoxo, em um país famoso por seu patrimônio artístico, que rende mais para os cofres do país do que a indústria automobilística.

A França acaba de viver uma campanha presidencial intensa, marcada pelo debate televisivo inédito entre os 11 candidatos, dos mais fortes aos nanicos, e comícios supermidiáticos por todo o país. Emprego, segurança, economia, aposentadoria, imigração e Europa foram temas onipresentes, e nesse leque, alvo das argumentações mais inflamadas, ela ficou ali no cantinho, invisível, esquecida, fora de foco. Eu estou falando da Cultura.

Não que os presidenciáveis não tenham propostas em seus programas, mas trazê-las à tona em debates decisivos para atrair votos é outro assunto, ainda mais em um contexto histórico de indecisão. E também uma injustiça, já que a cultura contribui 7 vezes mais para o PIB francês do que a indústria automobilística.

Candidatos não demonstram interesse pessoal pela cultura

José Manoel Gonçalves, diretor do 104, espaço cultural de Paris ©Manuel-Braun

José Manuel Gonçalves é o diretor do espaço 104, em Paris, cujo conceito reúne residências artísticas, produção e divulgação de criadores do mundo todo, em  uma espécie de plataforma colaborativa com uma programação popular, contemporânea e exigente.

Nesta reflexão sobre a ausência do tema na campanha, ele afirma que o problema dos políticos é ligarem cultura e orçamento. "Os políticos estão pensando que os atores culturais são um problema de orçamento, de dinheiro, de ter ou não dinheiro suficiente. Só o que eles fazem é indicar a todos que querem manter o famoso 1% do orçamento do Estado para a cultura, como se a única razão do meio cultural estivesse ligada a isso. Por que eles pensam assim? Porque eles praticam muito pouco, como pessoas, uma atividade cultural. Poucos falam que vão ao teatro, vão à ópera, que estão lendo alguma coisa, então, eles têm uma visão da cultura do século XIX e não do século XXI", argumenta Gonçalves, criticando justamente esta falta de visão de uma França cultural no futuro.

Quanto à ausência do tema nas campanhas e debates, o diretor cultural tem uma opinião: "O problema do meio

cultural para os políticos é que, mesmo se não vai dar muitas vozes para os candidatos, a categoria tem uma capacidade de mobilização contra alguma coisa, que é muito forte. O que os políticos estão fazendo agora é não definir muito bem os programas porque senão há o risco de mobilização contra. Se eles vão dar uma opinião forte, dar uma visão forte, para um lado ou para outro, sabem que há o risco de levar a opinião do meio cultural contra eles e isso é muito perigoso (...) então, estamos nessa situação em que eles [os candidatos] não vão dizer o que querem fazer dessas novas iniciativas... só para dizer isso, eles estão com medo, os candidatos estão no "não dizer", com medo de uma reação", analisa José Manuel Gonçalves. 

As mídias e as prioridades

A falta de interesse pela cultura durante a campanha também pode ser explicada pela postura das próprias mídias. Sem aprofundar a questão, elas se voltaram para os temas da atualidade que afetam diretamente a sociedade francesa e o papel da França no mundo.

O professor de literatura na Universidade de Poitiers, Michel Riaudel, acha que a cultura nunca foi prioritária. "Não sei exatamente se a cultura foi ausente dos programas ou se a imprensa ficou mais atenta a outros assuntos. Meu sentimento é que a cultura, geralmente, funcionou como uma coisa marginal que dava o relevo, dava o prestígio, mas numa época de crise sempre foi sacrificada. Falo da cultura no sentido da política cultural em termos de investimentos, e o Hollande não brilhou pelo investimento na cultura", analisa.

Michel Riaudel também analisa que, no passado, alguns presidentes tinham perfis mais cultos do que os políticos de hoje. Além de Georges Pompidou, que criou o famoso centro cultural Beaubourg, no coração de Paris, ele cita outros nomes: "Bem ou mal, com oportunismo ou não, Valéry Giscard D'Estaing valorizava o seu gosto por Maupassant [Guy de Maupassant, escritor], o [François}  Mitterrand era leitor assíduo de alguns autores, o [Jacques] Chirac tinha interesse pela cultura japonesa, por certos assuntos culturais... a cultura do [Nicolas] Sarkozy era a Eurodisney, o Hollande tampouco deu sinal de interesse", observa Riaudel.

Propostas dos presidenciáveis: das mais simples às faraônicas

O centrista Emmanuel Macron quer criar um passe cultural no valor de 500 euros, cerca de 1.650 reais, cofinanciado por grupos comerciais e plataformas numéricas. A ideia é presentear é dar de presente o passe aos  jovens que fizerem 18 anos, para que possam curtir saídas culturais.

Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, famoso por seus comícios com hologramas para diversas cidades, promete fundar um centro nacional de videogame nos mesmos moldes da Cité du Cinéma, a Cidade do Cinema em Saint-Denis, na periferia norte de Paris, e uma videoteca pública on-line.

O socialista Benoît Hamon sonha com o Palácio da Língua Francesa.

Marine Le Pen, da extrema-direita, prefere utilizar o termo "modo de vida francês" do que criação artística e pretende aumentar em 25% o orçamento do patrimônio nacional.

François Fillon, da direita, quer apoiar o acesso à cultura prolongando o horário de fechamento dos museus e bibliotecas, além de investir na digitalização dos museus.

Ante todos esses projetos, a Cultura observa de longe e aguarda, pacientemente, o segundo turno da eleição para ver o que vai acontecer.

Veja aqui os programas culturais dos principais candidatos

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